Crime e Castigo – 1ª Parte

Contén Spoilers!

Como eu disse no post sobre o desafio, Crime e Castigo é um livro que possuo há alguns anos, ensaiei ler os primeiros capítulos algumas vezes, porém por circunstâncias da vida abandonava o volume. Por isso o desafio ter um ritmo quase impossível, conhecendo-me bem posso dizer que se o desafio for muito fácil eu termino por desistir logo. Então, sem mais demora vamos à leitura.

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Rodion Románovitch Raskólnikov era uma dessas pessoas para quem tudo ao seu redor parecia tedioso, talvez por possuir uma inteligência acima da média. Encontramos o rapaz num cubículo sujo e escuro, vestido como um mendigo e passando fome. Habitava uma São Petersburgo suja, pobre, repleta de bêbados e prostitutas, onde a fedentina enche o ar e entra pelas narinas dos passantes. Viera do interior para estudar, deixando a mãe, essa vive de uma pequena pensão, e a irmã, governanta na casa de uma família abastada em sua terra natal. Abandonara os estudos por falta de recursos e pelo mesmo motivo fugia da senhoria do prédio como um vampiro da luz do dia.

Logo percebemos que algum plano ronda a mente de Rodia, assim chamado pela própria mãe. Ele deixou o pequeno cômodo naquela tarde de Julho para ir à casa de Aliena Ivanovna, uma velha detestável de quem o rapaz tomava dinheiro penhorando seus parcos pertences. Entretanto, aquela visita se mostra diferente, além do dinheiro, nosso amigo, tem outras intensões. Como um espião ele investiga todo o espaço do quarto que Aliena habitava com sua irma Lisavieta. Penhorou o relógio que foi de seu pai e saiu com uma pequena fração do que pretendia receber, mas conseguiu investigar o ambiente, seu objetivo principal.

Saiu de lá com o máximo de informações possível, apesar da velhota vil estar muito desconfiada. No caminho de volta, tomado pela fome, Raskólnikov para em uma taberna suja e conhece Marmieládov. Um bêbado contumaz. Tomado pela bebida, ele se atira à mesa do rapaz e inicia um conversa que termina em narrar praticamente toda a sua vida. Animalizado pelo vício, o bêbado narra sem pudor que é casado pela segunda vez, e a única filha do primeiro casamento é obrigada a prostituir-se para alimentar os irmãos mais novos e a madrasta. Estava ali bebendo os últimos “copeques” da renda da filha. O senhor passou bastante tempo ali, conversou longamente com rapaz sobre suas dores. É claro nesse ponto da narrativa que nem toda pobreza é causada pela falta de trabalho, pois aquele homem era vítima de seus vícios. Muitíssimo habituado às próprias dores, ele perdera duas vezes trabalhos importantes naquela sociedade. Ao fim do longo monólogo, voltou amparado pelo rapaz e mais uma vez voltamos a ter contato com o misterioso plano de Raskólnikov. Ao deixar o lugar onde mora o bêbado o rapaz deixa algumas moedas para a triste família.

No dia seguinte, mesmo assombrado pela fome, nada o agrada. Até a refeição rala, trazida pela cozinheira da senhoria do prédio, não lhe muda o ânimo. Apenas uma carta de sua mãe o traz de volta à realidade. A longa missiva narra as desventuras de sua família: o pouco dinheiro, os empréstimos, a irmã que quase perdeu a honra numa confusão com o ex-patrão e sua esposa e, por fim, um súbito noivado. Esse último fato o traz de volta à vida. O noivado lhe parece quase uma prostituição, o que acelera o plano. Sai do prédio tão irritado esquecendo até os aluguéis atrasados e o risco de encontrar a credora. No trajeto até a casa de um amigo encontramos mais uma situação inusitada. Um menina caminha trôpega pela rua, aparentemente ela havia sofrido alguma agressão sexual. E mais uma vez o pobre Rodia perde alguns copeques tentando ajudar.

