Resumo: Teoria do Conto.

O conto surge da necessidade humana de transmitir sua história, cultura, criatividade, etc. O homem desde os tempos mais remotos se reuniu para contar estórias em qualquer tipo de reunião social, dessa forma transmitia ao grupo seus mitos, ritos, tradições e até mesmo criando estórias com o intuito de entretenimento. Com a criação da escrita, essa tradição passa a ter registro, para alguns, começando pelos egípcios com Os contos dos mágicos. Essa tradição atravessou os tempos desde a Bíblia, passando pelos textos do mundo clássico greco-latino, vindo do oriente em sânscrito e se espalhando por onde o homem passava ao redor do globo. Essas estórias escritas ainda traziam a força da tradição oral, como em As mil e uma noites e no Decameron entre tantos outros.

Dessa força natural surge a problemática de descobrir o método de escrever o conto. Sobre esse assunto os teóricos travam uma luta, pois há quem admita que existam direções a seguir, uma teoria, e há quem não admita uma teoria específica. Assim, diversos pensadores da literatura tratam esse assunto de forma até irônica, como Quiroga no Decálogo do perfeito contista. Para Mário de Andrade o conto é conto segundo a vontade do seu autor e ainda completa que contistas de sucesso como Machado de Assis encontraram a “a forma do conto indefinível, insondável, irredutível a receitas”.

Prosseguindo com o pensamento machadiano, ele mesmo admite que o conto seja um gênero difícil apesar da sua aparente facilidade. Cortazar mostra a dificuldade em teorizar o conto devido ao aspecto abstrato de sua matéria.

“Tratar da teoria do conto é aceitar uma luta em que a força da teoria pode aniquilar a própria vida do conto.”

Júlio Casares e Cortazar aceitam três acepções para a palavra conto: 1) relato de um acontecimento; 2) narração oral ou escrita de um acontecimento falso; 3) fábula que se conta às crianças para diverti-las. Observando esses aspectos percebe-se que todas são narrativas e como tal há sempre algo a narrar, é de interesse humano e tudo está circunscrito a uma unidade de ação.

Do latim computare o conto evoluiu do oral para registrar estórias de forma escrita. O conto ultrapassa o limite do relato, que “re-conta” um fato, pois nele não há a obrigação com a verdade ou realidade. Se assim fosse assumiria a posição de documento o que a literatura não é, pois, para esse estudo, ocupamo-nos do conto literário.

De forma geral, o conto literário parte do princípio de invenção que partiu da forma oral e evoluiu para o registro escrito. O contador de estórias, enquanto contista, torna-se autor do conto literário quando sua obra final, transferindo da forma oral para a escrita, quando obtém um resultado de ordem estética, que ressalte seu próprio valor de conto, usando intencional a arte do conto, do conto literário. Dessa forma, nem todo contador de estória é um contista. O conto, como forma estética, transforma o contador de estória em narrador que dirige a elaboração desta narrativa que é o conto.

Diferente do romance, o conto busca causar um efeito no leitor, então surge o problema da extensão. Num romance por causa da sua extensão esse efeito é modulado, ou seja, às vezes intenso às vezes inexistente. Já para o conto é preciso dosar a obra, para que esse clima dure um determinado tempo, ou seja, o tempo de uma leitura que dure uma “sentada”, calculado de forma geral em meia hora.

Como toda obra literária o conto é um produto da intenção do autor e para atingir esse efeito o artista calcula os mínimos detalhes. Então existe a preocupação com a economia dos meios narrativos, quer dizer que com o artista os “mínimos” meios procura atingir o “máximo” de efeito. O maior objetivo do escritor ao desenvolver um conto é atingir esse efeito, mantendo a unidade do tema para “fisgar” o leitor, sustentando a tensão sem afrouxá-la.

