Leandro Karnal – Hamlet é o anti-facebook

Trecho do Café Filosófico ¨Hamlet de Shakespeare e o mundo como palco¨, Com Leandro Karnal, abril de 2015.

“Hamlet é o anti-Facebook. Ele não só não é feliz como não faz questão de parecer feliz. Hamlet é melancólico. Tem uma consciência brutal. E quem tem consciência brutal não sorri nem compartilha sua vida medíocre o tempo todo”, disse o historiador durante o Café Filosófico CPFL “Hamlet de Shakespeare e o mundo como palco”

Para o palestrante, o mundo de artificialidades postado diariamente no Facebook é um mundo destituído de consciência. Um mundo que não se conhece e se nega a envelhecer. “As dores que nós inventamos – familiares, financeiras – é o disfarce de uma dor maior. Uma dor não falada. Quando as pessoas começarão a ser e deixarão de não ser?”, questiona.

O estoicismo de Hamlet, disse Karnal, é o estoicismo de quem se conhece e não se ofende. “A consciência moderna nos leva ao grande mal da humanidade: a solidão estrutural. A modernidade nos trouxe a diversidade política e religiosa. Como não tenho amigos, tenho 3.000 no ‘Face’. Como não tenho nada interessante para mostrar, eu fotografo tudo. Isso é sinal não de um Narciso fraco, mas um Narciso que não ouve ninguém. A solidão individual a dois ou a três é a norma de todas as pessoas.”

Segundo o historiador, somos cada vez mais solitários porque temos cada vez mais dificuldade em estabelecer algo orgânico e significativo com o mundo. Na peça de Shakespeare, o príncipe se questiona o tempo todo. Hamlet pergunta à caveira diante da morte inevitável: “quem eu sou de verdade? Quem sou eu que preciso estar presente em tantos personagens? Por que preciso que tanta gente me veja?”. A pergunta se estende à plateia: o que somos de verdade com ou sem o apoio da igreja, da família e de outras instituições para as quais estamos sempre cumprindo papéis? “Se a família te apoiar ou te criticar, você continuará sozinho”, diz Karnal.

Para o historiador, a fala reflexiva de Hamlet desapareceu no mundo contemporâneo. “Quando penso no que estou dizendo, digo menos, porque é mais significativo. O restaurante por quilo é uma maravilha. Mas restringiu todos os alimentos ao mesmo sabor. Quando não tenho sabor nas coisas que eu vivo e faço, eu multiplico as coisas que vivo e faço. Eu não suporto ficar em casa comigo mesmo. Por isso preciso viajar o tempo todo. Prefiro o caos do aeroporto ao silêncio de casa.”

Essa ausência de consciência, segundo ele, é observada diante do medo de encarar a morte como um caminho inevitável. “A sabedoria é a preparação para dar sentido à vida de quem morre. A vida, sem a morte, seria insuportável. Como não aceitamos o envelhecimento, criamos crianças que devem viver uma infância cada vez mais longa e protegida. Mas é bom dizer às crianças que elas precisam deixar de ser crianças.”

Para fugir deste encontro, no entanto, as pessoas seguem encenando. Preferem se sentir vigiadas a se sentirem sozinhas. Preferem a crítica ao abandono. “Quem eu seria se eu estivesse absolutamente só no mundo? Resposta: seremos solitários com outros solitários.”

“Quanto mais escrevo ‘KKK’ no Facebook, mais estou triste. Preciso que o mundo ‘curta’ a vida que acho insuportável. Da mesma forma, precisamos de hospício para imaginar que, estando fora, não somos loucos.”

Para Karnal, o que Hamlet nos diz é: só interpretamos cenas, etiquetas e formalidades porque não aguentamos saber que todos fazem parte de um teatro. Hamlet, lembrou o palestrante, não governou seu reino. Ele foi o primeiro homem livre. O primeiro homem moderno. E pagou um preço altíssimo por isso.

“Tente descobrir vagamente quem você é. Você não será feliz. Mas sua consciência o impedirá a ser vazio. E você não precisará postar o tempo todo na internet.”

Segundo o palestrante, vivemos hoje um momento de pura burrice argumentativa. “A nossa capacidade de ouvir está muito baixa. Quando não quero ouvir, a solução é a guerra civil. Há quem defenda: ‘vamos dividir o país’. A primeira condição da política é o diálogo. O seu ódio do outro é o seu medo de si. O diálogo nos humaniza.”

Link e texto do próprio canal: https://www.youtube.com/channel/UCWIS30jutbS3-LZv1uldOjQ

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Broadway… um pouco de história!

Você já deve ter ouvido falar sobre a Broadway. Mesmo que não tenha ouvido, deve ter lido, nos posts anteriores, que muitos artistas começaram na Broadway, antes de migrar para o cinema. A recíproca também é verdadeira: muitos artistas famosos, se apresentam naBroadway. Mas, afinal de contas, o que é a Broadway?


Broadway é a região dos teatros, em New York, ao sul do Central Park. Essa região começou a ser ocupada pelos teatros a partir de 1750, pelos atores-gestores Walter MurrayThomas Kean.  Já naquela época, eram encenadas peças de William Shakespeare e as Ballad Operas (as famosas peças de teatro cantadas, da Broadway). Essa atividade ficou suspensa durante a Guerra da Independência, mas voltou à ativa em 1798, com a inauguração do Park Theater (atualmente Park Row), com 2.000 lugares:


Outro importante espaço de teatros da Broadway foi o Bowery Theater, inaugurado em 1826:


Em 1829, foi a vez do Niblo’s Garden:


Em 1847 inaugurou o Astor Place Theater:


Como você pode ver, pela imponência dos edifícios, o teatro era (e é) coisa séria, para os estadunidenses. Tanto, que em 1849, houve uma revolta, por causa dos valores altos dos ingressos. Assim, o teatro foi dividido por classes:  ópera principalmente para a classe média alta e classe alta, shows de menestréis e melodramas para a classe média, mostra de variedade em “saloons concerto” para os homens da classe trabalhadora e da classe média baixa.

Um ator famoso nessa época foi Edwin Booth (1833/1893):

Edwin era irmão do também ator John Wilkes Booth (1838/1865), que matou o Presidente dos EUA, Abraham Lincoln:

Outros atores famosos, na época:

Henry Irving (1838/1905)


Tommaso Salvini (1829/1915)


Fanny Davenport (1850/1898)


Lydia Thompson (1838/1908) – essa atriz veio da Inglaterra, para uma temporada de seis meses, entre 1868 e 1869. Mas seu show era tão variado (canto, dança, encenação, pantomima, comédia, etc), que acabou ficando seis anos em cartaz.
Até 1870, a maioria dos teatros da Broadway ficavam em Union Square. Na segunda metade, foram deslocados para Madison Square, chegando a Times Square, por volta de 1900.
The Black Crock (1866) foi a primeira comédia musical (musical comedy) da Broadway.
No começo do século, uma das peças que fez sucesso foi Florodora (1900/1901). Abaixo, a atriz Marion Davies revivendo a canção Tell Me Pretty Maiden, da peça Florodora:
Por esse vídeo, é possivel sabermos como era o teatro da Broadway, no início do século, não muito diferente do atual.