A saga do nosso rapaz continua, cai fraco e doente e por algum tempo dorme no relento. Volta à casa e põe o plano em ação. Paramenta-se, encontra a arma do crime e vai até a cena do crime: o lar da velha agiota. Ele consegue ultrapassar a desconfiança da senhora e subitamente a ataca a machadadas. A cena segue, o corpo sangrando no chão e o rapaz procurando por bens valiosos pelo quarto. Percebemos os muitos sentimentos de Raskólnikov, contraditórios, mas enfim, está feito e não é possível voltar atrás. A irmã entra e mesmo tomada pelo horror da pintura grotesca é também vítima do ex-estudante. A primeira parte termina com Rodia escapando mesmo tendo um pequeno contratempo.

Dostoiévski - 1863
Dostoiévski – 1863

Dostoiévski nos mostra uma sociedade doente, dominada pela pobreza, pelo vício, pela ganância e pela torpeza. São Petersburgo é esse lugar onde mesmo as pessoas bem intencionadas são vítimas. Vejamos o próprio Raskolnikov até aqui. Ele surge como um rapaz falido, sem esperanças e decidido a mudar rapidamente o seu destino. Ele esta afogado em sentimentos ruins tendo apenas breves suspiros de bondade, algo que torna o personagem complexo e interessante. O escritor, como todos sabem, descreve com maestria os ambientes e as pessoas. Foi fácil desenhar na mente todos aqueles personagens e cenários. Para mim o que mais surpreende são as descrições psicológicas, todas muito claras, nos ponde sempre a par de qual lugar e momento exatos de cada um.

“Detalhes, os detalhes são o principal! São justamente esses detalhes que botam a perder sempre e tudo…”

Raskólnikov

Crime e Castigo é um texto que exige atenção porque as descrições são essenciais à história, e mesmo assim, interessante e nos prende. Eu li as oitenta e uma páginas em duas sentadas, algumas vezes voltei algumas páginas para ter certeza do que estava acontecendo. Voltei também para absorver a escrita e as descrições. Apesar da sujidade e feiura de tudo é um texto belíssimo e eu estou encantado!!!

Um abraço e até a próxima quarta.

DESAFIO

DESAFIO

Minha vida tem sido um desafio ultimamente. Trabalho oito horas por dia, estudo à noite e ainda me proponho a escrever e publicar no Wattpad, além disso, também estou escrevendo um romance YA. Ufa, sem contar o fato de dar atenção ao meu namorado e à família (quanto a essa tenho estado bem relapso, admito). Sem tempo para qualquer coisa comecei a ler textos curtos, o último foi o BrokeBack Mountain e devo dize que é belíssimo, por favor LEIAM!

Mas como estudante de letras devo me impor uma rotina de leitura dos clássico e depurar minha crítica. Eu sei, shame on me!!! Não tenho lido nada assim e por essa razão decidi me impor duas metas para 2016:

  1. Ler um clássico da Literatura mundial por mês.
  2. Ler um livro de Machado de Assis por mês.

Confesso ruborizado, até hoje li apenas Dom Casmurro de Machado de Assis e isso aconteceu durante o ensino médio.

Assim sendo, para janeiro perseguirei  esses dois volumes:

  • Crime e Castigo de Fiodor Dostoiévski. Já comecei e parei umas cinco vezes, porém é hora de concluir. Tentarei ler pelo menos 25 páginas por dia para dar conta de concluir até o dia 31 de janeiro.
  • Dom Casmurro de Machado de Assis. Sendo agora mais “idoso”, acredito que terei um outro olhar, menos preconceituoso, sobre o meu ilustríssimo xará, para quem não sabia meu sobrenome é Assis Dias.  Esse livro eu lerei no Kobo então tentarei ler  5% por dia, assim é mais fácil de acompanhar.
Crime e Castigo - Fiodor Dostoiévski : Dom Casmurro - Machado de Assis
Crime e Castigo – Fiodor Dostoiévski : Dom Casmurro – Machado de Assis

Vou compartilhar as minhas leituras por aqui. Quando for possível, vou escrever sobre a leitura de Crime e Castigo às quartas e Dom Casmurro aos sábados. Quando a semana for mais difícil postarei quando puder. Caso não acabe até o fim do mês continuarei no mês seguinte sem problemas.