Para alguns teóricos o ápice do conto é um determinado momento especial. Deve haver na estória um ponto de ação onde haja a descoberta de algo especial, ou uma mudança de caráter moral ou até mesmo de surpresa ou terror, como nos contos de Poe. Porém, existem outros que admitem o conto como uma narrativa do cotidiano, sem crise aparente, ou onde mesmo a monotonia é fato marcante tendo como exemplos os contos de Clarice Lispector. Podemos destacar então a epifania como uma espécie desse momento especial. O personagem da narrativa é tomado por essa “manifestação espiritual súbita”, modificando seu modo de ver o mundo ou a situação narrada. Podemos encarar a epifania como um dos quesitos de beleza, que podem trazer integridade, ou simetria ou a epifania por ela mesma.

O conto então é um corte no fluxo da vida, um modo moderno de narrar, um momento epifânico ou de crise existencial, o susto, a surpresa, a emoção.

GOTLIB, Nádia Batella.Teoria do conto. São Paulo: Ática, 1988. (p. 5-22, 32-37, 49-55)

Resumo: ALGUNS ASPECTOS DO CONTO

Para Cortazar existem algumas constantes, certos valores que se aplicam a todos os contos, valores esses que lhes conferem a individualidade e qualidade de obra de arte. De difícil conceituação, o conto surge, como um conjunto de fatos que trabalham conjuntamente com a liberdade e a capacidade de síntese do artista. Cito a liberdade pois ao conto não se aplicam leis e síntese, segundo a analogia do autor, o romance é como o cinema e o conto como uma fotografia. O conto é um recorte, um fragmento da realidade, com limites determinados, porém com a força para abrir essa realidade captada pela lente da câmera. Como na fotografia, o conto é a escolha de uma imagem ou acontecimento significativo capaz de atuar não apenas em si mesmo mas no leitor. O contista não pode proceder cumulativamente, pois o conto insere em si um limite, ele traz uma noção de condensação de tempo e espaço, submetido a uma “alta pressão espiritual e formal para provocar essa ‘abertura’”. Ao conto pertence uma certa pressão no leitor desde as primeiras cenas.

Assim, o principal elemento do conto é o tema. A escolha do tema desde um acontecimento fantástico, dramático ou até mesmo um momento banal do cotidiano deve ser convertido a um “resumo implacável de uma certa condição humana.”

“Um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta.”

Um tema às vezes é escolhido pelo autor, por vezes o autor se sente impelido a escrever. Um bom tema é um núcleo e os acontecimentos giram em torno desse único ponto, essa gravidade atrai os acontecimentos para si, fazendo suspeitar ao leitor uma realidade mais vasta. Algo que parece pequeno, porém que se espalha e nos faz transcender os limites do conto. Como em se tratando de contos nada é absoluto, o tema não é significativo por si só, o que existe é essa ligação entre o escritor e certo tema em determinado momento e entre certos contos e certos leitores. Dessa forma temos o contista e sua bagagem de vivências tentando criar uma obra, em seguida o tratamento que se dá a essa obra, ou seja, o desenvolvimento do tema. Podemos inferir que todo conto é predeterminado pelo que causa ao escritor, assim o conto tem que “nascer ponte” para que essa emoção seja transportada ao leitor.

Um bom contista tem que saber causar esse sentimento de “sequestro”, de arrebatamento no leitor, que segundo Cortazar é atingido usando um estilo baseado na intensidade e tensão. Intensidade se dá na eliminação do supérfluo, dos floreios, deve-se ater ao que é necessário para o desenvolvimento do tema. A tensão é a forma que autor tem de nos aproximar do tema, daquilo que o autor nos conta, a atmosfera do conto. Ambos os aspectos, intensidade e tensão, são, de fato, o oficio do escritor, é a demonstração mais clara de suas capacidades como contista. No entanto Cortazar enfatiza que essa arte, para ele, deve vir da vivência do escritor, pois se lhe faltar um motivação “entranhável” a obra não passará de exercício estético. O escritor deve estar totalmente comprometido com o que escreve, pois dessa forma garantirá a verdade que quis transmitir ao leitor. O conto deve ser como se apresenta ao escritor que não deve recear não ser aceito já que há um universo enorme de leitores, esses saberão distinguir a forma mais simples ou mais complexa, mais que o obrigará a evadir-se de sua realidade. O conto, mesmo com temas populares, só será bom se se ajustaram aos aspectos citados anteriormente.

