À Sombra da Vida

À Sombra da Vida

Animado pelos sentimentos de ler a Montanha Brokeback decidi escrever uma história sobre homofobia também. Tá não sou a Annie Proulx, apenas brinco de escrever, pois estou longe de ser um escritor, porém imaginei uma história que começou como um conto e está crescendo. Não creio que chegara ao tamanho de um romance, mas que seja lá uma novela. Estou escrevendo intuitivamente sem grandes pretensões.

Se vocês tiverem curiosidade de ler um texto simples de alguém que sonha um dia ser escritor sintam-se a vontade para acompanhar Antônio em sua saga em busca da liberdade.

https://www.wattpad.com/story/57704186-à-sombra-da-vida

Por favor comentem lá ou aqui, mas o feedback, mesmo que negativo será de grande ajuda. Lembrem-se que é apenas um exercício, mas está divertido criar essa história. Relutei muito em postar por insegurança mesmo, mas o que é a vida sem um pouco de ousadia?

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Do que você sente saudade?

Hoje surpreendi-me sentindo saudades de coisas pequenas.  Senti falta do sol durante a natação no SESI. Do medo que eu sentia ao final do treino de ter que compartilhar o vestiário com os outros atletas e ter meu orgulho masculino ferido pelas inevitáveis comparações. Até disso sinto um pouco de saudade. Me fazem falta as quintas-feiras e suas sessões baratas nos cinemas do centro. Fugir da aula do cursinho para bater papo no barzinho ali perto. Jogar conversa fora sem as preocupações com as contas a pagar. Caminhar por Fortaleza sem sentir medo da violência de atual.

A década de 1990 me assaltou a alma com tantos problemas, porém algumas bobagens foram tão agradáveis. Hoje como um homem de trinta seis anos todas aquelas fugas parecem banais… Será que eram mesmo?

Aqueles anos proporcionaram tantas descobertas, algumas bem dolorosas e outras bem alegres. Sinto falta daquele rapaz sem máculas que via o mundo por lentes cinzas as vezes. Eu era um jovem muito quieto, passava muito tempo na companhia dos fantasmas e vampiros de Anne Rice, da sacerdotisa Morgana e seu irmão Arthur de Mariom Zimmer Bradley e tantos outros formados apenas como decodificação de milhões de palavras. Essa forma de solidão acompanhada doía muito e foi trocada pelas amizades da fase do cursinho.

Eis que chegou 1997 e as muitas festas, afinal eu faria 18 anos e o mundo se descortinava. Eu sabia, então, quem eu realmente era. A sexualidade já não era mais um mistério, mas nesse momento a liberdade lhe conferia uma máscara totalmente nova. Eu ainda era um rapaz recatado, muitos tabus ainda não deixavam experimentar tudo o que eu desejava, mas o mundo era meu parquinho. Ia para o cursinho, como era chato aquilo, e logo conheci algumas pessoas. Então esse novo grupo fazia do centro da cidade uma festa. Todo o pouco dinheiro que conseguíamos era usado para usufruir daquilo que a noite oferecia. Muitos medos se foram naqueles dias, alguns tabus persistiam, nada de grave.

Naquele ano aprendi a me movimentar pelos grupos que surgiam, as muitas máscara que usamos para socializar começavam a fazer parte de fato da minha vida de quase adulto. Então, aprendi que podia experimentar coisas antes proibidas pela criação que tive e os últimos três anos dessa década foram, de certa forma, libertadores. Fiz muitas coisas que jovens nessa idade fazem. Bebi muito, fumei muito, “fiquei” muito, beijei muitos, transei com alguns. Esse tabu ainda persistia.

Mas o que mais me faz falta hoje é esse sentimento. De poder tudo. Hoje, apesar dos problemas de ordem prática, sou feliz. Curso uma faculdade que eu gosto, estou num relacionamento maravilhoso e sinto-me mais seguro como ser humano. No entanto, aquela sensação de desbravar o mundo, de pisar em terreno desconhecido, o frio na barriga de saber que tudo é novo e bonito, não ter medo de errar, que cada experiência da vida é nova… Ah como isso tudo era bonito.

