O que escrever…

O que escrever…

Sempre tenho vontade de escrever, o tempo todo. Quase sempre sinto-me inspirado nos momentos mais inoportunos. Quando não estou em um lugar tranquilo, quando não tenho o computador a mão, quando a bateria do celular está prestes a acabar, quando não tenho papel e caneta ou quando estou trabalhando e não posso parar.

Tento anotar ao menos a ideia principal, mas nem sempre é possível. Aquela ideia revolucionaria que me fará escrever o maior livro de todos os tempos, ganhar o Nobel de literatura, que me tornará rico e prestigiado, sempre surge quando eu menos posso escrever, ou pelo menos anotar em detalhes. Parece quase uma injustiça do universo ou que os deuses estão conspirando contra mim. Me pergunto como essas ideias surgem para os grandes, pois existe, por exemplo, Stephen King, com uma obra tão extensa. Claro que ele é bem mais velho que eu e que teve muito mais tempo para trabalhar. Estou com o livro dele, “On Writting” por terminar de ler. Confesso que o retorno das aulas e a leitura de “Clarice,” me deixaram com um rastro de livros para concluir a leitura. Mas voltando ao bom Stevie, qual é o seu processo criativo? Como esses universos são criados? Como se criam personagens assim?

Enfim, sou um curioso da Arte da escrita. Se eu pudesse viajar no tempo conversaria com tantos que eu admiro, encheria o saco de cada um com milhões de perguntas. Desde Homero, Cervantes, Poe, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Dante Alighieri… nossa, uma lista enorme. Sei que existem livros que desvendam parte desse mistério, mas meus questionamentos não seriam simples assim. Eu puxaria uma cadeira e sentaria ao lado de Virgínia Woolf, e a observaria escrever, compartilharia um cigarro e traria para ela um trago de uma bebida. Faria massagem nos ombros de Poe quando ao escrever o corvo estivesse muito cansado. Como pensar nisso sem sorrir? Já pensou, debater longamente com Jane Austin sobre suas opiniões “proto-feministas” ou não? Comer madeleines bebendo chá e ouvir as narrativas de Proust…

Parece pretensão, mas é puro devaneio regado a vinho numa noite de sexta feira. Não tenho ambição de ser famoso, minha ambição é de compreender, assimilar e compartilhar esse conhecimento, essa arte. Esse é um dos motivos da existência desse blog. Como vocês sabem sou estudante de letras e costumo compartilhar os resumos que escrevo sobre os textos das aulas. As vezes posto meus escritos, como o do dia 22, mas ainda não tenho autoconfiança o suficiente para postar meus escritos, porém aviso que lentamente estou perdendo a vergonha.

Bom, isso é mais um devaneio, mas é de coração.

Bonum vinum laetificat cor hominis!

Quando não se sabe o que dizer…

Quando não se sabe o que dizer…

Claro que isso é muito comum. Conhecer alguém e não conseguir estabelecer um diálogo. Quando a timidez supera a vontade de conversar e tudo aquilo de interessante que existe em você fica guardado nos porões da sua mente. A sua pele é um castelo, daqueles de contos fadas, localizado num monte ermo cercado de espinhos. E tudo o que lhe resta é ficar de corpo presente como um defunto em sua missa fúnebre. Um mero acessório na paisagem, ocupando espaço valioso numa mesa cheia de pessoas engraçadas e divertidas.

Como superar esse fosso cheio de crocodilos? Como ultrapassar essa ponte? Qual caminho seguir para sair dessa rotatória? Leste, oeste, norte e sul. Tantas opções, tantos caminhos. Melhor então é permanecer ali, naquele lugar, escondido, implorando aos deus que ninguém o perceba.

Apesar de extremamente tímido ele tem alguns poucos amigos que tentam matar o dragão e libertar a princesa do castelo. Cansado da solidão ele pensa, “Vamos lá, que mal faz?” Cheio de surpreendente coragem enche o peito e garante a si mesmo que será tudo diferente dessa vez. Toma um banho demorado, até canta enquanto a água que cai do chuveiro cumpre seu papel. Veste-se, perfuma-se e diante do espelho sente orgulho de si mesmo. Entra no carro e segue o caminho para o encontro. Assovia acompanhando a melodia que toca no rádio do carro. Olha-se no retrovisor e sorri. Porém ao chegar ao lugar marcado aquela voz traiçoeira grita dentro da sua cabeça. Reunindo o pouco de dignidade que a timidez não digeriu ergue a cabeça e vai. Cumprimenta todas as pessoas daquele grupo animado e ocupa o seu lugar no ostracismo. Permanece ali, calado, mero expectador da vida.

