UM EMOJI É UMA PALAVRA? ¯\_(ツ)_/¯

UM EMOJI É UMA PALAVRA? ¯\_(ツ)_/¯

O avidamente antecipado “Oxford Dictionaries Word of the Year for 2015” foi anunciado. E é:1f602 . É o emoji conhecido oficialmente com “Rosto com Lágrimas de Alegria,” mas você pode conhece-lo como “chorando de tanto rir.”

As reações ao anúncio variaram de  1f604 para 763a1e17c2368ecebe244218a9ef19bf para 9a8a47633af621d0db0a1d2ab2868b70  para af2faf4d7ec922b00690c28c599e3d1b para “:P” para  ¯\_(ツ)_/¯. Algumas pessoas acham que os lexicógrafos de Oxford estão trolando os guardiões da língua. (Eles podem estar certos) Mas a grande pergunta é: É  mesmo uma palavra?

Podemos usá-lo escrevendo como uma palavra: Podemos colocá-lo em no lugar de qualquer interjeição como tsk ou ou hahaha ou nãã, quando importa, frustração ou impaciência, todos os quais são palavras. E podemos usá-la em lugar de outros tipos de palavras também. Mas se é uma palavra, como se diz? E que tipo de palavra é ela?

A visão padrão é que a linguagem escrita representa a linguagem falada, a qual pensamos como as coisas que dizemos diagramadas numa sentença ou podemos definir num dicionário. Mas a comunicação falada é apenas um tipo de gesto do espectro. É apenas o tipo mais fácil de marcar e estritamente definir – parcialmente porque colocamos o máximo de esforço em fazê-lo com ele. E as palavras nas sentenças são de longe mais fáceis e mais obvias de escrever do que as outras partes. Então usamos algumas marcas como “! para tentar exprimir um determinado tom, caso contrário é tudo o que podemos escrever com letras e alguns símbolos. Tentamos administrar o que fica a cargo das expressões faciais e dos gestos que fazemos.

Até agora. Agora, finalmente, os gestos, além do discurso, estão começando a receber o mesmo tratamento do discurso. Desde 1982, quando Scott Fahlman propôs “:-)” para o uso em mensagens de texto simples no quadro de mensagens digitais do Carnegie Mellon, temos uma forma codificada de pôr um sorriso em forma impressa para indicar uma atitude amigável ou bom humor, e o significado de “:-)” em uma mensagem não é mais difícil de definir como um “ok”. (E, como gostamos de simplificar as palavras podemos usá-la aqui simplificando “:-)” para “:)”, e porque não.) Surgiram outros emoticons após esse que se expandiram com a adição aos caracteres Unicode. Desde 1999, criados por Shigetaka no Japão, temos os emoji.

Em cada caso, os emoticons e os emoji são representações da existência de gestos codificados – um sorriso, uma careta, um dar de ombros, um grito – ou um objeto que tenha nome. Sabemos exatamente o que “¯\_(ツ)_/¯” significa. Nós mesmo já fizemos isso muitas vezes. A definição em um dicionário seria a fração do alcance da definição de uma palavra como set ou well. Embora isso não seja exatamente o mesmo que a definição de shrug – ele tem elementos de um sorriso estranho ou um meio sorriso, e não estamos nos referindo ao ato, mas estamos agindo, no papel. O mesmo acontece com palavras como boom ou splat que se imitam a performance do som que imitam.

Já que encontramos uma forma de pôr gestos no papel, surgiu um efeito de retorno. Pense em LOL. Quer dizer “Laghing out loud” e originalmente significava que a pessoa estava realmente rindo alto, ou ao menos estaria se eles estivessem falando ao invés de digitando. Mas no texto ele se torna ele mesmo: podemos pronunciá-lo, usá-lo como substantivo (mesmo que seja apenas para os LOLs), duplica-lo LOLOLOL. Dessa forma ele alimenta o discurso de uma forma mais complexa do que era antes. O mesmo acontece com o 1f602.