Resenha: Incidente em Antares

Resenha: Incidente em Antares

Incidente em Antares

     Erico Verissimo nos traz esse romance que, dividido em duas partes, nos conta a saga dos habitantes da cidade fictícia de Antares. Na primeira parte, chamada Antares, temos a história da cidade, desde quando era apenas um povoado na região de fronteira do Rio Grande do Sul chamado Povinho da Caveira, dominado sob a mão de ferro de Francisco Vacariano. Após alguns anos o povoado é elevado a Vila e assume definitivamente o nome de Antares, que Chico Vacariano teimava em explicar como “lugar das antas”. Não muito depois chega à cidade Anacleto Campolargo e foi estabelecida a sanguinolenta inimizade entre os dois clãs. “(…) foi ódio à primeira vista”. Como uma herança genética, a inimizade passou para os descendentes de ambas as famílias que se digladiavam por motivos políticos, comerciais e até no futebol, os ódios e as vinganças cresciam em requintes de crueldade.

     O século virou e Antares começa a se modernizar com o telégrafo, o jornal, o frigorífico, o automóvel e etc., vamos acompanhando a modernização de Antares e as relações políticas se tornando mais complexas e de maior alcance. Então, a pedido do ainda deputado Getúlio Vargas, Xisto Vacariano e Benjamim Campolargo, apertam as mãos sem se olharem cara a cara, selando assim uma paz dolorida, após sessenta anos sem trocarem uma palavra. Com a ascensão de Vargas à Presidência da República, Tibério Vacariano, herdeiro de Xisto, vai ao Rio de Janeiro e a partir daí acompanhamos todos os seus trambiques e negociatas, conseguidas usando o nome do atual chefe de governo, e também acompanhamos a situação política do Brasil. Do lado dos Campolargo é Quitéria, nora de Benjamim, quem assume o clã. E as duas famílias seguem com sua amizade ácida. As condições políticas em Antares vão se deteriorando até que a classe operária decide entrar em greve.

Os mortos deixam seus caixões.
Os mortos deixam seus caixões.

     A segunda parte, O Incidente, começa no dia 11 de dezembro de 1963, com o início da greve geral, que, para o espanto das famílias conservadoras, todas as categorias de trabalhadoras aderiram à greve. Nesse dia sete pessoas morrem em Antares, quase uma calamidade para um município daquele porte. Entre os defuntos de Antares estava Da. Quitéria Campolargo, vítima de um ataque cardíaco, e ao chegar ao cemitério para o sepultamento de Da. Quita descobre-se que os coveiros também aderiram à greve geral. Assim, os sete caixões são deixados na porta do cemitério aguardando o fim da greve. No meio da noite um ladrão, ele ouvira dizer que a matriarca dos Campolargo estaria portando joias de grande valor, decide abrir o esquife a procura do tesouro e foi pego de surpresa quando a defunta de olhos abertos lhe entrega a alma tomando o gatuno por Deus. Após a surpresa inicial dos insepultos, eles descobrem que cada um representava um tipo de habitante de Antares: Uma representante de uma das duas grandes famílias, um advogado vendido, um anarquista, um louco, um comunista, um bêbado e uma prostituta. Decidem voltar à cidade e reclamar o seu direito a um sepultamento digno. Quando amanhece a cidade é tomada pelo odor pútrido dos cadáveres. Eles, após visitarem seus afetos e desafetos, se reúnem no coreto da praça. Ali os defuntos expõem todas as torpezas dos cidadãos. A podridão está em toda parte, tanto dos corpos em decomposição dos cadáveres quanto tanto das vísceras expostas da sociedade antarense. Cornos, esposas desonestas, pederastas, ladrões, fofoqueiras, políticos corruptos, peculatos e todo tipo de sordidez é desmascarada já que os mortos não estão mais a mercê das punições dos homens.

     Nuvens de urubus e milhares de ratos tomam a cidade, os habitantes se revoltam e resolvem atacar os defuntos que decidem voltar aos caixões e então os grevistas permitem os sepultamentos, então aos poucos a cidade retoma a sua rotina e tudo é esquecido e sequer vira lenda, de uma forma tal que todas as transgressões foram remidas.

     Erico Verissimo faz parte da segunda geração do modernismo, também chamado de neorrealismo, baseado no regionalismo, denúncia social, enfoque nos fatos como espécie de documentário e linguagem mais brasileira. Conhecido pela grande obra O Tempo e o Vento, de dimensões proustianas, o autor narra em sua obra tanto a vida urbana nas grandes metrópoles quanto a história e os costumes do Rio Grande do Sul. Incidente em Antares é sua última obra, Verissimo faleceu em 1975 e nos deixou seu legado dividido em romances, contos e livros infantis.