CORTAZAR, Julio. Alguns aspectos do conto. In: Valise de Cronópio.

Literatura: natureza e conceituação

“Literatura é Arte, é um ato criador que por meio da palavra cria um universo autônomo, onde os seres, as coisas, os fatos, o tempo e o espaço, assemelham-se aos que podemos reconhecer no mundo real que nos cerca, mas que ali – transformados em linguagem – assumem uma dimensão diferente: pertencem ao universo da ficção”.

Nelly Novaes Coelho

Na antiguidade clássica (greco-latina), a literatura era confundida com gramatiké dos gregos por falta de um termo genérico que a designasse, era diferenciada apenas pelos seus gêneros existentes: o lírico, o épico e o dramático. A palavra literatura vem do latim “Litteratura/ae” que significava a ciência relativa às letras ou à arte de escrever, que por sua vez vinha de “Littera/ae”, letra do alfabeto. Com a escrita a linguagem deixa de ser apenas falada, passível de desaperecer com o grupo que a criou, para tornar-se concreta no mármore, argila, pergaminho, ferra, ou qualquer meio disponível.

Durante a idade média (por volta dos séculos XIII e XIV) a literatura permanece ainda no universo da gramática normativa, apenas com o renascimento ela muda um pouco de prisma significando o conjunto de obras literárias produzidas em qualquer lugar ou tempo. Ela era revestida de caráter acumulativo, um conglomerado de obras acabadas e arquivadas pela história, interpretação inteiramente refutada nos nossos dias.

Para o formalismo clássico (séculos XVII e XVIII), regido pela razão de conceituação aristotélica da arte, a literatura é a expressão da beleza e da verdade que existe na essência dos seres, das coisas e dos fatos. O artista era o portador de uma expressão racional da realidade advinda da tradição. Nesse período, a literatura era vista como uma arte que imitava o real e o artista deveria seguir princípios rígidos que não levavam em conta as suas características individuais. O caráter erudito dessa época dizia que a arte de escrever podia ser ensinada, ou seja, julgada pelo seu valor mediante normas, fórmulas ou princípios estritos e gerais que nivelam os artistas pelos mesmos conceitos.

A emoção do artista e a sua originalidade criadora surgem no Romantismo (séculos XVIII e XIX), a literatura não é mais vista pela racionalidade da forma rígida, mas pela expressão do mistério e do enigma da existência. A arte passa a ser estudada por ela mesma, por seus fins e meios. Busca-se uma arte capaz de expressar a verdade essencial da condição humana, ou seja, passa a identificar-se com a vida (conceito ético-estético). O valor de uma obra na expressão do bem e do belo, porém, não mais de forma absoluta sob a rigidez do período anterior, pois o estudo meramente teórico da retórica, poética, até mesmo da estética, formariam apenas pedantes.

A libertação da arte vem com a transição para a nossa época. A poesia passa a ser vista por si mesma, sendo considerada até uma religião, buscando uma realidade diversa da real permeada pela estética com o parnasianismo (expressão do belo em si) e o simbolismo (suprema forma do conhecimento das essências).

Funções da Literatura

Agrupadas em dois aspectos: estético ou não utilitário e ético ou utilitário, que Horácio chamava de dulce e utile. No primeiro caso a literatura se dirige à emoção ou divertimento, no segundo assume um caráter didático. Não é exatamente o gênero literário quem define esses aspectos, mas a intenção essencial que a orienta. A literatura pode assumir muitas outras funções como, por exemplo, as citadas abaixo:

  1. Função Lúdica: destinada ao entretenimento. São, por exemplo, os romances policiais, ficção científica, etc.
  2. Função Pragmática: destinada a uma finalidade prática. Sermões religiosos, conferências, literatura engajada, etc.
  3. Função Sintonizadora (sinfrônica): que tem a capacidade de estabelecer uma conexão com o leitor independente do tempo e do espaço.
  4. Função Cognitiva: quando estabelece uma transmissão de conhecimento psicológico das coisas ou de verdades ocultas entre as relações humanas.
  5. Função Catártica: vê a literatura como instrumento de libertação das pressões humanas.
  6. Função de Elemento Liberador do “Eu”: elemento de evasão, que permite a fuga da realidade, construção de um mundo novo. Pode ser tanto do artista ou do leitor.

