Resenha: Incidente em Antares

Resenha: Incidente em Antares

Incidente em Antares

     Erico Verissimo nos traz esse romance que, dividido em duas partes, nos conta a saga dos habitantes da cidade fictícia de Antares. Na primeira parte, chamada Antares, temos a história da cidade, desde quando era apenas um povoado na região de fronteira do Rio Grande do Sul chamado Povinho da Caveira, dominado sob a mão de ferro de Francisco Vacariano. Após alguns anos o povoado é elevado a Vila e assume definitivamente o nome de Antares, que Chico Vacariano teimava em explicar como “lugar das antas”. Não muito depois chega à cidade Anacleto Campolargo e foi estabelecida a sanguinolenta inimizade entre os dois clãs. “(…) foi ódio à primeira vista”. Como uma herança genética, a inimizade passou para os descendentes de ambas as famílias que se digladiavam por motivos políticos, comerciais e até no futebol, os ódios e as vinganças cresciam em requintes de crueldade.

     O século virou e Antares começa a se modernizar com o telégrafo, o jornal, o frigorífico, o automóvel e etc., vamos acompanhando a modernização de Antares e as relações políticas se tornando mais complexas e de maior alcance. Então, a pedido do ainda deputado Getúlio Vargas, Xisto Vacariano e Benjamim Campolargo, apertam as mãos sem se olharem cara a cara, selando assim uma paz dolorida, após sessenta anos sem trocarem uma palavra. Com a ascensão de Vargas à Presidência da República, Tibério Vacariano, herdeiro de Xisto, vai ao Rio de Janeiro e a partir daí acompanhamos todos os seus trambiques e negociatas, conseguidas usando o nome do atual chefe de governo, e também acompanhamos a situação política do Brasil. Do lado dos Campolargo é Quitéria, nora de Benjamim, quem assume o clã. E as duas famílias seguem com sua amizade ácida. As condições políticas em Antares vão se deteriorando até que a classe operária decide entrar em greve.

Os mortos deixam seus caixões.
Os mortos deixam seus caixões.

     A segunda parte, O Incidente, começa no dia 11 de dezembro de 1963, com o início da greve geral, que, para o espanto das famílias conservadoras, todas as categorias de trabalhadoras aderiram à greve. Nesse dia sete pessoas morrem em Antares, quase uma calamidade para um município daquele porte. Entre os defuntos de Antares estava Da. Quitéria Campolargo, vítima de um ataque cardíaco, e ao chegar ao cemitério para o sepultamento de Da. Quita descobre-se que os coveiros também aderiram à greve geral. Assim, os sete caixões são deixados na porta do cemitério aguardando o fim da greve. No meio da noite um ladrão, ele ouvira dizer que a matriarca dos Campolargo estaria portando joias de grande valor, decide abrir o esquife a procura do tesouro e foi pego de surpresa quando a defunta de olhos abertos lhe entrega a alma tomando o gatuno por Deus. Após a surpresa inicial dos insepultos, eles descobrem que cada um representava um tipo de habitante de Antares: Uma representante de uma das duas grandes famílias, um advogado vendido, um anarquista, um louco, um comunista, um bêbado e uma prostituta. Decidem voltar à cidade e reclamar o seu direito a um sepultamento digno. Quando amanhece a cidade é tomada pelo odor pútrido dos cadáveres. Eles, após visitarem seus afetos e desafetos, se reúnem no coreto da praça. Ali os defuntos expõem todas as torpezas dos cidadãos. A podridão está em toda parte, tanto dos corpos em decomposição dos cadáveres quanto tanto das vísceras expostas da sociedade antarense. Cornos, esposas desonestas, pederastas, ladrões, fofoqueiras, políticos corruptos, peculatos e todo tipo de sordidez é desmascarada já que os mortos não estão mais a mercê das punições dos homens.

     Nuvens de urubus e milhares de ratos tomam a cidade, os habitantes se revoltam e resolvem atacar os defuntos que decidem voltar aos caixões e então os grevistas permitem os sepultamentos, então aos poucos a cidade retoma a sua rotina e tudo é esquecido e sequer vira lenda, de uma forma tal que todas as transgressões foram remidas.

     Erico Verissimo faz parte da segunda geração do modernismo, também chamado de neorrealismo, baseado no regionalismo, denúncia social, enfoque nos fatos como espécie de documentário e linguagem mais brasileira. Conhecido pela grande obra O Tempo e o Vento, de dimensões proustianas, o autor narra em sua obra tanto a vida urbana nas grandes metrópoles quanto a história e os costumes do Rio Grande do Sul. Incidente em Antares é sua última obra, Verissimo faleceu em 1975 e nos deixou seu legado dividido em romances, contos e livros infantis.

