Ecolinguísitica

Segue abaixo meu roteiro para o seminário sobre “Ecolinguística”.

A ecolinguística é uma disciplina jovem da linguística, apesar de seus princípios remontarem a Grécia antiga, ela vem sendo estudada com mais força a partir da década de 1970, inicialmente, com Einar Haugen que durante uma conferência trouxe um novo estudo ecológico das inter-relações entre as línguas ao nível da consciência individual e ao nível social em comunidades multilíngues.

Assim, surgiu o conceito da ecologia da língua que estuda as relações da língua e o meio ambiente. Existe nessa disciplina a preocupação de usar os princípios da ecologia para esse estudo. São sete princípios como o:

HOLISMO, onde se observa o todo pelas partes. Como exemplo de holismo, podemos notar que a beleza está na harmonia do todo, alguém tentou fazer uma montagem com partes de pessoas consideradas muito bonitas e o resultado foi um ser estranho, diria até monstruoso.

O seguinte princípio seria as INTER-RELAÇÕES das partes que existem para formar o todo que citei antes. Quero dizer que é devido à convivência entre pessoas ao longo do tempo e suas interações comunicativas que surge a língua como sistema.

O terceiro princípio é a ADAPTAÇÃO. Com o surgimento de novas necessidades comunicativas surgem novas palavras, ou mesmo, quando aprendemos uma nova língua.

O quarto princípio seria a EVOLUÇÃO. A língua não é estática, assim como o Português surgiu quando o Latim chegou a Lusitânia e evolui até a língua que falamos hoje.

O quinto princípio é a POROSIDADE, uma língua flui do território que é considerado, por exemplo, é difícil determinar com precisão até onde o Espanhol avança pelo Rio Grande do Sul.

O sexto princípio é a DIVERSIDADE, ou seja, a grande variedade de línguas no mundo, ou até mesmo as diferença de uma mesma língua em um determinado território.

E por fim, o sétimo princípio, VISÃO DE LONGO PRAZO, aqui vou utilizar um exemplo da ecologia, as usinas nucleares surgiram como uma energia limpa, barata e sem riscos, mas temos Chernobyl como exemplo que depois de algum tempo ela poderia ser bem perigosa.

Voltando a ecolinguística, vamos pensar nos itens citados no seu conceito, o estudo das relações entre a língua e o meio ambiente.

Língua é o modo como os membros da comunicam entre si, verbal ou gestualmente, e meio ambiente aqui vou considerar como TERRITÓRIO, que deve ser entendido como o ambiente em que uma sociedade usa a língua como código. Mas a ecologia não utiliza a expressão “meio ambiente” e no seu lugar usa o termo ecossistema. Que é o conjunto de indivíduos de determinado território e suas inter-relações tanto entre si quanto com o próprio território. Para o nosso estudo seriam as relações por meio da língua, ou seja, as interações comunicativas entre os membros dessa população.

Seguindo esse raciocínio, podemos perceber três ecossistemas, o NATURAL, o MENTAL, e o SOCIAL.

O MEIO AMBIENTE NATURAL DA LÍNGUA é formado pela população e o território juntos. Para o linguista alemão SAPIR, não existe relação direta entre a língua e o território, ou seja, a interação entre língua e território passa necessariamente pela população. Outro linguista, Salikoko Mufwene, da República do Congo e hoje é professor na Universidade de Chicago, diz que “A LÍNGUA É ESPÉCIE PARASITA DA POPULAÇÃO”. Uma outra forma de ver essa relação é o caso de Ernst Von Glasersfeld, filósofo alemão, a é relação POPULAÇÃO – LINGUA – TERRITORIO, onde “A LINGUA CRIA O MUNDO”, ou seja, só temos acesso a ele via linguagem. Mas sim, o território interfere na língua, como em comunidades isoladas onde a língua permanece homogênea e em comunidades linguísticas que se projetam pelo mundo, como o inglês, que variam em regiões diferentes do globo.

O segundo MEIO AMBIENTE DA LINGUA é o MENTAL a língua está localizada na mente (cérebro) por isso mesmo é de difícil acesso, por isso outras ciências que estudam a linguística também se ocupam desse tema, como a neurolinguística e psicolinguística. Utilizando técnicas modernas de exames de imagens é possível, hoje, verificar quais áreas do cérebro são responsáveis pelas palavras e suas interações lexicais, assim, a ciência sabe que quando ouvimos uma palavra não ativamos apenas a área dedicada a essa palavra especifica, mas outras que estão semanticamente associadas a ela. Essa conexão é tão complexa que tendemos a procurar sentido mesmo em frases claramente sem sentido nenhum.

