À Sombra da Vida

À Sombra da Vida

Animado pelos sentimentos de ler a Montanha Brokeback decidi escrever uma história sobre homofobia também. Tá não sou a Annie Proulx, apenas brinco de escrever, pois estou longe de ser um escritor, porém imaginei uma história que começou como um conto e está crescendo. Não creio que chegara ao tamanho de um romance, mas que seja lá uma novela. Estou escrevendo intuitivamente sem grandes pretensões.

Se vocês tiverem curiosidade de ler um texto simples de alguém que sonha um dia ser escritor sintam-se a vontade para acompanhar Antônio em sua saga em busca da liberdade.

https://www.wattpad.com/story/57704186-à-sombra-da-vida

Por favor comentem lá ou aqui, mas o feedback, mesmo que negativo será de grande ajuda. Lembrem-se que é apenas um exercício, mas está divertido criar essa história. Relutei muito em postar por insegurança mesmo, mas o que é a vida sem um pouco de ousadia?

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Crime e Castigo – 1ª Parte

Contén Spoilers!

Como eu disse no post sobre o desafio, Crime e Castigo é um livro que possuo há alguns anos, ensaiei ler os primeiros capítulos algumas vezes, porém por circunstâncias da vida abandonava o volume. Por isso o desafio ter um ritmo quase impossível, conhecendo-me bem posso dizer que se o desafio for muito fácil eu termino por desistir logo. Então, sem mais demora vamos à leitura.

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Rodion Románovitch Raskólnikov era uma dessas pessoas para quem tudo ao seu redor parecia tedioso, talvez por possuir uma inteligência acima da média. Encontramos o rapaz num cubículo sujo e escuro, vestido como um mendigo e passando fome. Habitava uma São Petersburgo suja, pobre, repleta de bêbados e prostitutas, onde a fedentina enche o ar e entra pelas narinas dos passantes. Viera do interior para estudar, deixando a mãe, essa vive de uma pequena pensão, e a irmã, governanta na casa de uma família abastada em sua terra natal. Abandonara os estudos por falta de recursos e pelo mesmo motivo fugia da senhoria do prédio como um vampiro da luz do dia.

Logo percebemos que algum plano ronda a mente de Rodia, assim chamado pela própria mãe. Ele deixou o pequeno cômodo naquela tarde de Julho para ir à casa de Aliena Ivanovna, uma velha detestável de quem o rapaz tomava dinheiro penhorando seus parcos pertences. Entretanto, aquela visita se mostra diferente, além do dinheiro, nosso amigo, tem outras intensões. Como um espião ele investiga todo o espaço do quarto que Aliena habitava com sua irma Lisavieta. Penhorou o relógio que foi de seu pai e saiu com uma pequena fração do que pretendia receber, mas conseguiu investigar o ambiente, seu objetivo principal.

Saiu de lá com o máximo de informações possível, apesar da velhota vil estar muito desconfiada. No caminho de volta, tomado pela fome, Raskólnikov para em uma taberna suja e conhece Marmieládov. Um bêbado contumaz. Tomado pela bebida, ele se atira à mesa do rapaz e inicia um conversa que termina em narrar praticamente toda a sua vida. Animalizado pelo vício, o bêbado narra sem pudor que é casado pela segunda vez, e a única filha do primeiro casamento é obrigada a prostituir-se para alimentar os irmãos mais novos e a madrasta. Estava ali bebendo os últimos “copeques” da renda da filha. O senhor passou bastante tempo ali, conversou longamente com rapaz sobre suas dores. É claro nesse ponto da narrativa que nem toda pobreza é causada pela falta de trabalho, pois aquele homem era vítima de seus vícios. Muitíssimo habituado às próprias dores, ele perdera duas vezes trabalhos importantes naquela sociedade. Ao fim do longo monólogo, voltou amparado pelo rapaz e mais uma vez voltamos a ter contato com o misterioso plano de Raskólnikov. Ao deixar o lugar onde mora o bêbado o rapaz deixa algumas moedas para a triste família.