Dia 25  vou dividir com vocês quais serão os objetivos para fevereiro.

Quem leu até aqui meu agradecimento sincero e até o próximo post!!!

 

Resenha: Incidente em Antares

Resenha: Incidente em Antares

Incidente em Antares

     Erico Verissimo nos traz esse romance que, dividido em duas partes, nos conta a saga dos habitantes da cidade fictícia de Antares. Na primeira parte, chamada Antares, temos a história da cidade, desde quando era apenas um povoado na região de fronteira do Rio Grande do Sul chamado Povinho da Caveira, dominado sob a mão de ferro de Francisco Vacariano. Após alguns anos o povoado é elevado a Vila e assume definitivamente o nome de Antares, que Chico Vacariano teimava em explicar como “lugar das antas”. Não muito depois chega à cidade Anacleto Campolargo e foi estabelecida a sanguinolenta inimizade entre os dois clãs. “(…) foi ódio à primeira vista”. Como uma herança genética, a inimizade passou para os descendentes de ambas as famílias que se digladiavam por motivos políticos, comerciais e até no futebol, os ódios e as vinganças cresciam em requintes de crueldade.

     O século virou e Antares começa a se modernizar com o telégrafo, o jornal, o frigorífico, o automóvel e etc., vamos acompanhando a modernização de Antares e as relações políticas se tornando mais complexas e de maior alcance. Então, a pedido do ainda deputado Getúlio Vargas, Xisto Vacariano e Benjamim Campolargo, apertam as mãos sem se olharem cara a cara, selando assim uma paz dolorida, após sessenta anos sem trocarem uma palavra. Com a ascensão de Vargas à Presidência da República, Tibério Vacariano, herdeiro de Xisto, vai ao Rio de Janeiro e a partir daí acompanhamos todos os seus trambiques e negociatas, conseguidas usando o nome do atual chefe de governo, e também acompanhamos a situação política do Brasil. Do lado dos Campolargo é Quitéria, nora de Benjamim, quem assume o clã. E as duas famílias seguem com sua amizade ácida. As condições políticas em Antares vão se deteriorando até que a classe operária decide entrar em greve.

Os mortos deixam seus caixões.
Os mortos deixam seus caixões.

     A segunda parte, O Incidente, começa no dia 11 de dezembro de 1963, com o início da greve geral, que, para o espanto das famílias conservadoras, todas as categorias de trabalhadoras aderiram à greve. Nesse dia sete pessoas morrem em Antares, quase uma calamidade para um município daquele porte. Entre os defuntos de Antares estava Da. Quitéria Campolargo, vítima de um ataque cardíaco, e ao chegar ao cemitério para o sepultamento de Da. Quita descobre-se que os coveiros também aderiram à greve geral. Assim, os sete caixões são deixados na porta do cemitério aguardando o fim da greve. No meio da noite um ladrão, ele ouvira dizer que a matriarca dos Campolargo estaria portando joias de grande valor, decide abrir o esquife a procura do tesouro e foi pego de surpresa quando a defunta de olhos abertos lhe entrega a alma tomando o gatuno por Deus. Após a surpresa inicial dos insepultos, eles descobrem que cada um representava um tipo de habitante de Antares: Uma representante de uma das duas grandes famílias, um advogado vendido, um anarquista, um louco, um comunista, um bêbado e uma prostituta. Decidem voltar à cidade e reclamar o seu direito a um sepultamento digno. Quando amanhece a cidade é tomada pelo odor pútrido dos cadáveres. Eles, após visitarem seus afetos e desafetos, se reúnem no coreto da praça. Ali os defuntos expõem todas as torpezas dos cidadãos. A podridão está em toda parte, tanto dos corpos em decomposição dos cadáveres quanto tanto das vísceras expostas da sociedade antarense. Cornos, esposas desonestas, pederastas, ladrões, fofoqueiras, políticos corruptos, peculatos e todo tipo de sordidez é desmascarada já que os mortos não estão mais a mercê das punições dos homens.