O último é o MEIO AMBIENTE SOCIAL DA LÍNGUA. Dentre os três é o mais abordado. É a comunidade socialmente organizada usuária da uma língua. Esse ramo da ecolinguística é comumente confundido com a sociolinguística. Nesse ambiente é onde podemos abordar a análise critica do discurso e percebermos aspectos, peculiaridades da língua. Como por exemplo, com as sociedades patriarcais a língua se tornou ANDROCENTRICA, quero dizer com isso que a língua é recheada de aspectos machistas. Como, por exemplo, se nessa sala tivéssemos mil mulheres e apenas um homem diríamos os alunos, ou quando queremos enfatizar uma qualidade dizemos GRANDE PRA CARALHO. A língua é também ANTROPOCENTRICA, é focada no homem, ou nos seres humanos. Acreditamos que usamos a língua em favor da utilidade, mas colocamos o foco em nós mesmos e não naquilo que de fato é. Um exemplo disso é quando chamamos um gafanhoto de PRAGA, de fato ele é uma praga no nosso ponto de vista, mas a existência dele na natureza segue um proposito totalmente diverso. A língua é claramente ETNOCENTRICA, é recheada de racismo, por exemplo, dizemos que quando algo sai errado dizemos que A COISA ESTÁ PRETA. A língua também assume o caráter CLASSISTA quando faz distinção de pessoas usamos termos e expressões pejorativa para essa distinção. Dizemos que uma pessoa é CAIPIRA pelo sotaque, uma pequena parte da população é a ELITE e a outra é RALÉ, pois o PEIDO do POPULACHO não fede mais que os das PESSOAS CIVILIZADAS.

Para encerrar, surge a analise critica do discurso ambientalista. A ecolinguística também se preocupa em analisar como os falsos ambientalistas vendem seus produtos mascarando seu real propósito transformando em coisas boas. Como quando uma empresa lança um produto cuja matéria prima são “GRÃOS MELHORADOS”, diz que o objetivo é “FAZER O MELHOR, MAIS RÁPIDO, COM ECONOMIA” e que esse produto é “ALGO NOVO, DIFERENTE, MAIS EFICAZ E DE MAIOR VALOR PARA A SOCIEDADE”. Traz a sociedade um conceito benéfico, atrativo, que convence como evolução, no entanto o real objetivo é o LUCRO. A empresa citada diz que procura usar métodos ecologicamente corretos, mas na prática é uma ecologia rasa, que busca o mínimo custo onde o objetivo deveria ser a busca de métodos sustentáveis com previsão de longo prazo para o beneficio da natureza. Esse é apenas um exemplo de tantos que ocorrem como na agricultura, agropecuária e tantos ramos de negócios que interferem diretamente no equilíbrio ecológico do nosso planeta. Assim, ocorre a alteração do meio ambiente natural ao modificar os grãos com o objetivo minimizar custos; alteração no meio ambiente mental, quando engana a população com eufemismo e expressões que transmitem imagens diferentes da realidade e no meio ambiente social quando interfere em valores estruturais da sociedade.

RAMOS, Rui. Ecolinguística: um novo paradigma para a reflexão sobre o discurso? Braga: Campo das Letras, 2006.

COUTO, Hildo Honório do. Ecolinguística. In; Cadernos de linguagem e sociedade. Brasilia: Unb, 2009.

COUTO, Hildo Honório do. Ecolinguística, estudo das relações entre língua e meio ambiente. Brasília: Thesaurus, 2007.

O ESSENCIAL SOBRE A LINGUÍSTICA

Como se sabe que uma língua é uma língua?

Entendendo-se a língua como um sistema de comunicação que faz uso da faculdade da linguagem ativada pela exposição dos falantes a estímulos linguísticos durante o período de aquisição da língua, podemos inferir alguns conceitos pertinentes como:

  • Dialeto: identifica o sistema linguístico próprio de uma dada região
    • Socioleto: um conjunto de dialetos que corresponde a um recorte social da língua.

Nesse conceito podemos compreender que uma língua remete a ideia de um sistema linguístico que reúne todos os dialetos falados em um país e que sua variedade deve ser interpretada como a manifestação nacional que uma língua falada em diferentes países assume em cada um deles. No entanto, devemos levar em consideração que os critérios objetivos (inteligibilidade mútua, o número de falantes, a coesão geográfica e política de uma determinada comunidade de falantes, etc.,) tornam mais difícil a construção desses conceitos. Dessa forma, a linguística lança mão de termos como língua materna, língua segunda, língua estrangeira, língua oficial, língua de trabalho e outros. Com todas essas variáveis, é difícil determinar o número de línguas existentes, pois, depende de como se determina uma língua e de como se classifica um dialeto.