No dia seguinte, mesmo assombrado pela fome, nada o agrada. Até a refeição rala, trazida pela cozinheira da senhoria do prédio, não lhe muda o ânimo. Apenas uma carta de sua mãe o traz de volta à realidade. A longa missiva narra as desventuras de sua família: o pouco dinheiro, os empréstimos, a irmã que quase perdeu a honra numa confusão com o ex-patrão e sua esposa e, por fim, um súbito noivado. Esse último fato o traz de volta à vida. O noivado lhe parece quase uma prostituição, o que acelera o plano. Sai do prédio tão irritado esquecendo até os aluguéis atrasados e o risco de encontrar a credora. No trajeto até a casa de um amigo encontramos mais uma situação inusitada. Um menina caminha trôpega pela rua, aparentemente ela havia sofrido alguma agressão sexual. E mais uma vez o pobre Rodia perde alguns copeques tentando ajudar.

A saga do nosso rapaz continua, cai fraco e doente e por algum tempo dorme no relento. Volta à casa e põe o plano em ação. Paramenta-se, encontra a arma do crime e vai até a cena do crime: o lar da velha agiota. Ele consegue ultrapassar a desconfiança da senhora e subitamente a ataca a machadadas. A cena segue, o corpo sangrando no chão e o rapaz procurando por bens valiosos pelo quarto. Percebemos os muitos sentimentos de Raskólnikov, contraditórios, mas enfim, está feito e não é possível voltar atrás. A irmã entra e mesmo tomada pelo horror da pintura grotesca é também vítima do ex-estudante. A primeira parte termina com Rodia escapando mesmo tendo um pequeno contratempo.

Dostoiévski - 1863
Dostoiévski – 1863

Dostoiévski nos mostra uma sociedade doente, dominada pela pobreza, pelo vício, pela ganância e pela torpeza. São Petersburgo é esse lugar onde mesmo as pessoas bem intencionadas são vítimas. Vejamos o próprio Raskolnikov até aqui. Ele surge como um rapaz falido, sem esperanças e decidido a mudar rapidamente o seu destino. Ele esta afogado em sentimentos ruins tendo apenas breves suspiros de bondade, algo que torna o personagem complexo e interessante. O escritor, como todos sabem, descreve com maestria os ambientes e as pessoas. Foi fácil desenhar na mente todos aqueles personagens e cenários. Para mim o que mais surpreende são as descrições psicológicas, todas muito claras, nos ponde sempre a par de qual lugar e momento exatos de cada um.

“Detalhes, os detalhes são o principal! São justamente esses detalhes que botam a perder sempre e tudo…”

Raskólnikov

Crime e Castigo é um texto que exige atenção porque as descrições são essenciais à história, e mesmo assim, interessante e nos prende. Eu li as oitenta e uma páginas em duas sentadas, algumas vezes voltei algumas páginas para ter certeza do que estava acontecendo. Voltei também para absorver a escrita e as descrições. Apesar da sujidade e feiura de tudo é um texto belíssimo e eu estou encantado!!!

Um abraço e até a próxima quarta.

Do que você sente saudade?

Hoje surpreendi-me sentindo saudades de coisas pequenas.  Senti falta do sol durante a natação no SESI. Do medo que eu sentia ao final do treino de ter que compartilhar o vestiário com os outros atletas e ter meu orgulho masculino ferido pelas inevitáveis comparações. Até disso sinto um pouco de saudade. Me fazem falta as quintas-feiras e suas sessões baratas nos cinemas do centro. Fugir da aula do cursinho para bater papo no barzinho ali perto. Jogar conversa fora sem as preocupações com as contas a pagar. Caminhar por Fortaleza sem sentir medo da violência de atual.

A década de 1990 me assaltou a alma com tantos problemas, porém algumas bobagens foram tão agradáveis. Hoje como um homem de trinta seis anos todas aquelas fugas parecem banais… Será que eram mesmo?