É verdade que 1f602 não utiliza letras, mas nem 7 ou & usam e ambas significam algo que usam palavras. É também verdade que não pronunciamos 1f602, mas o usamos como gesto. Podemos brincar com ele e usá-lo de diferentes tipos de palavras. Eis alguns tipos de palavras que 1f602 pode assumir:

Interjeição: É forma mais comum de uso: como em tsk,, haha e por aí vai, ela pode ser uma expressão por si mesma, preenchendo as mesmas lacunas como uma oração inteira, porém sem substantivo ou verbo, apenas para expressar uma atitude. Por que escrever “chorando de tanto rir” (que usa 18 caracteres dos 140 que podemos usar no Twitter) quando você pode apenas usar 1f602? Se quisermos enfatizar podemos usar mais de um  1f6021f6021f602– assim como tsk tsk tsk ou hahahahaha.

Orações Adverbiais: Podemos dizer que emoticons e emoji podem ser usados como orações adverbiais, transmitindo uma atitude para o enunciado como um todo, como honestamente em “honestamente, não me importo”. Normalmente os colocamos no fim da oração o que não é comum em orações adverbiais, e usamos vírgula como em “não me importo, honestamente”, provavelmente não usaríamos a vírgula em “não me importo :P”. Podemos coloca-los no começo da oração – 1f602 Ridículo! – percebem que colocamos letra maiúscula na próxima palavra? Isso sugere que tratamos as duas como expressões separadas, como em “Hahaha! Que ridículo!” Não usamos, geralmente, como os outros tipos de advérbios pois não é comum encontrarmos formas como “Que 1f602 louco!”

Adjetivo: Podemos usá-lo como What’s up with the 1f602  face?, mas não é comum. É mais comum seu uso como predicativo, como em I’m feeling really 1f602 about that.

Substantivo: Você pode escrever I got a lot of 1f602 out of that. Mas provavelmente usariamos o plural: How many 1f602s did you get out of that?

Verb: There’s no big problem with If he does that I am going to . But we can’t easily conjugate it. It likely looks wrong to put He really  a lot orYesterday he  all evening.

Verbo: Não é um problema escrever If he does that I am going to 1f602. Porém podemos facilmente conjuga-lo. Mas parece errado escrever He really 1f602 a lot ouYesterday he 1f602 all evening.

Mas, não importa como você usa o 1f602 numa oração, ainda não podemos pronuciá-lo! É verdade que a linguagem falada é apenas um modo comunicativo, e não é o único tipo que pode ser claramente codificado e definido – temos muitos tipos de gestos e expressões faciais que não são menos claras que as palavras – mas sempre guardamos a palavra “palavra” para o tipo de gestos que podemos usar para os sons do discurso.

Então é tempo de mudarmos isso? ¯\_(ツ)_/¯ . Oxford já mudou.

Texto traduzido de Is an emoji a word? ¯\_(ツ)_/¯

Oxford Dictionaries Word of the Year 2015

O ESSENCIAL SOBRE A LINGUÍSTICA

Como se sabe que uma língua é uma língua?

Entendendo-se a língua como um sistema de comunicação que faz uso da faculdade da linguagem ativada pela exposição dos falantes a estímulos linguísticos durante o período de aquisição da língua, podemos inferir alguns conceitos pertinentes como:

  • Dialeto: identifica o sistema linguístico próprio de uma dada região
    • Socioleto: um conjunto de dialetos que corresponde a um recorte social da língua.

Nesse conceito podemos compreender que uma língua remete a ideia de um sistema linguístico que reúne todos os dialetos falados em um país e que sua variedade deve ser interpretada como a manifestação nacional que uma língua falada em diferentes países assume em cada um deles. No entanto, devemos levar em consideração que os critérios objetivos (inteligibilidade mútua, o número de falantes, a coesão geográfica e política de uma determinada comunidade de falantes, etc.,) tornam mais difícil a construção desses conceitos. Dessa forma, a linguística lança mão de termos como língua materna, língua segunda, língua estrangeira, língua oficial, língua de trabalho e outros. Com todas essas variáveis, é difícil determinar o número de línguas existentes, pois, depende de como se determina uma língua e de como se classifica um dialeto.

Em Portugal, onde dentro do conceito exposto a cima, fala-se predominantemente o Português e essa comunidade é em sua maioria de falantes nativos. Porém, inseridos nessa população, encontram-se os falantes dos dialetos setentrionais, centro-meridionais e os dialetos insulares. É relevantes lembrar, que Portugal possui três línguas oficiais determinadas por lei: o Português, a língua Gestual Portuguesa e o Mirandês.  Assim como é esperado que em Portugal se fale o Português, no Brasil essa língua só é compreendida sob a ótica do contexto histórico, por efeito da nossa colonização e perpetuação do meio político. Desta forma, diversos países se comunicam em Português nos cinco continentes.