Em Portugal, onde dentro do conceito exposto a cima, fala-se predominantemente o Português e essa comunidade é em sua maioria de falantes nativos. Porém, inseridos nessa população, encontram-se os falantes dos dialetos setentrionais, centro-meridionais e os dialetos insulares. É relevantes lembrar, que Portugal possui três línguas oficiais determinadas por lei: o Português, a língua Gestual Portuguesa e o Mirandês.  Assim como é esperado que em Portugal se fale o Português, no Brasil essa língua só é compreendida sob a ótica do contexto histórico, por efeito da nossa colonização e perpetuação do meio político. Desta forma, diversos países se comunicam em Português nos cinco continentes.

Não devemos conferir a uma língua maior valor intrínseco, mesmo com um número superior de falantes ou se é usada por muitas instituições internacionais, esses fatores apenas asseguram maior sobrevivência, pois se considera que uma língua falada por uma comunidade menor a 100 000 indivíduos tem menor possibilidade se existir em um mundo onde as ferramentas de multimídia difundem cada vez mais as línguas em maior destaque. Formar um juízo de valor sobre ser um dialeto ou língua errado ou correto, estes apenas de interesse dos estudiosos da gramatica normativa na forma culta, apenas contribuem para pré-conceitos, haja vista que de nada interessam à linguística.

De onde vem a reflexão sobre a linguagem e as línguas?

A invenção da escrita

Quando os sumérios e os egípcios criaram formas de escrita, o fizeram, pois, após uma tomada de consciência da estrutura da língua para assim transforma-la da forma falada para a escrita. Os egípcios associavam imagens de objetos e sons na forma de hieróglifos, os chineses usavam os ideogramas para representar objetos e conceitos. Essas conquistas ocorreram após uma análise, ainda rudimentares, das unidades básicas da língua como as palavras e as frases. No início do II milênio a. C., os fenícios criaram um alfabeto de base fonética, este alfabeto foi interpretado pelos gregos e romanos, criando-se, assim, os sistemas morfológicos contemporâneos.

Primeiras gramaticas

As primeiras gramáticas foram pensadas pelos hindus (I milênio A.C.). O Sânscrito, que significa ‘perfeito’, era tido como sagrado, era usado de forma ritualística, deveria ser pronunciado de forma correta, então os sábios hindus compilaram sua descrição em sons e silabas a fim de evitar deformações.

Os gregos e romanos

Os gregos estudaram sua língua por duas razões, a primeira era um curiosidade sobre a formação da língua, suas variedades e transformações, levando a reflexões filosóficas como as de Platão e Aristóteles. A segunda razão é a busca por um aprofundamento no conhecimento da funcionalidade da língua. Criaram gramáticas e aperfeiçoaram o alfabeto. Como exemplo, Dionísio de Trácia distinguiu as oito partes do discurso (artigo, nome, pronome, verbo, particípio, advérbio, preposição e conjunção), Apolónio Díscolo, em sua obra, desenvolveu a análise sintática, seguindo o modelo de Aristóteles de sujeito e predicado. Preocupados com os poetas antigos e seus textos, criaram a filologia. Os romanos foram além dos estudos filosóficos ou da doutrina gramatical, pensaram no uso da língua para o uso literário, nas questões etimológicas, na retórica e na classificação das palavras.

Idade média

O latim era usado como língua franca nesse período, sistematizando seu uso, foram criadas as primeiras gramáticas para o ensino da língua estrangeira. Nesse mesmo período, como a invenção de Gutemberg, a tipografia, as gramáticas de língua vernácula e escritas nessas línguas começaram a chegar com mais facilidade às mãos dos estudantes. Fernão de Oliveira escreveu a primeira gramática em Português no ano de 1536. Com esses estudos a fonética obteve grande desenvolvimento.

Renascimento e o interesse pelo vernáculo

As viagens marítimas e as mudanças na transição da idade média para o renascimento surgiu a necessidade do estudo das línguas particulares (em vernáculo). No século XVI as Cartinhas ou Cartilhas eram usadas para o ensino da leitura e da escrita, além dessas foram criadas, também, as Ortografias. Com o incremento do ensino das línguas vernáculas foram criados os dicionários e vocabulários descrevendo, por exemplo, o Português pois o latim ocupava cada vez menos espaço. No século XVII cresce o interesse em reflexões filosóficas sobre a linguagem humana e as características universais da língua.

Resumo para a disciplina de Teorias Linguísticas.

MATEUS, Maria Helena Mira & VILLALVA, Alina. O essencial sobre a linguística. Lisboa: Caminho, 2006.(p. 21-37)