Importante deixar claro que nenhuma dessas funções é desempenhada pela obra de maneira pura, ou seja, uma mesma obra pode possuir mais de uma função ao mesmo tempo. Utilizamos esquemas em literatura apenas como recurso didático para uma melhor compreensão do fenômeno literário.

Coelho, Nelly Novaes. Literatura: natureza e conceituação. In: Literatura e linguagem. Sao Paulo: Quiron, 1980. (p. 23-27, 30-32)

O direito à literatura – Resumo

Chegamos a um máximo de racionalidade técnica e domínio sobre a natureza, permitindo imaginar soluções para problemas tão antigos quanto a humanidade como, por exemplo, a fome. Porém, o que se vê é a irracionalidade do comportamento onde deveria haver a racionalidade, e nesse estado quanto mais cresce a riqueza pior é a distribuição de bens, assim, os mesmos meios que permitem o progresso podem provocar a degradação da maioria. Apesar da mudança e da evolução do saber humano, acreditando que o saber e a técnica podem levar à felicidade coletiva, vivemos uma barbárie civilizada. O movimento pelos direitos humanos atualmente pode ver uma solução para as grandes desarmonias que geram a injustiça, não mais como os utopistas racionais, mas do máximo viável de igualdade e justiça.

 Hoje existe um fator que nos faz olhar o futuro com menos pessimismo, não existe mais a celebração do mal, que dizer que o homem não o considera mais tão natural. Com o mesmo efeito existe hoje uma mudança de ver o oprimido que não é mais motivo de piada já que a injustiça social constrange. A mudança no discurso dos políticos e de empresários pode não ter efeito concreto, porém demonstra que o sofrimento não é indiferente a média da opinião. Talvez se possa falar de um progresso no sentimento do próximo, mesmo que sem a disposição correspondente de agir em consonância.

Pensar em direitos humanos é pensar que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável para o próximo. No entanto, nosso egoísmo nos faz acreditar que nossos direitos são mais urgentes que os dos outros, desta forma é curioso constatar que acreditamos que todos têm direito à moradia, alimento, educação, saúde, porém seria um direito de todos a literatura ou a música clássica?

O autor nos apresenta dois conceitos criados por Louis-Joseph Lebret, a distinção entre bens comprensíveis e incomprensíveis. Os primeiros são aqueles que não parecem essenciais enquanto os seguintes são aqueles não podem ser negados a ninguém. O que nos leva a reflexão de que o valor das coisas está em grande parte na necessidade relativa que temos delas e o que é indispensável para uma camada social não o é para outra. Assim, devemos individualmente ter consciência desde a infância que os desvalidos e os pobre tem direito aos bens materiais (e que portanto não se trata de caridade) e as minorias têm direito à igualdade de tratamento, e coletivamente é preciso que hajam leis que garantam esses direitos. Complementando, são bens incompressíveis, também, aqueles que asseguram a integridade espiritual, ou seja, além da alimentação, moradia e etc. devemos considerar a crença, o lazer, a arte e a literatura. Então devemos nos questionar, é a literatura uma necessidade desse tipo?

Ninguém pode passar as vinte e quatros horas do dia sem um momento de abstração, seja sem entrar em modo de ficção ou poesia, é uma característica do ser humano. Dessa forma a literatura, no sentido amplo, é tão necessária à sanidade quanto o sonho durante o sono. Foi utilizada desde antes da escrita para a educação, assim toda literatura é importante, seja ela falada ou escrita, sancionada ou proscrita. É também uma aventura, pois pode perturbar, emocionar, ensinar, enfurecer, alegrar, ensinar e muito mais, tornando o individuo crítico porque faz pensar, ou, dito de outra forma, faz viver.

