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Gente, esse post é apenas para me desculpar com vocês. Esta semana vou ficar devendo o Diário de Leitura, por causa das provas e seminário na faculdade (realidade do calendário louco das faculdades públicas e suas greves) e também o trabalho está pesado (quem trabalha com contabilidade vai entender o que é o começo do ano em uma fundação). Então para não ser mais chato e não aumentar a minha frustração vou ficando por aqui.

Abraços!!!

Dom Casmurro – #1

Dom Casmurro – #1

Li esse livro na época da escola um par de décadas atrás e talvez a imposição me fez sentir um certo distanciamento com os clássicos brasileiros. Os floreios e o preciosismo da linguagem tornavam a leitura enfadonha. Mas o tempo sempre passa e agora não sinto mais esse pesar sobre a leitura. Encontro um Machado novo e um universo totalmente diferente. Não posso dizer que a mudança tenha ocorrido por estar cursando Letras, pois naquela época eu já sentia o desejo, mas talvez seja a diferença de maturidade. Entenda-me. Não estou afirmando que sou maduro hoje, porém aos 36, quase 37, o mundo é totalmente diferente.

Então, repetindo, encontro um Machado novo, que apesar do remanescente preciosismo da linguagem, é fluido e leve. Os capítulos curtos trazem essa leveza à obra. O que tem facilitado a leitura, e me encontro adiantado no planejamento que fiz.

Então temos esse homem lembrando da sua vida na rua do Matacavalos, seu nome é Bentinho, porém por sua atitude perante a vida recebe a alcunha que dá nome ao livro, Dom Casmurro. O nome lhe dá uma certo ar de nobreza e todo o saudosismo traz o sentimento que o tornou célebre. Casmurro, aquele homem calado e entediado com a vida. Nas reminiscência por ele apresentada, conhecemos menino ainda, Bentinho, filho único criado pela mãe em companhia de um tio, uma tia e um agregado à família, esse é um tipo estranho. Sua vizinha, Capitolina, ou simplesmente Capitu, é uma menina com ares de moça. Ela possui uma inteligência curiosa, então perguntadeira, não possui uma fama muito agradável, o que todos relevam por ser apenas uma menina. Bentinho é prometido a ser padre, por força de uma promessa feita pela mãe. Ele é obrigado a estudar disciplinas referente ao seu futuro. Até certo momento ele é apenas um menino que não gosta realmente dos estudos, fato comum a maioria dos meninos muito ativos.

Um dia ele escuta uma conversa entre os adultos moradores da casa do Matacavalos. O agregado alertava a mãe de Bentinho sobre a possibilidade de o menino e a vizinha apaixonarem-se. A principal consequência desse fato era o menino desistir da promessa da mãe. Bentinho, até então, era apenas um menino, porém ao ouvir toda a conversa passou a refletir sobre a sua relação com Capitu. Pensando sobre os pormenores entendeu que era verdade. Estava apaixonado pela menina.

“Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o coração parecendo querer sair-me pela boca. Não me atrevia a descer à chácara, e passar ao quintal vizinho. Comecei a andar de um lado para o outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava.”

Eu me pergunto qual o poder de influência daquelas palavras sobre Bentinho. Mesmo, o próprio Machado, alerta-nos sobre o fato. Passei esses dias pensando sobre isso e confesso que o destino tece suas próprias teias e muitas vezes somos aprisionados por esse tipo de ideia. Quem nunca se viu pensando sobre algo apenas por ter ouvido a opinião de alguém?

“Assim, o menino passa a ter consciência de tudo que cerca Capitu. Dos seus modos, das suas roupas, do seu olhar sedutor… Sim o menino sucumbiu à ideia e percebeu-se caído de amores por Capitu. Agora vivia numa agonia de dar dó. Não poderia ser padre e sentia como se a vida lhe pregasse uma peça detestável. Junto à menina tramou um plano para trazer o agregado para seu lado e tentar dissuadir a mãe da ideia. O quê, até onde alcanço a história, para desespero do menino não surtiu o efeito esperado.”

Mas Capitu estava ali, ao seu alcance e ao mesmo tempo inalcançável, partilhando conversinhas íntimas e brincadeiras menos infantis. Mas o grande dia chega, aquele marco divisório entre o menino e o jovem homem, por acidente acontece o primeiro beijo. Não consigo decidir se Capitu é mesmo uma mestre da sedução ou apenas muito consciente de si conseguindo esconder o que sente. Talvez as duas coisas. Mas divagações à parte, a relação entre os dois rapidamente atinge um novo patamar, chegando ao ápice de as duas crianças prometerem casamento futuro, mesmo dentro das situações mais difíceis. Como essa menina é esperta! Confesso aqui o meu medo de Capitu.

Esse é um resumo de onde estou na história. Confesso que tenho gostado muito. As imagens e as reflexões são incríveis. Nos mostram o poder de avaliação do mundo que Machado possuía. Não vou me alongar em análises pois ainda estou no começo e estou preparando uma avaliação pessoal mais criteriosa. A única coisa que posso afirmar até aqui é que, contrariando o meu pré-julgamento adolescente, a história caminha fácil e divertida, algo que camufla muito bem a profundidade para os leitor displicente.

“… há em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e um sol de outubro.”

“… a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas que a senhora saiu, quando a senhora não quer falar com ninguém.”

Eu acredito que essas construções é onde reside a genialidade de Machado de Assis. Sem me alongar deixo essa parte até aqui.

Crime e Castigo – 1ª Parte

Contén Spoilers!

Como eu disse no post sobre o desafio, Crime e Castigo é um livro que possuo há alguns anos, ensaiei ler os primeiros capítulos algumas vezes, porém por circunstâncias da vida abandonava o volume. Por isso o desafio ter um ritmo quase impossível, conhecendo-me bem posso dizer que se o desafio for muito fácil eu termino por desistir logo. Então, sem mais demora vamos à leitura.