Aqueles anos proporcionaram tantas descobertas, algumas bem dolorosas e outras bem alegres. Sinto falta daquele rapaz sem máculas que via o mundo por lentes cinzas as vezes. Eu era um jovem muito quieto, passava muito tempo na companhia dos fantasmas e vampiros de Anne Rice, da sacerdotisa Morgana e seu irmão Arthur de Mariom Zimmer Bradley e tantos outros formados apenas como decodificação de milhões de palavras. Essa forma de solidão acompanhada doía muito e foi trocada pelas amizades da fase do cursinho.

Eis que chegou 1997 e as muitas festas, afinal eu faria 18 anos e o mundo se descortinava. Eu sabia, então, quem eu realmente era. A sexualidade já não era mais um mistério, mas nesse momento a liberdade lhe conferia uma máscara totalmente nova. Eu ainda era um rapaz recatado, muitos tabus ainda não deixavam experimentar tudo o que eu desejava, mas o mundo era meu parquinho. Ia para o cursinho, como era chato aquilo, e logo conheci algumas pessoas. Então esse novo grupo fazia do centro da cidade uma festa. Todo o pouco dinheiro que conseguíamos era usado para usufruir daquilo que a noite oferecia. Muitos medos se foram naqueles dias, alguns tabus persistiam, nada de grave.

Naquele ano aprendi a me movimentar pelos grupos que surgiam, as muitas máscara que usamos para socializar começavam a fazer parte de fato da minha vida de quase adulto. Então, aprendi que podia experimentar coisas antes proibidas pela criação que tive e os últimos três anos dessa década foram, de certa forma, libertadores. Fiz muitas coisas que jovens nessa idade fazem. Bebi muito, fumei muito, “fiquei” muito, beijei muitos, transei com alguns. Esse tabu ainda persistia.

Mas o que mais me faz falta hoje é esse sentimento. De poder tudo. Hoje, apesar dos problemas de ordem prática, sou feliz. Curso uma faculdade que eu gosto, estou num relacionamento maravilhoso e sinto-me mais seguro como ser humano. No entanto, aquela sensação de desbravar o mundo, de pisar em terreno desconhecido, o frio na barriga de saber que tudo é novo e bonito, não ter medo de errar, que cada experiência da vida é nova… Ah como isso tudo era bonito.

UM EMOJI É UMA PALAVRA? ¯\_(ツ)_/¯

UM EMOJI É UMA PALAVRA? ¯\_(ツ)_/¯

O avidamente antecipado “Oxford Dictionaries Word of the Year for 2015” foi anunciado. E é:1f602 . É o emoji conhecido oficialmente com “Rosto com Lágrimas de Alegria,” mas você pode conhece-lo como “chorando de tanto rir.”

As reações ao anúncio variaram de  1f604 para 763a1e17c2368ecebe244218a9ef19bf para 9a8a47633af621d0db0a1d2ab2868b70  para af2faf4d7ec922b00690c28c599e3d1b para “:P” para  ¯\_(ツ)_/¯. Algumas pessoas acham que os lexicógrafos de Oxford estão trolando os guardiões da língua. (Eles podem estar certos) Mas a grande pergunta é: É  mesmo uma palavra?

Podemos usá-lo escrevendo como uma palavra: Podemos colocá-lo em no lugar de qualquer interjeição como tsk ou ou hahaha ou nãã, quando importa, frustração ou impaciência, todos os quais são palavras. E podemos usá-la em lugar de outros tipos de palavras também. Mas se é uma palavra, como se diz? E que tipo de palavra é ela?

