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“Talvez todos tenham um jardim do Paraíso, não sei, mas mal acabaram de vê-lo e já surgiu a espada flamejante. E talvez também aconteça que a vida só proporcione a escolha de lembrar o jardim, ou esquecer-se dele. Isto, ou aquilo: é preciso energia para lembrar, é preciso outro tipo de energia para esquecer, sendo necessário um herói para fazer ambas as coisas. As pessoas que se recordam estão cortejando a loucura por meio da dor, a dor da morte perpetuamente recorrente de inocência; as que esquecem cortejam outro tipo de loucura, a de negar a dor e o ódio à inocência. E o mundo se encontra em sua maior parte, dividido entre os loucos que se lembram e os loucos que se esquecem. Os heróis são poucos.”

James Baldwin em Giovanni

Sábado

Às vezes sinto que o verbo da ação do tempo é utilizado equivocadamente: não é o passar do tempo e sim o pesar. Pesa sobre nós o tempo exigindo maturidade, crescimento e tantas outras abstrações convencionadas por quem se arvora do direito de exigir a nossa conduta.Triste condição do homem que cria deuses sob a sombra da culpa que a humildade impõe. Devemos ser humildes, devemos ser tantas coisas. Até o sonho da liberdade é imposto a nós. Sonhar é a única liberdade. O sonho é a única liberdade sem julgamentos. Triste de quem teme o sonho apegando-se a realidade. 

A automatização destrói o que há de humano em mim.

Sempre soube que era diferente, sim, diferente. Nunca soube sentar entre pessoas desconhecidas iniciar um papo. Jogar conversa fora. Sempre fui aquele está ali, sozinho, perdido no meu mundo interior. Nesse lugar sou o rei. Nesse lugar as pessoas gostam de estar ao meu lado e não me sinto retraído ou tímido. Sinto medo que o meu olhar seja mal interpretado, seja como paquera ou julgamento. Às vezes vejo alguém e me pego olhando longamente, mas na minha mente desenrola-se uma história. Quem é essa pessoa? De onde vem? Por que está ali? Qual os seus desejos? Por que está tão sério, ou sorrindo, ou triste? Esse sou eu, esse mar de divagações e devaneios. É muito fácil eu me perder no labirinto de situações hipotéticas ou irreais. Quando vejo uma menina que anda muito leve imagino asas de borboletas coladas às costas dela. Quando vejo um cara extremamente musculoso logo ele será um gladiador romano e por aí a loucura segue.

Assim, é muito difícil engatar uma conversa. A timidez me torna alguém considerado esnobe e metido, porém, não sou ou pelo menos não me jugo assim. Queria poder me observar de fora, talvez assim perceberia o que há de tão errado comigo.

Voltei à universidade e quando por qualquer motivo tenho que esperar por uma aula ou algo assim sento-me num banco que fica no centro do campus. Observo os muitos grupos que transitam por ali. Vejo os filósofos do nada, as meninas que maquiam-se, os maconheiros contumazes, os diversos gêneros de namorados e todos os outros tipos. Alguns estranhos e outros bem comuns. Os músicos, os filósofos, os letristas… Todos no plural e eu o único singular.

Acho que estou habituado. Hoje sofro esporadicamente. Antes era pior. Mas o tempo ensina e resigno-me.  A maturidade envidencia a minha completa inaptidão de iniciar contatos sociais. Talvez eu esteja quebrado, talvez um dia encontre a cola para unir os pedaços e aprenda essa inalcançável arte!

O Ser

O Ser

O ranger das árvores que dançam ao sabor do vento. O eterno girar da vida. Os altos e baixos de tudo o que nos acontece. O medo da morte. A sucessão dos fatos da vida. Do sorriso à lágrima, da dor à alegria. O anjo da vida e o da morte. O medo da vida. O olhar daqueles que nos julgam medíocres e não percebem a mediocridade de si mesmos.

Sonhos que assombram nossas noites, a polução noturna. O anseio de viver. O desperdício de ser. O verde da grama. O alanranjado do sertão. O cinza das águas.

Saber e desconhecer. O mistério e o revelado. A contradição, a ironia. Ao sarcasmo… À mentira.