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Rodion Románovitch Raskólnikov era uma dessas pessoas para quem tudo ao seu redor parecia tedioso, talvez por possuir uma inteligência acima da média. Encontramos o rapaz num cubículo sujo e escuro, vestido como um mendigo e passando fome. Habitava uma São Petersburgo suja, pobre, repleta de bêbados e prostitutas, onde a fedentina enche o ar e entra pelas narinas dos passantes. Viera do interior para estudar, deixando a mãe, essa vive de uma pequena pensão, e a irmã, governanta na casa de uma família abastada em sua terra natal. Abandonara os estudos por falta de recursos e pelo mesmo motivo fugia da senhoria do prédio como um vampiro da luz do dia.

Logo percebemos que algum plano ronda a mente de Rodia, assim chamado pela própria mãe. Ele deixou o pequeno cômodo naquela tarde de Julho para ir à casa de Aliena Ivanovna, uma velha detestável de quem o rapaz tomava dinheiro penhorando seus parcos pertences. Entretanto, aquela visita se mostra diferente, além do dinheiro, nosso amigo, tem outras intensões. Como um espião ele investiga todo o espaço do quarto que Aliena habitava com sua irma Lisavieta. Penhorou o relógio que foi de seu pai e saiu com uma pequena fração do que pretendia receber, mas conseguiu investigar o ambiente, seu objetivo principal.

Saiu de lá com o máximo de informações possível, apesar da velhota vil estar muito desconfiada. No caminho de volta, tomado pela fome, Raskólnikov para em uma taberna suja e conhece Marmieládov. Um bêbado contumaz. Tomado pela bebida, ele se atira à mesa do rapaz e inicia um conversa que termina em narrar praticamente toda a sua vida. Animalizado pelo vício, o bêbado narra sem pudor que é casado pela segunda vez, e a única filha do primeiro casamento é obrigada a prostituir-se para alimentar os irmãos mais novos e a madrasta. Estava ali bebendo os últimos “copeques” da renda da filha. O senhor passou bastante tempo ali, conversou longamente com rapaz sobre suas dores. É claro nesse ponto da narrativa que nem toda pobreza é causada pela falta de trabalho, pois aquele homem era vítima de seus vícios. Muitíssimo habituado às próprias dores, ele perdera duas vezes trabalhos importantes naquela sociedade. Ao fim do longo monólogo, voltou amparado pelo rapaz e mais uma vez voltamos a ter contato com o misterioso plano de Raskólnikov. Ao deixar o lugar onde mora o bêbado o rapaz deixa algumas moedas para a triste família.

No dia seguinte, mesmo assombrado pela fome, nada o agrada. Até a refeição rala, trazida pela cozinheira da senhoria do prédio, não lhe muda o ânimo. Apenas uma carta de sua mãe o traz de volta à realidade. A longa missiva narra as desventuras de sua família: o pouco dinheiro, os empréstimos, a irmã que quase perdeu a honra numa confusão com o ex-patrão e sua esposa e, por fim, um súbito noivado. Esse último fato o traz de volta à vida. O noivado lhe parece quase uma prostituição, o que acelera o plano. Sai do prédio tão irritado esquecendo até os aluguéis atrasados e o risco de encontrar a credora. No trajeto até a casa de um amigo encontramos mais uma situação inusitada. Um menina caminha trôpega pela rua, aparentemente ela havia sofrido alguma agressão sexual. E mais uma vez o pobre Rodia perde alguns copeques tentando ajudar.

A saga do nosso rapaz continua, cai fraco e doente e por algum tempo dorme no relento. Volta à casa e põe o plano em ação. Paramenta-se, encontra a arma do crime e vai até a cena do crime: o lar da velha agiota. Ele consegue ultrapassar a desconfiança da senhora e subitamente a ataca a machadadas. A cena segue, o corpo sangrando no chão e o rapaz procurando por bens valiosos pelo quarto. Percebemos os muitos sentimentos de Raskólnikov, contraditórios, mas enfim, está feito e não é possível voltar atrás. A irmã entra e mesmo tomada pelo horror da pintura grotesca é também vítima do ex-estudante. A primeira parte termina com Rodia escapando mesmo tendo um pequeno contratempo.

Dostoiévski - 1863
Dostoiévski – 1863

Dostoiévski nos mostra uma sociedade doente, dominada pela pobreza, pelo vício, pela ganância e pela torpeza. São Petersburgo é esse lugar onde mesmo as pessoas bem intencionadas são vítimas. Vejamos o próprio Raskolnikov até aqui. Ele surge como um rapaz falido, sem esperanças e decidido a mudar rapidamente o seu destino. Ele esta afogado em sentimentos ruins tendo apenas breves suspiros de bondade, algo que torna o personagem complexo e interessante. O escritor, como todos sabem, descreve com maestria os ambientes e as pessoas. Foi fácil desenhar na mente todos aqueles personagens e cenários. Para mim o que mais surpreende são as descrições psicológicas, todas muito claras, nos ponde sempre a par de qual lugar e momento exatos de cada um.

“Detalhes, os detalhes são o principal! São justamente esses detalhes que botam a perder sempre e tudo…”

Raskólnikov

Crime e Castigo é um texto que exige atenção porque as descrições são essenciais à história, e mesmo assim, interessante e nos prende. Eu li as oitenta e uma páginas em duas sentadas, algumas vezes voltei algumas páginas para ter certeza do que estava acontecendo. Voltei também para absorver a escrita e as descrições. Apesar da sujidade e feiura de tudo é um texto belíssimo e eu estou encantado!!!

Um abraço e até a próxima quarta.