A visão padrão é que a linguagem escrita representa a linguagem falada, a qual pensamos como as coisas que dizemos diagramadas numa sentença ou podemos definir num dicionário. Mas a comunicação falada é apenas um tipo de gesto do espectro. É apenas o tipo mais fácil de marcar e estritamente definir – parcialmente porque colocamos o máximo de esforço em fazê-lo com ele. E as palavras nas sentenças são de longe mais fáceis e mais obvias de escrever do que as outras partes. Então usamos algumas marcas como “! para tentar exprimir um determinado tom, caso contrário é tudo o que podemos escrever com letras e alguns símbolos. Tentamos administrar o que fica a cargo das expressões faciais e dos gestos que fazemos.

Até agora. Agora, finalmente, os gestos, além do discurso, estão começando a receber o mesmo tratamento do discurso. Desde 1982, quando Scott Fahlman propôs “:-)” para o uso em mensagens de texto simples no quadro de mensagens digitais do Carnegie Mellon, temos uma forma codificada de pôr um sorriso em forma impressa para indicar uma atitude amigável ou bom humor, e o significado de “:-)” em uma mensagem não é mais difícil de definir como um “ok”. (E, como gostamos de simplificar as palavras podemos usá-la aqui simplificando “:-)” para “:)”, e porque não.) Surgiram outros emoticons após esse que se expandiram com a adição aos caracteres Unicode. Desde 1999, criados por Shigetaka no Japão, temos os emoji.

Em cada caso, os emoticons e os emoji são representações da existência de gestos codificados – um sorriso, uma careta, um dar de ombros, um grito – ou um objeto que tenha nome. Sabemos exatamente o que “¯\_(ツ)_/¯” significa. Nós mesmo já fizemos isso muitas vezes. A definição em um dicionário seria a fração do alcance da definição de uma palavra como set ou well. Embora isso não seja exatamente o mesmo que a definição de shrug – ele tem elementos de um sorriso estranho ou um meio sorriso, e não estamos nos referindo ao ato, mas estamos agindo, no papel. O mesmo acontece com palavras como boom ou splat que se imitam a performance do som que imitam.

Já que encontramos uma forma de pôr gestos no papel, surgiu um efeito de retorno. Pense em LOL. Quer dizer “Laghing out loud” e originalmente significava que a pessoa estava realmente rindo alto, ou ao menos estaria se eles estivessem falando ao invés de digitando. Mas no texto ele se torna ele mesmo: podemos pronunciá-lo, usá-lo como substantivo (mesmo que seja apenas para os LOLs), duplica-lo LOLOLOL. Dessa forma ele alimenta o discurso de uma forma mais complexa do que era antes. O mesmo acontece com o 1f602.

É verdade que 1f602 não utiliza letras, mas nem 7 ou & usam e ambas significam algo que usam palavras. É também verdade que não pronunciamos 1f602, mas o usamos como gesto. Podemos brincar com ele e usá-lo de diferentes tipos de palavras. Eis alguns tipos de palavras que 1f602 pode assumir:

Interjeição: É forma mais comum de uso: como em tsk,, haha e por aí vai, ela pode ser uma expressão por si mesma, preenchendo as mesmas lacunas como uma oração inteira, porém sem substantivo ou verbo, apenas para expressar uma atitude. Por que escrever “chorando de tanto rir” (que usa 18 caracteres dos 140 que podemos usar no Twitter) quando você pode apenas usar 1f602? Se quisermos enfatizar podemos usar mais de um  1f6021f6021f602– assim como tsk tsk tsk ou hahahahaha.

Orações Adverbiais: Podemos dizer que emoticons e emoji podem ser usados como orações adverbiais, transmitindo uma atitude para o enunciado como um todo, como honestamente em “honestamente, não me importo”. Normalmente os colocamos no fim da oração o que não é comum em orações adverbiais, e usamos vírgula como em “não me importo, honestamente”, provavelmente não usaríamos a vírgula em “não me importo :P”. Podemos coloca-los no começo da oração – 1f602 Ridículo! – percebem que colocamos letra maiúscula na próxima palavra? Isso sugere que tratamos as duas como expressões separadas, como em “Hahaha! Que ridículo!” Não usamos, geralmente, como os outros tipos de advérbios pois não é comum encontrarmos formas como “Que 1f602 louco!”