     Incidente em Antares é um romance com dupla característica, a primeira é o caráter de romance histórico tradicional da primeira parte e o segundo é o romance de realismo mágico. Na primeira parte acompanhamos o desenvolvimento social do Rio Grande demonstrado no microcosmos da cidade de Antares. Fatos verídicos servem de pano de fundo para a obra ficcional. A segunda parte, com característica de realismo fantástico e é de forma inusitada que o realismo fantástico se apresenta. Após cerca de 90 capítulos somos arrebatados pelo incidente, os olhos abertos de Da. Quinta Campolargo iniciam a saga dos defuntos deambulantes. Todo o inusitado é substituído pela sátira menipeia, onde os mortos apontam os defeitos dos vivos. Ao morrerem aqueles personagens veem a vida por uma nova perspectiva, ou seja, há o ponto de vista dos mortos e dos vivos. Para os vivos é essencial a permanência do status quo enquanto os mortos, tomados pela indiferença, usam da crítica como arma para atingir seus objetivos. Na condição de mortos todos se igualam para fazerem os vivos refletirem sobre seus desvios morais. Sem esquecer dos pontos divertidos que trazem um pouco de leveza à realidade dura retratada no texto.

     Incidente em Antares é um documento importante de um recorte da história do nosso país. Com ele acompanhamos a evolução política até o golpe militar. O dedo de Cícero Branco apontando toda sujidade da política local se estende a outras esferas políticas, ultrapassando os limites da ficção. Assim, como o dedo de Barcelona aponta os detalhes de uma fotografia de toda a humanidade, essa imagem tem como personagens todas as características aviltantes da condição humana. Acompanhando todos esses personagens que habitam Antares não nos causam espanto as consequências do incidente, para melhor dizer, as não consequências do incidente. Pois com, apenas, boa comida e um pouco de bajulação foi passada uma borracha em tudo que aconteceu e por algum tempo restou apenas um desconforto, como a lembrança borrada de um pesadelo, que mesmo assim é esquecido com o passar do dia.

     A ousadia do autor e dos editores deve ser aplaudida, pois publicar um livro de profunda crítica política sob as barbas dos militares é muita coragem. O livro foi publicado no auge da ditadura militar sob uma conjuntura de censura e perseguição aos artistas, passou às cegas pelos censores, permanecendo até hoje como um expoente tanto de crítica social quanto de qualidade literária.

Erico Verissimo
Erico Verissimo

VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 

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Resumo de Teorias Linguísticas – Saussure, Teoria dos Signos

Saussure via língua como um sistema de signos e como tal diz respeito à estrutura do sistema linguístico, atribuindo-se o conceito de forma. Por outro lado, a fala aparece como a exteriorização da língua no mundo físico através dos sons, conferindo-lhe o atributo de substância. É relevante enumerar suas diferença, enquanto a língua é coletiva (existe no grupo), abstrata (uma convenção de regras) e sistemática (cada um dos elementos componentes só se pode definir relativamente aos outros elementos), a fala é individual (cada individuo expressa por si só), concreta (existe no mundo físico) e assistemática (por ser expressão individual nem sempre obedece os critérios do sistema).

Nessa contexto, ele também estudou as relações de associação ou combinação de seus elementos. Chamou de relações sintagmáticas as que tratam da linearidade da língua, ou seja, as diversas combinações de elementos que obedecendo o padrão estabelecido pelo sistema formam uma nova unidade de significado. As associações de elementos estabelecendo semelhanças e diferenças no mesmo ponto de uma cadeia, chamou de relações paradigmáticas, que são substituíveis ou comutáveis entre si.

A esses elementos deu o nome de signo que é constituído de um significado e um significante. O significado é um conceito que designa a forma de compreender as coisas, já o significante é uma imagem acústica, ou melhor, é o correlato psíquico da representação sonora do signo.

Dentro das relações de significado, Saussure fala sobre a noção de valor, que se refere ao conjunto de diferenças semânticas do signo. Um signo é o que é e tomamos seu valor pelo que ele não é, ou seja, por tudo aquilo que os demais elementos do sistema não são.

A linguagem, cuja a língua é parte essencial, é duplamente articulada. A primeira articulação trata de unidades linguística de significadas que quando associadas formam um novo sentido, como quando associamos signos e formamos sentenças. A segunda articulação é que suas partes tem apenas valor distintivo, por exemplo quando se altera uma unidade fônica de um morfema surge um outro distinto do primeiro.