Eis que percebe um olhar, como longos dedos gelados tocando-lhe a nuca. Pega o celular tentando parecer despercebido e olha a tela como se algo bom surgisse ali. Mas nada está ali, apenas o relógio na screen. Agora aquele olhar arranha-lhe a nuca como unhas precisando de uma boa lixa. O que ele faz? Olha? Usa aquele já desgastado sorriso amarelo?  Um leve cumprimento com a cabeça? Sim faz tudo isso. Mecanicamente, mera convenção social.

Depois que o momento passa, aproveitando que a outra pessoa desviou o olhar, observa melhor o culpado. Essa pessoa chegou depois dele e por isso não foram apresentados. Passa então a observar detidamente o algoz e sente-se profundamente atraído. Desvia o olhar para que as pessoas ao seu redor não percebam o seu interesse. A mente se perde num turbilhão descontrolado, e novamente é atormentado pelos questionamentos. Quem é? Por que olhava detidamente? Muitos outros seguem a esses, baixa a cabeça e fecha os olhos numa tentativa vã de afugenta-los.

A noite segue, ele responde de forma monossilábica as poucas perguntas que seu amigo lhe faz. Tenta mostrar interesse na conversa ao lado, dá algumas opiniões breves. E novamente a sensação. O toque gelado em sua nuca. As unhas que arranham a sua pele a distância. A intuição maltratando a alma como se estivesse despertando-o de um sonho ruim, porém, nada na figura daquela pessoa lembra um sonho ruim, mas sim todo o conjunto é realmente muito bonito. E isso faz fortalecer o sentimento de vergonha. Ao mesmo que tempo que está atraído a timidez distancia-lhe daquilo que naquele momento mais deseja.

As mãos suadas agravam a dignidade que lhe resta, então decide utilizar o pior recurso. “Uma cerveja, por favor.” dirigindo-se ao garçom. Bebe a long neck quase num gole, estava gelada, gostosa, e de súbito a cabeça rodou. Do outro lado da mesa seu objeto de desejo sorria, era óbvio que percebia o drama. E ao contrário do que pensava antes, atirava-lhe um olhar terno, como se olhasse um cachorrinho. Com o rosto em chamas virou a segunda cerveja, mas dessa vez apenas meia garrafa.

Decide então que essa situação é insustentável e levanta-se, deixa o dinheiro das cervejas sobre a mesa e se encaminha para a porta. No entanto, existem alguns obstáculos que o impedem de prosseguir. Primeiro seu amigo o segura pelo braço. “Não vai, é cedo ainda!” Com alívio percebe que seu amigo não percebera o que acontecia, aquele pequeno flerte, seria a pior coisa. Seriam apresentados, os outros se afastariam para dar-lhes privacidade e ele, como que atingido por um raio, cairia morto. Sim, como eu disse antes, aquilo era um drama impossível de escapar. Desculpou-se dizendo que não sentia-se bem, seguido por um abraço apertado e um beijo no rosto como despedida.

O desespero a cada passo aumentava em seu peito. Ele sempre foi assim, de uma timidez quase patológica, porém o tempo ensinou-lhe a criar uma máscara que é confundida com arrogância, algo típico dos tímidos. Sentia-se seguido, sabia que aqueles olhos o seguiam enquanto caminhava e apertava muitas mãos em despedida. O caminho prolonga-se de forma inesperada, sua vontade é correr, mas assim a máscara cairia e todo aquela falsa segurança cairia por terra. Então respirando fundo agradece a cada um o convite.

Quanto mais perto chega mais forte é a sensação que aqueles olhos causam. Apesar do contato que lhe causa ainda mais acanhamento prefere um abraço breve, pois suas mão suam muito. Então, o próximo é o dono daquele olhar. Vê de relance ele se levantando. Sem poder fugir, enxuga as mãos nas calças o mais disfarçadamente que pode e estende a mão.