     Nuvens de urubus e milhares de ratos tomam a cidade, os habitantes se revoltam e resolvem atacar os defuntos que decidem voltar aos caixões e então os grevistas permitem os sepultamentos, então aos poucos a cidade retoma a sua rotina e tudo é esquecido e sequer vira lenda, de uma forma tal que todas as transgressões foram remidas.

     Erico Verissimo faz parte da segunda geração do modernismo, também chamado de neorrealismo, baseado no regionalismo, denúncia social, enfoque nos fatos como espécie de documentário e linguagem mais brasileira. Conhecido pela grande obra O Tempo e o Vento, de dimensões proustianas, o autor narra em sua obra tanto a vida urbana nas grandes metrópoles quanto a história e os costumes do Rio Grande do Sul. Incidente em Antares é sua última obra, Verissimo faleceu em 1975 e nos deixou seu legado dividido em romances, contos e livros infantis.

     Incidente em Antares é um romance com dupla característica, a primeira é o caráter de romance histórico tradicional da primeira parte e o segundo é o romance de realismo mágico. Na primeira parte acompanhamos o desenvolvimento social do Rio Grande demonstrado no microcosmos da cidade de Antares. Fatos verídicos servem de pano de fundo para a obra ficcional. A segunda parte, com característica de realismo fantástico e é de forma inusitada que o realismo fantástico se apresenta. Após cerca de 90 capítulos somos arrebatados pelo incidente, os olhos abertos de Da. Quinta Campolargo iniciam a saga dos defuntos deambulantes. Todo o inusitado é substituído pela sátira menipeia, onde os mortos apontam os defeitos dos vivos. Ao morrerem aqueles personagens veem a vida por uma nova perspectiva, ou seja, há o ponto de vista dos mortos e dos vivos. Para os vivos é essencial a permanência do status quo enquanto os mortos, tomados pela indiferença, usam da crítica como arma para atingir seus objetivos. Na condição de mortos todos se igualam para fazerem os vivos refletirem sobre seus desvios morais. Sem esquecer dos pontos divertidos que trazem um pouco de leveza à realidade dura retratada no texto.

     Incidente em Antares é um documento importante de um recorte da história do nosso país. Com ele acompanhamos a evolução política até o golpe militar. O dedo de Cícero Branco apontando toda sujidade da política local se estende a outras esferas políticas, ultrapassando os limites da ficção. Assim, como o dedo de Barcelona aponta os detalhes de uma fotografia de toda a humanidade, essa imagem tem como personagens todas as características aviltantes da condição humana. Acompanhando todos esses personagens que habitam Antares não nos causam espanto as consequências do incidente, para melhor dizer, as não consequências do incidente. Pois com, apenas, boa comida e um pouco de bajulação foi passada uma borracha em tudo que aconteceu e por algum tempo restou apenas um desconforto, como a lembrança borrada de um pesadelo, que mesmo assim é esquecido com o passar do dia.

     A ousadia do autor e dos editores deve ser aplaudida, pois publicar um livro de profunda crítica política sob as barbas dos militares é muita coragem. O livro foi publicado no auge da ditadura militar sob uma conjuntura de censura e perseguição aos artistas, passou às cegas pelos censores, permanecendo até hoje como um expoente tanto de crítica social quanto de qualidade literária.

Erico Verissimo
Erico Verissimo

VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 

OS DIREITOS IMPRESCRITÍVEIS DO LEITOR, POR DANIEL PENACK

1 O direito de não ler;
2 O direito de pular páginas;
3 O direito de não terminar um livro;
4 O direito de reler;
5 O direito de ler qualquer coisa;
6 O direito de bovarismo (doença textualmente transmissível)
7 O direito de ler em qualquer lugar;
8 O direito de ler uma frase aqui outra ali;
9 O direito de ler em voz alta e
10 O direito de calar.