     Incidente em Antares é um romance com dupla característica, a primeira é o caráter de romance histórico tradicional da primeira parte e o segundo é o romance de realismo mágico. Na primeira parte acompanhamos o desenvolvimento social do Rio Grande demonstrado no microcosmos da cidade de Antares. Fatos verídicos servem de pano de fundo para a obra ficcional. A segunda parte, com característica de realismo fantástico e é de forma inusitada que o realismo fantástico se apresenta. Após cerca de 90 capítulos somos arrebatados pelo incidente, os olhos abertos de Da. Quinta Campolargo iniciam a saga dos defuntos deambulantes. Todo o inusitado é substituído pela sátira menipeia, onde os mortos apontam os defeitos dos vivos. Ao morrerem aqueles personagens veem a vida por uma nova perspectiva, ou seja, há o ponto de vista dos mortos e dos vivos. Para os vivos é essencial a permanência do status quo enquanto os mortos, tomados pela indiferença, usam da crítica como arma para atingir seus objetivos. Na condição de mortos todos se igualam para fazerem os vivos refletirem sobre seus desvios morais. Sem esquecer dos pontos divertidos que trazem um pouco de leveza à realidade dura retratada no texto.

     Incidente em Antares é um documento importante de um recorte da história do nosso país. Com ele acompanhamos a evolução política até o golpe militar. O dedo de Cícero Branco apontando toda sujidade da política local se estende a outras esferas políticas, ultrapassando os limites da ficção. Assim, como o dedo de Barcelona aponta os detalhes de uma fotografia de toda a humanidade, essa imagem tem como personagens todas as características aviltantes da condição humana. Acompanhando todos esses personagens que habitam Antares não nos causam espanto as consequências do incidente, para melhor dizer, as não consequências do incidente. Pois com, apenas, boa comida e um pouco de bajulação foi passada uma borracha em tudo que aconteceu e por algum tempo restou apenas um desconforto, como a lembrança borrada de um pesadelo, que mesmo assim é esquecido com o passar do dia.

     A ousadia do autor e dos editores deve ser aplaudida, pois publicar um livro de profunda crítica política sob as barbas dos militares é muita coragem. O livro foi publicado no auge da ditadura militar sob uma conjuntura de censura e perseguição aos artistas, passou às cegas pelos censores, permanecendo até hoje como um expoente tanto de crítica social quanto de qualidade literária.

Erico Verissimo
Erico Verissimo

VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 

Literatura: natureza e conceituação

“Literatura é Arte, é um ato criador que por meio da palavra cria um universo autônomo, onde os seres, as coisas, os fatos, o tempo e o espaço, assemelham-se aos que podemos reconhecer no mundo real que nos cerca, mas que ali – transformados em linguagem – assumem uma dimensão diferente: pertencem ao universo da ficção”.

Nelly Novaes Coelho

Na antiguidade clássica (greco-latina), a literatura era confundida com gramatiké dos gregos por falta de um termo genérico que a designasse, era diferenciada apenas pelos seus gêneros existentes: o lírico, o épico e o dramático. A palavra literatura vem do latim “Litteratura/ae” que significava a ciência relativa às letras ou à arte de escrever, que por sua vez vinha de “Littera/ae”, letra do alfabeto. Com a escrita a linguagem deixa de ser apenas falada, passível de desaperecer com o grupo que a criou, para tornar-se concreta no mármore, argila, pergaminho, ferra, ou qualquer meio disponível.

Durante a idade média (por volta dos séculos XIII e XIV) a literatura permanece ainda no universo da gramática normativa, apenas com o renascimento ela muda um pouco de prisma significando o conjunto de obras literárias produzidas em qualquer lugar ou tempo. Ela era revestida de caráter acumulativo, um conglomerado de obras acabadas e arquivadas pela história, interpretação inteiramente refutada nos nossos dias.

Para o formalismo clássico (séculos XVII e XVIII), regido pela razão de conceituação aristotélica da arte, a literatura é a expressão da beleza e da verdade que existe na essência dos seres, das coisas e dos fatos. O artista era o portador de uma expressão racional da realidade advinda da tradição. Nesse período, a literatura era vista como uma arte que imitava o real e o artista deveria seguir princípios rígidos que não levavam em conta as suas características individuais. O caráter erudito dessa época dizia que a arte de escrever podia ser ensinada, ou seja, julgada pelo seu valor mediante normas, fórmulas ou princípios estritos e gerais que nivelam os artistas pelos mesmos conceitos.

A emoção do artista e a sua originalidade criadora surgem no Romantismo (séculos XVIII e XIX), a literatura não é mais vista pela racionalidade da forma rígida, mas pela expressão do mistério e do enigma da existência. A arte passa a ser estudada por ela mesma, por seus fins e meios. Busca-se uma arte capaz de expressar a verdade essencial da condição humana, ou seja, passa a identificar-se com a vida (conceito ético-estético). O valor de uma obra na expressão do bem e do belo, porém, não mais de forma absoluta sob a rigidez do período anterior, pois o estudo meramente teórico da retórica, poética, até mesmo da estética, formariam apenas pedantes.