Analisando a literatura distinguimos três aspectos:

  1. Ela é a construção de objetos autônomos como estrutura e significado;
  2. Ela é uma forma de expressão;
  3. Ela é uma forma de conhecimento, inclusive como incorporação difusa e inconsciente.

A produção literária tira as palavras do nada e as dispõe como todo articulado, tornando-a um objeto, uma construção. Essa construção, ou poderíamos chamar de construção ordenada, é o que nos faz organizar a mente e sentimentos, assim, por consequência, organizar nossa visão de mundo. Toda produção literária pressupõe a organização do caos, ou seja, o produtor toma um material bruto e lhe confere ordem, por isso o caos interior se ordena em mensagem, em uma produção literária. Graças a essa construção apreendemos o seu conteúdo. A produção literária, de todos os tipos e níveis, satisfaz necessidades básicas do ser humano e sua incorporação enriquece nossa percepção de mundo. Ela desenvolve em nós o que nos torna humanos na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, a sociedade, ao semelhante.

Não devemos olhar a literatura com pré-conceitos, afirmando que ela só alcança a verdade se estiver revestida de ideologias, políticas, religiosas, sociais ou simplesmente humanísticas, essa posição é falha e prejudicial, porque diz que ela se justifica apenas pela finalidade e não, também, pelo plano estético. Essas mensagens são tão válidas como quaisquer outras, porém sua validade depende da forma que lhes dá existência como certo tipo de objeto. Para tal, apenas o tema não basta, a forma é necessária.

Em relação aos direitos humanos devemos lembrar que a partir do século XIX, marcado pela urbanização das populações pela industrialização, o pobre deixa de ter papel secundário e é tratado com dignidade pelos autores, não mais como delinquente e começa a se organizar para a grande luta na defesa dos seus direitos ao mínimo necessário. Diversos autores passaram a narrar suas lutas e sofrimentos. Vitor Hugo em Os Miseráveis, Dickens em Oliver Twist, Dostoievski em Os Demônios são exemplos dessa leva de autores que marcam um momento relevante na luta pelos direitos humanos. Essa crítica aos problemas sociais ganhou força no Brasil a partir da década de 1930 com nomes como Jorge Amado e Graciliano Ramos contribuindo para incentivar os sentimentos de preocupação como os menos favorecidos formando uma onde de desmascaramento social.

Finalizando, a literatura corresponde a uma capacidade universal que quando não satisfeita pode mutilar a personalidade, pois é capaz  de dar forma aos sentimentos, por organizar nossa visão do mundo e nos libertar do caos, dessa forma nos humanizando. Também é um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição de direitos ou de negação deles. Em ambos os casos a literatura está a serviço dos direitos humanos. Em nossa sociedade ela é usufruída de acordo com a classe social, nas classes mais abastadas é possível usufruir, por exemplo, de Machado de Assis, enquanto nas mais baixas ficam com a literatura de massa, o folclore, a canção popular, o provérbio e a sabedoria espontânea. Para que a literatura tida como erudita se espalhe pela população é necessário que a organização da sociedade seja feita de forma a garantir uma distribuição equitativa dos bens (sociedade igualitária). Quanto mais igualitária for a sociedade, e quanto mais lazer proporcionar, maior deverá ser a difusão humanizadora das obras literárias, e, portanto, a possibilidade de contribuírem para o amadurecimento de cada um. A experiência mostra que o maior problema é a falta de oportunidade, pois é sabido que é humana a sensibilidade necessária para a fruição de toda a literatura por todas as camadas sociais.

Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidade e em todos os níveis é um direito inalienável.