Adjetivo: Podemos usá-lo como What’s up with the 1f602  face?, mas não é comum. É mais comum seu uso como predicativo, como em I’m feeling really 1f602 about that.

Substantivo: Você pode escrever I got a lot of 1f602 out of that. Mas provavelmente usariamos o plural: How many 1f602s did you get out of that?

Verb: There’s no big problem with If he does that I am going to . But we can’t easily conjugate it. It likely looks wrong to put He really  a lot orYesterday he  all evening.

Verbo: Não é um problema escrever If he does that I am going to 1f602. Porém podemos facilmente conjuga-lo. Mas parece errado escrever He really 1f602 a lot ouYesterday he 1f602 all evening.

Mas, não importa como você usa o 1f602 numa oração, ainda não podemos pronuciá-lo! É verdade que a linguagem falada é apenas um modo comunicativo, e não é o único tipo que pode ser claramente codificado e definido – temos muitos tipos de gestos e expressões faciais que não são menos claras que as palavras – mas sempre guardamos a palavra “palavra” para o tipo de gestos que podemos usar para os sons do discurso.

Então é tempo de mudarmos isso? ¯\_(ツ)_/¯ . Oxford já mudou.

Texto traduzido de Is an emoji a word? ¯\_(ツ)_/¯

Oxford Dictionaries Word of the Year 2015

Quando não se sabe o que dizer…

Quando não se sabe o que dizer…

Claro que isso é muito comum. Conhecer alguém e não conseguir estabelecer um diálogo. Quando a timidez supera a vontade de conversar e tudo aquilo de interessante que existe em você fica guardado nos porões da sua mente. A sua pele é um castelo, daqueles de contos fadas, localizado num monte ermo cercado de espinhos. E tudo o que lhe resta é ficar de corpo presente como um defunto em sua missa fúnebre. Um mero acessório na paisagem, ocupando espaço valioso numa mesa cheia de pessoas engraçadas e divertidas.

Como superar esse fosso cheio de crocodilos? Como ultrapassar essa ponte? Qual caminho seguir para sair dessa rotatória? Leste, oeste, norte e sul. Tantas opções, tantos caminhos. Melhor então é permanecer ali, naquele lugar, escondido, implorando aos deus que ninguém o perceba.

Apesar de extremamente tímido ele tem alguns poucos amigos que tentam matar o dragão e libertar a princesa do castelo. Cansado da solidão ele pensa, “Vamos lá, que mal faz?” Cheio de surpreendente coragem enche o peito e garante a si mesmo que será tudo diferente dessa vez. Toma um banho demorado, até canta enquanto a água que cai do chuveiro cumpre seu papel. Veste-se, perfuma-se e diante do espelho sente orgulho de si mesmo. Entra no carro e segue o caminho para o encontro. Assovia acompanhando a melodia que toca no rádio do carro. Olha-se no retrovisor e sorri. Porém ao chegar ao lugar marcado aquela voz traiçoeira grita dentro da sua cabeça. Reunindo o pouco de dignidade que a timidez não digeriu ergue a cabeça e vai. Cumprimenta todas as pessoas daquele grupo animado e ocupa o seu lugar no ostracismo. Permanece ali, calado, mero expectador da vida.

Eis que percebe um olhar, como longos dedos gelados tocando-lhe a nuca. Pega o celular tentando parecer despercebido e olha a tela como se algo bom surgisse ali. Mas nada está ali, apenas o relógio na screen. Agora aquele olhar arranha-lhe a nuca como unhas precisando de uma boa lixa. O que ele faz? Olha? Usa aquele já desgastado sorriso amarelo?  Um leve cumprimento com a cabeça? Sim faz tudo isso. Mecanicamente, mera convenção social.