A libertação da arte vem com a transição para a nossa época. A poesia passa a ser vista por si mesma, sendo considerada até uma religião, buscando uma realidade diversa da real permeada pela estética com o parnasianismo (expressão do belo em si) e o simbolismo (suprema forma do conhecimento das essências).

Funções da Literatura

Agrupadas em dois aspectos: estético ou não utilitário e ético ou utilitário, que Horácio chamava de dulce e utile. No primeiro caso a literatura se dirige à emoção ou divertimento, no segundo assume um caráter didático. Não é exatamente o gênero literário quem define esses aspectos, mas a intenção essencial que a orienta. A literatura pode assumir muitas outras funções como, por exemplo, as citadas abaixo:

  1. Função Lúdica: destinada ao entretenimento. São, por exemplo, os romances policiais, ficção científica, etc.
  2. Função Pragmática: destinada a uma finalidade prática. Sermões religiosos, conferências, literatura engajada, etc.
  3. Função Sintonizadora (sinfrônica): que tem a capacidade de estabelecer uma conexão com o leitor independente do tempo e do espaço.
  4. Função Cognitiva: quando estabelece uma transmissão de conhecimento psicológico das coisas ou de verdades ocultas entre as relações humanas.
  5. Função Catártica: vê a literatura como instrumento de libertação das pressões humanas.
  6. Função de Elemento Liberador do “Eu”: elemento de evasão, que permite a fuga da realidade, construção de um mundo novo. Pode ser tanto do artista ou do leitor.

Importante deixar claro que nenhuma dessas funções é desempenhada pela obra de maneira pura, ou seja, uma mesma obra pode possuir mais de uma função ao mesmo tempo. Utilizamos esquemas em literatura apenas como recurso didático para uma melhor compreensão do fenômeno literário.

Coelho, Nelly Novaes. Literatura: natureza e conceituação. In: Literatura e linguagem. Sao Paulo: Quiron, 1980. (p. 23-27, 30-32)

O direito à literatura – Resumo

Chegamos a um máximo de racionalidade técnica e domínio sobre a natureza, permitindo imaginar soluções para problemas tão antigos quanto a humanidade como, por exemplo, a fome. Porém, o que se vê é a irracionalidade do comportamento onde deveria haver a racionalidade, e nesse estado quanto mais cresce a riqueza pior é a distribuição de bens, assim, os mesmos meios que permitem o progresso podem provocar a degradação da maioria. Apesar da mudança e da evolução do saber humano, acreditando que o saber e a técnica podem levar à felicidade coletiva, vivemos uma barbárie civilizada. O movimento pelos direitos humanos atualmente pode ver uma solução para as grandes desarmonias que geram a injustiça, não mais como os utopistas racionais, mas do máximo viável de igualdade e justiça.

 Hoje existe um fator que nos faz olhar o futuro com menos pessimismo, não existe mais a celebração do mal, que dizer que o homem não o considera mais tão natural. Com o mesmo efeito existe hoje uma mudança de ver o oprimido que não é mais motivo de piada já que a injustiça social constrange. A mudança no discurso dos políticos e de empresários pode não ter efeito concreto, porém demonstra que o sofrimento não é indiferente a média da opinião. Talvez se possa falar de um progresso no sentimento do próximo, mesmo que sem a disposição correspondente de agir em consonância.

Pensar em direitos humanos é pensar que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável para o próximo. No entanto, nosso egoísmo nos faz acreditar que nossos direitos são mais urgentes que os dos outros, desta forma é curioso constatar que acreditamos que todos têm direito à moradia, alimento, educação, saúde, porém seria um direito de todos a literatura ou a música clássica?

O autor nos apresenta dois conceitos criados por Louis-Joseph Lebret, a distinção entre bens comprensíveis e incomprensíveis. Os primeiros são aqueles que não parecem essenciais enquanto os seguintes são aqueles não podem ser negados a ninguém. O que nos leva a reflexão de que o valor das coisas está em grande parte na necessidade relativa que temos delas e o que é indispensável para uma camada social não o é para outra. Assim, devemos individualmente ter consciência desde a infância que os desvalidos e os pobre tem direito aos bens materiais (e que portanto não se trata de caridade) e as minorias têm direito à igualdade de tratamento, e coletivamente é preciso que hajam leis que garantam esses direitos. Complementando, são bens incompressíveis, também, aqueles que asseguram a integridade espiritual, ou seja, além da alimentação, moradia e etc. devemos considerar a crença, o lazer, a arte e a literatura. Então devemos nos questionar, é a literatura uma necessidade desse tipo?