Para Coriseu, além da língua e da fala, devemos considerar a norma. Que é a variação que a língua sofre em grupos menores do todo falante de uma mesma língua. São os dialetos, os sotaques e etc. A norma é portanto, coletiva (pois num mesmo grupo ela se repente entre os individuos) e concreta (tem substância física no som). Essas variações podem ser regionais, históricas ou sociais.

Obs. Exercício proposto em sala de aula.

 

Texto e Textualidade

Texto e Textualidade

O texto, como unidade da linguagem em uso, pode ser definido como ocorrência falada ou escrita de qualquer extensão dotada de unidade sociocomunicativa, semântica ou formal.

Devem ser levados em consideração três aspectos para sua compreensão: os fatores pragmáticos, semântico conceitual e formal.

Como fatores pragmáticos entendem-se a intencionalidade, a aceitabilidade, a situacionalidade, a informatividade e a intertextualidade. Para o fator semântico conceitual temos a coerência e no aspecto formal a coesão.

A coerência resulta da expressão do autor destinada à compreensão do receptor, dessa forma, é o sentido do texto. A preocupação de quem produz o texto deve estar em fazer-se compreender pela sua lógica, pois depende, também, da capacidade do receptor em assimilar o conceito.

A coerência se manifesta na coesão. Para a unidade do texto usamos mecanismos gramaticais e lexicais. Os pronomes anofóricos, os artigos, a elipse, a concordância, a correlação entre tempos verbais e as conjunções são os meios de identificar a coesão, pois expressam as relações entre as palavras, frases ou sequências de frases dentro de um texto. Os mecanismos lexicais são as reiterações, pela substituição ou associação. Usamos a substituição através da sinonímia, antonímia, hiporímia e a hiperonímia. A associação é o processo que permite relacionar os termos de um mesmo esquema cognitivo. Coerência e coesão são atributos essenciais para a unidade semântica, ou seja, a coerência se identifica como nexo expresso pela coesão, são esses mecanismos que asseguram a textualidade (continuidade e progressão do texto). Outros autores citam a “conexão causal” e a interpretação diagnóstica. A coerência é imperativa para a perfeita compreensão do texto, porém a coesão pode ser subentendia e quando claramente expressa deve obedecer a determinadas normas.

A intencionalidade se relaciona com aquilo que o produtor deseja transmitir ao receptor, assim, do outro extremo do processo comunicativo, está a aceitabilidade que diz respeito a capacidade do recebedor em assimila a mensagem. De um lado, do produtor, esperasse um texto coerente e coeso para a perfeita assimilação do recebedor. Certas estratégias de quem tem a intensão de transmitir uma podem ser usadas, essas se referem à necessidade do recebedor em receber a informação, à autenticidade, ao conjunto informativo, à pertinência e relevância do conteúdo e forma como o texto é transmitido. Porém, algumas vezes, mesmo que o texto pareça sem conteúdo lógico, procuramos encontrar coerência deduzindo o sentido com a nossa bagagem cultural.

A situacionalidade se refere ao contexto do texto, ou seja, a adequação do texto a uma situação pertinente, podendo ser fator crucial à sua compreensão (coerência pragmática). Uma situação prática pode determinar a intensão comunicativa e sua composição reage a esse aspecto.

A informatividade situa-se na pertinência do conteúdo, ou seja, o texto deve ter informação suficiente para a compreensão do que o emissor quis transmitir.

A intertextualidade é capacidade do emissor em transmitir um conceito baseado em outro já existente. É quando capta-se a informação de outro autor dentro do texto transmitido.

Resumo de:

COSTA VAL, Maria da Graça. Texto e Textualidade. In: Redação e textualidade. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Cap. I

O ESSENCIAL SOBRE A LINGUÍSTICA

Como se sabe que uma língua é uma língua?

Entendendo-se a língua como um sistema de comunicação que faz uso da faculdade da linguagem ativada pela exposição dos falantes a estímulos linguísticos durante o período de aquisição da língua, podemos inferir alguns conceitos pertinentes como:

  • Dialeto: identifica o sistema linguístico próprio de uma dada região
    • Socioleto: um conjunto de dialetos que corresponde a um recorte social da língua.

Nesse conceito podemos compreender que uma língua remete a ideia de um sistema linguístico que reúne todos os dialetos falados em um país e que sua variedade deve ser interpretada como a manifestação nacional que uma língua falada em diferentes países assume em cada um deles. No entanto, devemos levar em consideração que os critérios objetivos (inteligibilidade mútua, o número de falantes, a coesão geográfica e política de uma determinada comunidade de falantes, etc.,) tornam mais difícil a construção desses conceitos. Dessa forma, a linguística lança mão de termos como língua materna, língua segunda, língua estrangeira, língua oficial, língua de trabalho e outros. Com todas essas variáveis, é difícil determinar o número de línguas existentes, pois, depende de como se determina uma língua e de como se classifica um dialeto.