“Me chamo Paulo.” diz disfarçando o tremor na voz, é um aperto de mãos firmes. “Sou Daniel, prazer”, responde o outro, “muito prazer mesmo”, puxando para um abraço quase forçado. Quando o abraço longo acaba, olham-se nos olhos. Paulo se despede e caminha com as pernas bambas, solta mais alguns “tchaus” e “obrigados” e caminha o mais rápido que pode para o carro.

Seguro dentro do carro pode respirar fundo. Enfim em casa tranquiliza-se, deita e seus sonhos são ternos. Possíveis futuros abrem-se para ele, porém é assunto para um outro dia. Boa noite.

A Colina Escarlate

A Colina Escarlate
Crimson Peak
A Colina Escarlate

Guillermo del Toro, conhecido por filmes como O Labirinto do Fauno e A Espinha do Diabo, estreia neste mês em clima de Halloween “A Colina Escarlate”. O filme conta a história de Edit Cushing (Mia Wasikowska), aspirante a escritora que se apaixona pelo enigmático Thomas Sharpe (Tom Hiddleston). Ele e sua irmã Lucille Sharpe (Jessica Chastain) vindos da Europa procuram financiamento para a construção de uma máquina que os salvará da pobreza. Existe uma química instantânea entre os dois. 

Porém, Miss Cushing guarda um segredo, “fantasmas existem!” Ela mesma afirma na primeira frase do filme. Órfã de mãe, a mocinha é visitada pelo fantasma nada amoroso da progenitora um mês após seu passamento; e nesse momento alerta: “Beware Crimsom Peak!”

Depois do assassinato do pai de Edith, ela casa com Thomas e se muda para Allerdale Hall. Lá, percebe que existe algo errado, pois as visitas dos fantasmas se tornam mais freqüentes. Tudo tem uma ar sinistro e de mistério. Lucille Sharpe é uma mulher bela e enigmática, Edith sempre parece desconfortável em sua companhia.

Allerdale Hall
Allerdale Hall

A Colina Escarlate é um filme de detalhes. Allerdale Hall é um banquete para os olhos dos amantes de filmes sombrios. Del Toro construiu a mansão, literalmente, num brilhante trabalho de cenografia visitamos esse propriedade que sangra o tempo inteiro, e em tudo que é assustador está o vermelho sangue da argila que dá nome ao filme. Gosto muito dessa homenagem a clássicos como o “A Casa da Colina” com Vincent Price (1959), “O Chicote e o Corpo” com Christopher Lee (1963), e tantos outros clássicos.

O trabalho técnico na cenografia e no figurino é maravilhoso. Como vimos em outros filmes de Del Toro. Ele é um mestre em criar atmosferas fantasmagóricas. Todo o trabalho em Allerdale Hall é impecável em seus detalhes, tanto que o diretor frequentemente enquadra a personagem em molduras.

O ponto fraco do filme é o enredo,  previsível e em muitos momentos arrastado. Como diz a própria Edith, é uma histórias com fantasmas e não de fantasmas. Então não espere muitos sustos e medo constante. É um filme de suspense (é tenso), é um filme de terror (tem fantasmas), é um filme de fantasia (imagine morar em uma casa que sangra o tempo todo), é um romance, tudo isso com uma estética gótica.

Crimson Peak

Enfim, vamos lá a minha humilde opinião. A mocinha do filme é fraca, mas acredito que a atriz não poderia render mais com um personagem tão sem graça. O par romântico, Sir Thomas Sharpe, é bem executado mas também a personagem não tem conteúdo. Acredito que o ponto alto é a personagem Lucille, que é bela e perigosa. Jessica Chastain conseguiu executar muito bem, ela é forte e aparentemente está sempre a beira de um surto. Como disse antes os detalhes da fotografia enchem os olhos, é sombrio e muito bem acabado. É divertido, nada muito profundo, não acredito que será um clássico. Confesso que esperava algo na qualidade do “Labirinto do Fauno” mas enfim foi divertido ir ao cinema.

Detalhe, assistam em uma sala de cinema IMAX para ver o que o filme tem de melhor: Allerdale Hall.