Depois que o momento passa, aproveitando que a outra pessoa desviou o olhar, observa melhor o culpado. Essa pessoa chegou depois dele e por isso não foram apresentados. Passa então a observar detidamente o algoz e sente-se profundamente atraído. Desvia o olhar para que as pessoas ao seu redor não percebam o seu interesse. A mente se perde num turbilhão descontrolado, e novamente é atormentado pelos questionamentos. Quem é? Por que olhava detidamente? Muitos outros seguem a esses, baixa a cabeça e fecha os olhos numa tentativa vã de afugenta-los.

A noite segue, ele responde de forma monossilábica as poucas perguntas que seu amigo lhe faz. Tenta mostrar interesse na conversa ao lado, dá algumas opiniões breves. E novamente a sensação. O toque gelado em sua nuca. As unhas que arranham a sua pele a distância. A intuição maltratando a alma como se estivesse despertando-o de um sonho ruim, porém, nada na figura daquela pessoa lembra um sonho ruim, mas sim todo o conjunto é realmente muito bonito. E isso faz fortalecer o sentimento de vergonha. Ao mesmo que tempo que está atraído a timidez distancia-lhe daquilo que naquele momento mais deseja.

As mãos suadas agravam a dignidade que lhe resta, então decide utilizar o pior recurso. “Uma cerveja, por favor.” dirigindo-se ao garçom. Bebe a long neck quase num gole, estava gelada, gostosa, e de súbito a cabeça rodou. Do outro lado da mesa seu objeto de desejo sorria, era óbvio que percebia o drama. E ao contrário do que pensava antes, atirava-lhe um olhar terno, como se olhasse um cachorrinho. Com o rosto em chamas virou a segunda cerveja, mas dessa vez apenas meia garrafa.

Decide então que essa situação é insustentável e levanta-se, deixa o dinheiro das cervejas sobre a mesa e se encaminha para a porta. No entanto, existem alguns obstáculos que o impedem de prosseguir. Primeiro seu amigo o segura pelo braço. “Não vai, é cedo ainda!” Com alívio percebe que seu amigo não percebera o que acontecia, aquele pequeno flerte, seria a pior coisa. Seriam apresentados, os outros se afastariam para dar-lhes privacidade e ele, como que atingido por um raio, cairia morto. Sim, como eu disse antes, aquilo era um drama impossível de escapar. Desculpou-se dizendo que não sentia-se bem, seguido por um abraço apertado e um beijo no rosto como despedida.

O desespero a cada passo aumentava em seu peito. Ele sempre foi assim, de uma timidez quase patológica, porém o tempo ensinou-lhe a criar uma máscara que é confundida com arrogância, algo típico dos tímidos. Sentia-se seguido, sabia que aqueles olhos o seguiam enquanto caminhava e apertava muitas mãos em despedida. O caminho prolonga-se de forma inesperada, sua vontade é correr, mas assim a máscara cairia e todo aquela falsa segurança cairia por terra. Então respirando fundo agradece a cada um o convite.

Quanto mais perto chega mais forte é a sensação que aqueles olhos causam. Apesar do contato que lhe causa ainda mais acanhamento prefere um abraço breve, pois suas mão suam muito. Então, o próximo é o dono daquele olhar. Vê de relance ele se levantando. Sem poder fugir, enxuga as mãos nas calças o mais disfarçadamente que pode e estende a mão.

“Me chamo Paulo.” diz disfarçando o tremor na voz, é um aperto de mãos firmes. “Sou Daniel, prazer”, responde o outro, “muito prazer mesmo”, puxando para um abraço quase forçado. Quando o abraço longo acaba, olham-se nos olhos. Paulo se despede e caminha com as pernas bambas, solta mais alguns “tchaus” e “obrigados” e caminha o mais rápido que pode para o carro.

Seguro dentro do carro pode respirar fundo. Enfim em casa tranquiliza-se, deita e seus sonhos são ternos. Possíveis futuros abrem-se para ele, porém é assunto para um outro dia. Boa noite.