Em Portugal, onde dentro do conceito exposto a cima, fala-se predominantemente o Português e essa comunidade é em sua maioria de falantes nativos. Porém, inseridos nessa população, encontram-se os falantes dos dialetos setentrionais, centro-meridionais e os dialetos insulares. É relevantes lembrar, que Portugal possui três línguas oficiais determinadas por lei: o Português, a língua Gestual Portuguesa e o Mirandês.  Assim como é esperado que em Portugal se fale o Português, no Brasil essa língua só é compreendida sob a ótica do contexto histórico, por efeito da nossa colonização e perpetuação do meio político. Desta forma, diversos países se comunicam em Português nos cinco continentes.

Não devemos conferir a uma língua maior valor intrínseco, mesmo com um número superior de falantes ou se é usada por muitas instituições internacionais, esses fatores apenas asseguram maior sobrevivência, pois se considera que uma língua falada por uma comunidade menor a 100 000 indivíduos tem menor possibilidade se existir em um mundo onde as ferramentas de multimídia difundem cada vez mais as línguas em maior destaque. Formar um juízo de valor sobre ser um dialeto ou língua errado ou correto, estes apenas de interesse dos estudiosos da gramatica normativa na forma culta, apenas contribuem para pré-conceitos, haja vista que de nada interessam à linguística.

De onde vem a reflexão sobre a linguagem e as línguas?

A invenção da escrita

Quando os sumérios e os egípcios criaram formas de escrita, o fizeram, pois, após uma tomada de consciência da estrutura da língua para assim transforma-la da forma falada para a escrita. Os egípcios associavam imagens de objetos e sons na forma de hieróglifos, os chineses usavam os ideogramas para representar objetos e conceitos. Essas conquistas ocorreram após uma análise, ainda rudimentares, das unidades básicas da língua como as palavras e as frases. No início do II milênio a. C., os fenícios criaram um alfabeto de base fonética, este alfabeto foi interpretado pelos gregos e romanos, criando-se, assim, os sistemas morfológicos contemporâneos.

Primeiras gramaticas

As primeiras gramáticas foram pensadas pelos hindus (I milênio A.C.). O Sânscrito, que significa ‘perfeito’, era tido como sagrado, era usado de forma ritualística, deveria ser pronunciado de forma correta, então os sábios hindus compilaram sua descrição em sons e silabas a fim de evitar deformações.

Os gregos e romanos

Os gregos estudaram sua língua por duas razões, a primeira era um curiosidade sobre a formação da língua, suas variedades e transformações, levando a reflexões filosóficas como as de Platão e Aristóteles. A segunda razão é a busca por um aprofundamento no conhecimento da funcionalidade da língua. Criaram gramáticas e aperfeiçoaram o alfabeto. Como exemplo, Dionísio de Trácia distinguiu as oito partes do discurso (artigo, nome, pronome, verbo, particípio, advérbio, preposição e conjunção), Apolónio Díscolo, em sua obra, desenvolveu a análise sintática, seguindo o modelo de Aristóteles de sujeito e predicado. Preocupados com os poetas antigos e seus textos, criaram a filologia. Os romanos foram além dos estudos filosóficos ou da doutrina gramatical, pensaram no uso da língua para o uso literário, nas questões etimológicas, na retórica e na classificação das palavras.

Idade média

O latim era usado como língua franca nesse período, sistematizando seu uso, foram criadas as primeiras gramáticas para o ensino da língua estrangeira. Nesse mesmo período, como a invenção de Gutemberg, a tipografia, as gramáticas de língua vernácula e escritas nessas línguas começaram a chegar com mais facilidade às mãos dos estudantes. Fernão de Oliveira escreveu a primeira gramática em Português no ano de 1536. Com esses estudos a fonética obteve grande desenvolvimento.

Renascimento e o interesse pelo vernáculo

As viagens marítimas e as mudanças na transição da idade média para o renascimento surgiu a necessidade do estudo das línguas particulares (em vernáculo). No século XVI as Cartinhas ou Cartilhas eram usadas para o ensino da leitura e da escrita, além dessas foram criadas, também, as Ortografias. Com o incremento do ensino das línguas vernáculas foram criados os dicionários e vocabulários descrevendo, por exemplo, o Português pois o latim ocupava cada vez menos espaço. No século XVII cresce o interesse em reflexões filosóficas sobre a linguagem humana e as características universais da língua.

Resumo para a disciplina de Teorias Linguísticas.

MATEUS, Maria Helena Mira & VILLALVA, Alina. O essencial sobre a linguística. Lisboa: Caminho, 2006.(p. 21-37)