Sociolinguística

Sociolinguística

Já que as aulas recomeçaram volto aos resumos. Este é o primeiro texto da disciplina Sociolinguística.

A autora inicia o texto afirmando que embora a Sociolinguística tenha sido criada em meados do século XX ela já havia sido abordada anteriormente por Meillet, Bakhtin e membros do Círculo de Praga. Esses cientistas não dissociavam o material da fala do produtor dessa fala, ou seja, o falante, eles consideravam importante analisar as condições da produção da fala. Duas premissas surgem dessa ideia: o relativismo cultural e a heterogeneidade linguística.

O relativismo cultural surge em Franz Boas, que estudava as línguas ameríndias. Esse pensamento levava a conclusão que uma manifestação cultural não é essencialmente superior ou inferior a outras. Linguistas americanos e europeus aumentaram o alcance dessa ideia para a comparação entre as variedades de uma língua estendendo ao repertório de um único falante.

A motivação inicial da pesquisa sociolinguística foi a constatação do baixo rendimento escolar de crianças de comunidades carentes, diferentemente do que acontecia com crianças de classe sociais mais altas. Buscando dentro do vernáculo dessas crianças as diferenças entre o padrão falado e o ensinado nas escolas. Nesse momento a Sociolinguística se voltava para a descrição das variações e dos fenômenos em processo de mudança da língua, expandindo-se depois para outros âmbitos da linguagem humana, como: as relações de poder e dominação, o papel da linguagem na formação e perpetuação de instituições sociais e a transmissão da cultura. Dessa forma é importante diferenciar os aspectos micros (multilinguismo, bilinguismo, diglossia, atitudes linguísticas, manutenção e mudança linguística) e macros (etnografia da comunicação, pragmática linguística, implicaturas conversacionais, línguas pidginis e crioulas, variação linguística e as múltiplas aplicações da disciplina). A Sociolinguística reavaliou a ideia de Chomsky, ampliando o conceito de competência linguística, avaliando o conhecimento do falante para produzir infinitas sentenças, de acordo com o sistema da língua, assim como a capacidade de adaptar a produção dessas sentenças à situação e ao destinatário.

A preocupação com a heterogeneidade linguística ainda advinha da diferença de rendimento escolar das crianças de grupos étnicos e sociais minoritários, principalmente de comunidades afro-americanas. O caráter variacionista desses sociolinguistas criou duas tendências que se relacionavam. A primeira estabelecia uma posição contraria a política compensatória surgida dessa problemática e a segunda partia do pressuposto das diferenças linguísticas entre professores e alunos, eles desconheciam o sistema linguístico uns dos outros. Os pensadores dessa corrente recomendavam que os professores aprendessem a identificar as diferenças dialetais de seus alunos (pronúncia, gramática e erros de leitura).

Do inglês literacy, surge o próximo tema do texto: “Letramento”, no sentido de alfabetização. Começando pelo foco nas mudanças sociopolíticas e demográficas que se seguiram ao uso extensivo da escrita, já que só após a invenção da imprensa é que a leitura e a escrita se espalharam pelos países europeus, antes a escrita era restrita principalmente aos mosteiros. O próximo passo foi a análise do desenvolvimento da tecnologia da escrita nos grupos das sociedades não industrializadas.

O primeiro modelo de estudos do letramento se preocupava na correlação entre a aquisição da escrita e o desenvolvimento cognitivo. De um lado a oralidade e a escrita e do outro o reconhecimento dos poderes inerentes à escrita e daqueles que a utilizavam. Pensamento esse que foi deixado de lado quando se percebeu que a forma de modelar o pensamento (pensamento lógico) se devia muito mais ao como o indivíduo era ensinado (treinamento escolar) do que apenas aprender a escrever.

Brian Street identificou duas maneiras de ver o letramento: atribuindo-lhe um caráter autônomo e uma análise a partir de uma perspectiva ideológica. O primeiro está ligado diretamente à escrita e por consequência à leitura. Pensamento esse permeado pelo preconceito de que aqueles indivíduos que sabem ler e escrever são capazes de desenvolver raciocínios complexos e os outros não. Seguindo esse pensamento, Walter Olson, questionou entre o letramento e a evolução social, histórica e cultural, e também as diferenças entre a linguagem oral e escrita. Desses questionamentos concluiu que praticamente tudo que pode ser escrito pode ser falado, distinguindo-se apenas pelas escolhas linguísticas entre os recursos utilizados das duas modalidades.

            “O que interessa é o que as pessoas fazem com o letramento e não o que o letramento faz as pessoas.” Olson

O modelo ideológico, aqui utilizado diferentemente do sentido marxista, diz que não haveria uma relação causal entre o letramento e o progresso tecnológico. O que é de difícil comprovação empírica, pois os nações mais adiantadas ou mais poderosas são as que mais desenvolveram práticas letradas extensiva e impressas, que possuem índices baixíssimos de analfabetismo funcional.

O último tema do texto é a diferença entre a oralidade e a escrita. A oralidade tem caráter predominantemente local e está sob a influência do momento da utilização, ou seja, o falante é influenciado pelo ouvinte, o que não ocorre com a escrita. Quanto maior é a influência do contexto, menor é a necessidade de precisão lexical. Na escrita o contexto é mais restrito assim a necessidade de maior formalidade e planejamento. Porém não devem ser identificadas como contrárias e sim como uma continuidade que parte da oralidade para o letramento.

Fonte: BORTONI-RICARDO, Stella Maris. A Sociolinguística: uma nova maneira de ver o mundo. In: Manual de Sociolinguística. São Paulo: Contexto, 2014.

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