Crimson Peak
Crimson Peak

The Canterville Ghost – Oscar Wilde

The Canterville Ghost – Oscar Wilde

Ontem eu estava em casa pela manhã buscando algo para ler e encontrei no site Gutemberg a novela The Canterville Ghost de Oscar Wilde. Até hoje só havia lido “O Retrato de Dorian Gray” desse autor então decidi ler essa história curtinha por mera diversão, gostei tanto que decidi compartilhar aqui.

A história começa com a família Otis que, se mudando da América para a Inglaterra, decide comprar essa antiga propriedade Canterville Chase. De pronto o proprietário alerta que a mansão é assombrada pelo espírito de seu antepassado Sir. Simon Canterville que por trezentos anos perturba a família. O comprador faz chacota da ideia do fantasma e fecha o negócio. Quando a família se muda em definitivo para a propriedade o primeiro fato que lhes chama a atenção é uma mancha de sangue no carpete da sala, mancha essa que marcava o local do crime que o fantasma, quando ainda vivo, cometeu. E que por tal crime pagava vagando por toda eternidade.

Não sei se nesse momento Wilde faz uma crítica à cultura do novo mundo ou às crendices dos ingleses, mas nesse momento o filho mais velho da família Otis, Washington, saca os “poderosos produtos” Pinkerton’s Champion Stain Remover e aragon Detergent e limpa a mancha facilmente. Assim quase como num comercial de rádio dos anos 30. Na manhã seguinte como um passe de mágica a mancha estava de volta lá. E a história segue dessa forma.

A primeira aparição do fantasma é cômica. Com toda a sua aparelhagem clássica de fantasma de castelo, numa noite chuvosa o pobre fantasma arrasta sua correntes até a porta do quarto do chefe da família. Esse, irritado pela perturbação de seu sono, surge com o “maravilhoso” Tammany Rising Sun Lubricator para o que ele considera ser um problema do pobre fantasma, os grilhões enferrujados. Imagino a cara de espanto do fantasma que  dando meia volta no corredor é surpreendido pelos gêmeos, caçulas da família Otis, que lhe atiram almofadas sem medo algum do malfadado espectro. O que lhe resta é voltar ao seu esconderijo e relembrar todo o sucesso dos últimos três séculos e tramar uma volta triunfal.

"Eu realmente insisto que lubrifique suas correntes!"
“Eu realmente insisto que lubrifique suas correntes!”

A indignação do Mr. Otis é tamanha que afirma que se o pobre fantasma não lubrificar as correntes irá confisca-las. Assim a única pessoa neutra é a filha do meio, Virgínia, que não gostava da atitude do resto da família. Até que no domingo seguinte, com sua auto estima abalada, o pobre fantasma causa uma bagunça com sua antiga armadura e foi motivo de chacota dos gêmeos novamente. Fugiu pela escada e na tentativa de salvar o resto da sua dignidade gargalhou de forma demoníaca. Eis que surge mais um comercial, Mrs. Otis traz mais um “maravilhoso produto”, um tônico, pois considera o fantasma doente.

Assim a história continua e… que pena do finado Sir. Simon Canterville! Tudo o coitado faz para assombrar os famigerados destemidos americanos. Ele o faz com mais profundo sentimento de responsabilidade, já que essa é a função de um fantasma. Todo dia a mancha de sangue reaparece, pois é sua obrigação o dever  de mantê-la. Porém sangue é muito difícil de encontrar então ele passa a roubar as tintas de Virgínia, conforme as tintas iam acabando a mancha assumia cores inusitadas como até o mais cintilante verde esmeralda.

Como nem todos gostam de spoilers vou parar por aqui. Mas a história é ótima. Numa Inglaterra repleta de contos góticos e seus Penny Dreadfulls, Wilde não poderia deixar de dar sua contribuição. A novela é cheia do cinismo característico das obras de Wilde, com a crítica aparente da sociedade soturna europeia e a arrogância do novo mundo. As sacadas são perfeitas, o malfadado fantasma que “assombrou” a propriedade passa a ser assombrado pelos americanos.  Assim o autor também crítica a nova onda do espiritismo kardecista que surgia e tinha adeptos muito respeitados como o famoso Sir Arthur Conan Doyle.

Nesse mês de Halloween vale muito a pena ler essa “muito moderna” história de fantasma. Confesso que sofri com o pobre Sir. Simon Canterville.

Quem já leu e ou for ler comentem.

Boa leitura!!!