Não devemos conferir a uma língua maior valor intrínseco, mesmo com um número superior de falantes ou se é usada por muitas instituições internacionais, esses fatores apenas asseguram maior sobrevivência, pois se considera que uma língua falada por uma comunidade menor a 100 000 indivíduos tem menor possibilidade se existir em um mundo onde as ferramentas de multimídia difundem cada vez mais as línguas em maior destaque. Formar um juízo de valor sobre ser um dialeto ou língua errado ou correto, estes apenas de interesse dos estudiosos da gramatica normativa na forma culta, apenas contribuem para pré-conceitos, haja vista que de nada interessam à linguística.

De onde vem a reflexão sobre a linguagem e as línguas?

A invenção da escrita

Quando os sumérios e os egípcios criaram formas de escrita, o fizeram, pois, após uma tomada de consciência da estrutura da língua para assim transforma-la da forma falada para a escrita. Os egípcios associavam imagens de objetos e sons na forma de hieróglifos, os chineses usavam os ideogramas para representar objetos e conceitos. Essas conquistas ocorreram após uma análise, ainda rudimentares, das unidades básicas da língua como as palavras e as frases. No início do II milênio a. C., os fenícios criaram um alfabeto de base fonética, este alfabeto foi interpretado pelos gregos e romanos, criando-se, assim, os sistemas morfológicos contemporâneos.

Primeiras gramaticas

As primeiras gramáticas foram pensadas pelos hindus (I milênio A.C.). O Sânscrito, que significa ‘perfeito’, era tido como sagrado, era usado de forma ritualística, deveria ser pronunciado de forma correta, então os sábios hindus compilaram sua descrição em sons e silabas a fim de evitar deformações.

Os gregos e romanos

Os gregos estudaram sua língua por duas razões, a primeira era um curiosidade sobre a formação da língua, suas variedades e transformações, levando a reflexões filosóficas como as de Platão e Aristóteles. A segunda razão é a busca por um aprofundamento no conhecimento da funcionalidade da língua. Criaram gramáticas e aperfeiçoaram o alfabeto. Como exemplo, Dionísio de Trácia distinguiu as oito partes do discurso (artigo, nome, pronome, verbo, particípio, advérbio, preposição e conjunção), Apolónio Díscolo, em sua obra, desenvolveu a análise sintática, seguindo o modelo de Aristóteles de sujeito e predicado. Preocupados com os poetas antigos e seus textos, criaram a filologia. Os romanos foram além dos estudos filosóficos ou da doutrina gramatical, pensaram no uso da língua para o uso literário, nas questões etimológicas, na retórica e na classificação das palavras.

Idade média

O latim era usado como língua franca nesse período, sistematizando seu uso, foram criadas as primeiras gramáticas para o ensino da língua estrangeira. Nesse mesmo período, como a invenção de Gutemberg, a tipografia, as gramáticas de língua vernácula e escritas nessas línguas começaram a chegar com mais facilidade às mãos dos estudantes. Fernão de Oliveira escreveu a primeira gramática em Português no ano de 1536. Com esses estudos a fonética obteve grande desenvolvimento.

Renascimento e o interesse pelo vernáculo

As viagens marítimas e as mudanças na transição da idade média para o renascimento surgiu a necessidade do estudo das línguas particulares (em vernáculo). No século XVI as Cartinhas ou Cartilhas eram usadas para o ensino da leitura e da escrita, além dessas foram criadas, também, as Ortografias. Com o incremento do ensino das línguas vernáculas foram criados os dicionários e vocabulários descrevendo, por exemplo, o Português pois o latim ocupava cada vez menos espaço. No século XVII cresce o interesse em reflexões filosóficas sobre a linguagem humana e as características universais da língua.

Resumo para a disciplina de Teorias Linguísticas.

MATEUS, Maria Helena Mira & VILLALVA, Alina. O essencial sobre a linguística. Lisboa: Caminho, 2006.(p. 21-37)