Ninguém pode passar as vinte e quatros horas do dia sem um momento de abstração, seja sem entrar em modo de ficção ou poesia, é uma característica do ser humano. Dessa forma a literatura, no sentido amplo, é tão necessária à sanidade quanto o sonho durante o sono. Foi utilizada desde antes da escrita para a educação, assim toda literatura é importante, seja ela falada ou escrita, sancionada ou proscrita. É também uma aventura, pois pode perturbar, emocionar, ensinar, enfurecer, alegrar, ensinar e muito mais, tornando o individuo crítico porque faz pensar, ou, dito de outra forma, faz viver.

Analisando a literatura distinguimos três aspectos:

  1. Ela é a construção de objetos autônomos como estrutura e significado;
  2. Ela é uma forma de expressão;
  3. Ela é uma forma de conhecimento, inclusive como incorporação difusa e inconsciente.

A produção literária tira as palavras do nada e as dispõe como todo articulado, tornando-a um objeto, uma construção. Essa construção, ou poderíamos chamar de construção ordenada, é o que nos faz organizar a mente e sentimentos, assim, por consequência, organizar nossa visão de mundo. Toda produção literária pressupõe a organização do caos, ou seja, o produtor toma um material bruto e lhe confere ordem, por isso o caos interior se ordena em mensagem, em uma produção literária. Graças a essa construção apreendemos o seu conteúdo. A produção literária, de todos os tipos e níveis, satisfaz necessidades básicas do ser humano e sua incorporação enriquece nossa percepção de mundo. Ela desenvolve em nós o que nos torna humanos na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, a sociedade, ao semelhante.

Não devemos olhar a literatura com pré-conceitos, afirmando que ela só alcança a verdade se estiver revestida de ideologias, políticas, religiosas, sociais ou simplesmente humanísticas, essa posição é falha e prejudicial, porque diz que ela se justifica apenas pela finalidade e não, também, pelo plano estético. Essas mensagens são tão válidas como quaisquer outras, porém sua validade depende da forma que lhes dá existência como certo tipo de objeto. Para tal, apenas o tema não basta, a forma é necessária.

Em relação aos direitos humanos devemos lembrar que a partir do século XIX, marcado pela urbanização das populações pela industrialização, o pobre deixa de ter papel secundário e é tratado com dignidade pelos autores, não mais como delinquente e começa a se organizar para a grande luta na defesa dos seus direitos ao mínimo necessário. Diversos autores passaram a narrar suas lutas e sofrimentos. Vitor Hugo em Os Miseráveis, Dickens em Oliver Twist, Dostoievski em Os Demônios são exemplos dessa leva de autores que marcam um momento relevante na luta pelos direitos humanos. Essa crítica aos problemas sociais ganhou força no Brasil a partir da década de 1930 com nomes como Jorge Amado e Graciliano Ramos contribuindo para incentivar os sentimentos de preocupação como os menos favorecidos formando uma onde de desmascaramento social.

Finalizando, a literatura corresponde a uma capacidade universal que quando não satisfeita pode mutilar a personalidade, pois é capaz  de dar forma aos sentimentos, por organizar nossa visão do mundo e nos libertar do caos, dessa forma nos humanizando. Também é um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição de direitos ou de negação deles. Em ambos os casos a literatura está a serviço dos direitos humanos. Em nossa sociedade ela é usufruída de acordo com a classe social, nas classes mais abastadas é possível usufruir, por exemplo, de Machado de Assis, enquanto nas mais baixas ficam com a literatura de massa, o folclore, a canção popular, o provérbio e a sabedoria espontânea. Para que a literatura tida como erudita se espalhe pela população é necessário que a organização da sociedade seja feita de forma a garantir uma distribuição equitativa dos bens (sociedade igualitária). Quanto mais igualitária for a sociedade, e quanto mais lazer proporcionar, maior deverá ser a difusão humanizadora das obras literárias, e, portanto, a possibilidade de contribuírem para o amadurecimento de cada um. A experiência mostra que o maior problema é a falta de oportunidade, pois é sabido que é humana a sensibilidade necessária para a fruição de toda a literatura por todas as camadas sociais.

Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidade e em todos os níveis é um direito inalienável.

CÂNDIDO, Antônio. O direito à literatura. In: Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul; São Paulo: Duas Cidades, 2004. (p. 169 – 191)