Do que você sente saudade?

Hoje surpreendi-me sentindo saudades de coisas pequenas.  Senti falta do sol durante a natação no SESI. Do medo que eu sentia ao final do treino de ter que compartilhar o vestiário com os outros atletas e ter meu orgulho masculino ferido pelas inevitáveis comparações. Até disso sinto um pouco de saudade. Me fazem falta as quintas-feiras e suas sessões baratas nos cinemas do centro. Fugir da aula do cursinho para bater papo no barzinho ali perto. Jogar conversa fora sem as preocupações com as contas a pagar. Caminhar por Fortaleza sem sentir medo da violência de atual.

A década de 1990 me assaltou a alma com tantos problemas, porém algumas bobagens foram tão agradáveis. Hoje como um homem de trinta seis anos todas aquelas fugas parecem banais… Será que eram mesmo?

Aqueles anos proporcionaram tantas descobertas, algumas bem dolorosas e outras bem alegres. Sinto falta daquele rapaz sem máculas que via o mundo por lentes cinzas as vezes. Eu era um jovem muito quieto, passava muito tempo na companhia dos fantasmas e vampiros de Anne Rice, da sacerdotisa Morgana e seu irmão Arthur de Mariom Zimmer Bradley e tantos outros formados apenas como decodificação de milhões de palavras. Essa forma de solidão acompanhada doía muito e foi trocada pelas amizades da fase do cursinho.

Eis que chegou 1997 e as muitas festas, afinal eu faria 18 anos e o mundo se descortinava. Eu sabia, então, quem eu realmente era. A sexualidade já não era mais um mistério, mas nesse momento a liberdade lhe conferia uma máscara totalmente nova. Eu ainda era um rapaz recatado, muitos tabus ainda não deixavam experimentar tudo o que eu desejava, mas o mundo era meu parquinho. Ia para o cursinho, como era chato aquilo, e logo conheci algumas pessoas. Então esse novo grupo fazia do centro da cidade uma festa. Todo o pouco dinheiro que conseguíamos era usado para usufruir daquilo que a noite oferecia. Muitos medos se foram naqueles dias, alguns tabus persistiam, nada de grave.

Naquele ano aprendi a me movimentar pelos grupos que surgiam, as muitas máscara que usamos para socializar começavam a fazer parte de fato da minha vida de quase adulto. Então, aprendi que podia experimentar coisas antes proibidas pela criação que tive e os últimos três anos dessa década foram, de certa forma, libertadores. Fiz muitas coisas que jovens nessa idade fazem. Bebi muito, fumei muito, “fiquei” muito, beijei muitos, transei com alguns. Esse tabu ainda persistia.

Mas o que mais me faz falta hoje é esse sentimento. De poder tudo. Hoje, apesar dos problemas de ordem prática, sou feliz. Curso uma faculdade que eu gosto, estou num relacionamento maravilhoso e sinto-me mais seguro como ser humano. No entanto, aquela sensação de desbravar o mundo, de pisar em terreno desconhecido, o frio na barriga de saber que tudo é novo e bonito, não ter medo de errar, que cada experiência da vida é nova… Ah como isso tudo era bonito.

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Qual é a sua primeira memória?

Qual é a sua primeira memória?

As vezes a linha da minha memória se perde na cronologia dispersa e desorganizada da minha mente, então é difícil dizer exatamente qual a memória mais antiga. Quase como uma característica de senilidade, minha memória se detém no que é mais antigo e se perde no que é recente. Não falo de trabalho ou faculdade, nesse campo até que tenho uma memória muito boa, falo aqui de coisas bobas do cotidiano, como o que almocei ontem, se lavei o cabelo antes de dormir na noite passada, etc.

Me confundo entre dois fatos da minha infância e não consigo discernir qual dessas duas memórias é a mais antiga. Talvez se comentasse com meus pais nem eles soubessem. A primeira imagem que me vem à mente é o meu pai sentado no sofá numa manhã, não posso afirmar se estava nublado porque todas essas memórias estão em dias cinzentos, eu sentado no chão olhando para ele e ao meu lado o meu irmão. Parecíamos, eu e meu irmão, saídos de uma comédia pastelão, ele magro e branco e eu gordo e moreno. Acho que tínhamos por volta de três ou quatro anos, talvez menos pois não lembro da minha irmã naquela época e eu estava com três anos quando ela nasceu. Morávamos numa casa de vila na periferia de Fortaleza. Era uma casa que na frente, caiada de amarelo, havia apenas uma porta, uma janela e um mínimo jardim de muro baixo. A casa em si era coberta de telhas e havia apenas um vão dividido por duas paredes. Um banheiro e um quintal que devia ser mínimo também, mas na minha memória tinha um tamanho considerável.  Outro dia comento sobre o universo existente naquele quintal.

Enfim, nesse dia meu pai nos pregou a primeira peça. Eu estava lá, sentado olhando para ele, sentindo que viria alguma coisa daquela conversa. Eu tinha o hábito da chupeta e meu irmão de colocar o deda na boca. Assim, nessas condições, estávamos os dois apenas de cuecas esperando qual era a grande novidade. Enfim:

– Olhe bem vocês dois, já estão muito grandes pra isso! – e apontando para cada um disse – Se você largar a chupeta e você parar de botar o dedo na boca compro uma bicicleta para cada.

A sorte estava lançada. Uma bicicleta. Não acreditei, subiu-me um calor por dentro. A felicidade transbordava. Lembro claramente daquele momento. Sem pensar duas vezes, tirei a chupeta da boca, olhei pra ela, reuni toda a coragem que existia em mim. Respirei fundo. Corri para a porta e atirei fora a chupeta. Aquele momento dramático, em slow motion ela voou até cair na sarjeta, entre a calçada e o asfalto da rua. Meu irmão, muito malandro, escondeu a mão atrás das costas. Ele não tinha como “desatarraxar” o dedo e jogar fora.

Naquele mesmo dia mais tarde, minha mãe brigou comigo por alguma malcriação minha e me veio com força total a saudade do acalanto da chupeta. Corri para a rua e de cócoras chorei, olhando a chupeta abandonada. Lembro do vazio e da necessidade que eu sentia de esticar o braço e alcançar o objeto do meu desejo. Mas eu ia ganhar uma bicicleta e então eu teria que ser forte. A tal só veio uns três anos depois, já morávamos em outro endereço, mas aí já é outra história.

A segunda memória é mais curta e com menos detalhes. Meu pai tinha um primo, que quando minha irmã nasceu se tornou seu padrinho, e naquele dia ele e sua esposa foram até a nossa casa, a mesma da história anterior. Não lembro a conversar nem nada, apenas lembro que meu irmão saiu com eles de carro, e que eu ter ficado em casa me deixou muito triste, chorei muito e depois de um berro da minha mãe, fui para o quintal e fiquei chorando baixinho lá. Existia um universo lá, mas ainda não é o momento para essa história. Eles demoraram tanto que esqueci. Jantei e fui dormir. Eles voltaram tarde e lembro da imagem do meu irmão todo sujo de chocolate, o cheiro de chocolate, e quando eu perguntei não havia nenhum para mim. Lembro que ia chorar alto mas lembrei do berro da minha mãe e cai no sono novamente chorando baixinho.

Esse texto não era para ser triste, mas foi, enfim são minha memórias mais antigas. Só para ilustrar o dia das crianças. Como todo filho do meio sempre fui propenso à melancolia então habituem-se. Vou contar mais histórias assim ao longo do mês, mas como tudo aqui é informal não vou agendar nada.

Obrigado para quem leu.