CÂNDIDO, Antônio. O direito à literatura. In: Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul; São Paulo: Duas Cidades, 2004. (p. 169 – 191)

A literatura e a vida social

Tentando criar uma teoria sociológica da arte, as ciências sociais criaram explicações duvidosas com recursos sociológicos, psicológicos e outros, assim devemos ter em mente certos cuidados ao delimitar os campos adequados e fazer sentir que os recursos citados são auxiliares aos estudos aqui citados. Pensando assim surgem alguns questionamentos: qual a influência do meio social sobre a literatura? Que influência exerce a obra sobre a sociedade? Antes de tudo a literatura é também um produto social, exprimindo condições de cada civilização em que ocorre. Surge daí uma tendência de analisar o conteúdo social das obras, geralmente com base em motivos de ordem moral ou política, inferindo que arte deve transmitir esses conceitos e que neles estão o seu valor. Porém, a arte é social em ambos os sentidos, pois depende da ação do meio e produz sobre os indivíduos um efeito. Deve-se analisar as influências concretas exercidas pelos fatores socioculturais, dificilmente é possível perceber claramente sua variedade e quantidade, mas pode-se aferir os mais decisivos que estão ligados as estruturas sociais, aos valores e ideologias e às técnicas de comunicação, respectivamente referem-se à posição social do artista ou grupo receptor, na forma e conteúdo da obra e como a é transmitida. Surgem assim quatro aspectos na produção artística: a) o artista usa os recursos e padrões da sua época, b) os temas escolhidos, c) a forma e d) a reação causada no meio. Desta forma, sociologicamente, a arte é um sistema simbólico de comunicação inter-humana. O artista recorre ao arsenal comum da civilização para os temas e formas da obra, e na medida em que ambos se moldam sempre ao público atual ou prefigurado, é impossível deixar de incluir na sua explicação todos os elementos do processo comunicativo, que é integrador e bitransitivo por excelência.

Há dois tipos de literatura: de agregação e de segregação. A primeira é de inspiração coletiva e de fácil acesso. A segunda pretende inovar e dirige-se a um número limitado de receptores. Surge daí dois fenômenos sociais: a integração e a diferenciação. A integração é o conjunto de fatores que acentuam o que é comum aos indivíduos ou grupos. A diferenciação busca acentuar as peculiaridades e individualidades entre os receptores. A arte sobrevive equilibrando esses dois conceitos.

Os três elementos da comunicação artística são: o autor, a obra e o público. Eles se referem, respectivamente, como a sociedade define a posição e o papel do artista, como a obra depende dos recursos técnicos para incorporar os valores propostos e como se configuram os públicos.

  1. A posição do artista: É um aspecto da sociedade. Assim, o aparecimento do artista na sociedade com posição e papel determinados; como se diferenciam os grupos de artista; como esses grupos aparecem numa sociedade estratificada. Existem algumas circunstâncias na relação “artistas – público”: a) necessidade de um agente individual que tome para si a produção artística, b) o reconhecimento ou não do artista pelo público e c) a obra é um veículo das inspirações individuais do artista. A obra é uma confluência das condições sociais e da iniciativa do artista. O artista pode ter outras atribuições além da produção artística. A técnica pode atrair os grupos de artistas em confrarias, onde um seleto grupo detentor de determinada técnica se atrai configurando um grupo social.
  2. A configuração da obra: A obra depende estritamente do artista e das condições sociais que determinam sua posição. A estrutura da obra artística se divide em conteúdo (valores e ideologias) e forma (modalidade de comunicação).
  • O público: É o receptor da arte. Conforme os crescimentos da sociedade artistas e públicos se diferenciaram. É tendo em mente o público que o artista decide o destino da obra. O público tem o poder de fazer o artista alterar o seu modo de fazer a arte. A técnica também sofre influência do público, adequando quanto a sua aceitabilidade. Os valores atribuídos à arte pelo público podem ser chamados de gosto, moda e outras, exprimindo as expectativas sociais desse grupo, ou até mesmo formando um juízo de valor arbitrário. O público dá sentido e realidade à obra, pois é nele que ela se concretiza, dessa forma, um artista desconhecido passa a ser conhecido desde que a posteridade defina seu valor. A obra liga o autor ao público.

CANDIDO, Antônio. A literatura e a vida social. In: Literatura e sociedade. São Paulo: Ouro Sobre Azul, 2006. (p. 27-49).