DESAFIO

DESAFIO

Minha vida tem sido um desafio ultimamente. Trabalho oito horas por dia, estudo à noite e ainda me proponho a escrever e publicar no Wattpad, além disso, também estou escrevendo um romance YA. Ufa, sem contar o fato de dar atenção ao meu namorado e à família (quanto a essa tenho estado bem relapso, admito). Sem tempo para qualquer coisa comecei a ler textos curtos, o último foi o BrokeBack Mountain e devo dize que é belíssimo, por favor LEIAM!

Mas como estudante de letras devo me impor uma rotina de leitura dos clássico e depurar minha crítica. Eu sei, shame on me!!! Não tenho lido nada assim e por essa razão decidi me impor duas metas para 2016:

  1. Ler um clássico da Literatura mundial por mês.
  2. Ler um livro de Machado de Assis por mês.

Confesso ruborizado, até hoje li apenas Dom Casmurro de Machado de Assis e isso aconteceu durante o ensino médio.

Assim sendo, para janeiro perseguirei  esses dois volumes:

  • Crime e Castigo de Fiodor Dostoiévski. Já comecei e parei umas cinco vezes, porém é hora de concluir. Tentarei ler pelo menos 25 páginas por dia para dar conta de concluir até o dia 31 de janeiro.
  • Dom Casmurro de Machado de Assis. Sendo agora mais “idoso”, acredito que terei um outro olhar, menos preconceituoso, sobre o meu ilustríssimo xará, para quem não sabia meu sobrenome é Assis Dias.  Esse livro eu lerei no Kobo então tentarei ler  5% por dia, assim é mais fácil de acompanhar.
Crime e Castigo - Fiodor Dostoiévski : Dom Casmurro - Machado de Assis
Crime e Castigo – Fiodor Dostoiévski : Dom Casmurro – Machado de Assis

Vou compartilhar as minhas leituras por aqui. Quando for possível, vou escrever sobre a leitura de Crime e Castigo às quartas e Dom Casmurro aos sábados. Quando a semana for mais difícil postarei quando puder. Caso não acabe até o fim do mês continuarei no mês seguinte sem problemas.

Dia 25  vou dividir com vocês quais serão os objetivos para fevereiro.

Quem leu até aqui meu agradecimento sincero e até o próximo post!!!

 

O Exorcista – William Peter Blatty

O Exorcista – William Peter Blatty

Contém Spoilers

De acordo com o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, a palavra {#demónio|demônio} tem origem no grego daimónios, «que provém da divindade, enviado por um deus; que tem carácter divino, maravilhoso, extraordinário», através do latim daemŏnĭu-, que era substantivo, na acepção de «pequeno génio» e «o demónio», e {#adjectivo|adjetivo}, significando «divino, maravilhoso». Do grego para o português e para a grande parte das línguas europeias ocidentais, a palavra sofreu, portanto, uma evolução semântica que acarretou a criação de um significado oposto ao original (ver Orlando Neves, Dicionário da Origem das Palavras, Lisboa, Editorial Notícias, e Alice Póvoa, Ana Costa e Ana Ferreira, As Faces Secretas das Palavras, Porto, Edições ASA).

Fonte: CiberDúvidas da Língua Portuguesa

Dos muitos sites que pesquisei essa definição acima me parece a mais concisa. Então, se buscarmos a precisão lexical, veremos que esse termo é cercado, principalmente, de conotação religiosa. Em sua utilização inicial era tomado para designar seres sobrenaturais, no entanto, a dicotomia ente o “bem” e o “mal” foi assumido muito depois com o surgimento dos cultos religiosos após a morte de Jesus Cristo.  Dessa forma qualquer entidade que, seja ela criada no imaginário popular ou surgida na história de civilizações antigas,  é tomada como demoníaca. Esse termo é atribuído a muitas entidades na história judaico-cristã. Satanás, por exemplo, é o nome atual do anjo caído Lúcifer. O termo Satanás tem significado de “opositor”, que faz dele o inimigo de todos os cristãos.

Mas não é dessa entidade que iremos falar aqui.

O Exorcista - William Peter Blatty
O Exorcista – William Peter Blatty

William Peter Blatty lançou em 1971 o famoso livro “O Exorcista” que foi imediatamente um grande sucesso. Apenas dois anos depois foi lançado o filme que é um dos maiores ícones do cinema mundial.

Chris McNeil, uma famosa atriz de Hollywood, está em Washington gravando um filme e sua filha é possuída por uma forma demoníaca. Após os médicos falharem em encontrar um diagnóstico adequado, acreditam que a possessão é fruto de autossugestão e recomendam que ela busque um sacerdote que realize um ritual de exorcismo na tentativa que a autossugestão traga a cura. Chris é levada até um padre que é também um psiquiatra, Damien Karras, que luta com sua própria fé. Ele prontamente decidir ajudar, porém informa que será muito difícil que a igreja autorize o exorcismo. Em poucas semanas ele se convence e consegue a autorização. A igreja chama um padre mais experiente para realizar o ritual, Lankester Merrin, que morre durante o ritual. Karras, frustrado com o acontecimento, ordena que o demônio o tome. Quando isso acontece e no seu último momento de lucidez antes que a possessão se estabeleça atira-se pela janela e morre após rolar um longo lance de escadas.

O Exorcista é um história que já está incrustrada no imaginário das pessoas, por essa razão não falarei aqui sobre qualidade ou assuntos a fins. Apenas sobre as minhas impressões pessoais.

Assisti ao filme quando tinha apenas doze anos de idade, acredito que todos conheçam o impactado do filme sobre uma criança no início dos anos 90. Antes de todo esse exagero da computação gráfica. Nessa época o filme já tinha quase vinte anos que para mim era um filme antigo, porém em mim teve um impacto arrebatador. Fui um menino que adorava assistir filmes de terror e esperava sonhar com eles. No sonho era como se eu fizesse parte da história. Li o livro aos dezesseis anos quando morava em São Paulo. Umas das primeiras coisas que fiz quando cheguei por lá foi fazer minha ficha na biblioteca de Diadema,  já que em Fortaleza não temos bibliotecas públicas. Peguei o livro e li rapidamente. Todos aqueles novos detalhes que o livro trazia eram maravilhosos.

E hoje ao rever o filme, após uma releitura, cheguei a uma conclusão: além de grande escritor, Blatty é também um grande roteirista. Eu jamais conseguiria condensar a história contida no livro em um filme de apenas duas horas.

Na realidade a história é sobre vingança. O demônio concatenou todos acontecimentos para que se encontrasse novamente com o padre Merrin. Pazuzu é um demônio Sumério, é a personificação do vento sudoeste. Na mitologia era o rei dos ventos, filho de Hanbi, que trazia tempestade e a estiagem. Seu mito remonta de 1000 a.C. Tinha corpo de homem, asas, cabeça de leão ou cachorro, patas no lugar dos pés e o corpo escamoso. Era representado com a mão direita levantada e outra baixada, dicotomia entre a vida e a morte. Não era visto totalmente como mal, pois as pessoas traziam a sua imagem pendurada no pescoço ou na entrada da casa. Era também o protetor das grávidas, pois as protegia contra o demônio Lamashtu que matava os recém nascidos. Assim, volto à definição do termo demônio. Percebem como o mal não era absoluto?  Como é citado no livro, o padre Merrin teve um embate anterior com essa entidade, dez anos antes na África. Portanto, eles já se conheciam quando se encararam no sul do Iraque durante escavações arqueológicas.

Pazuzu e Pe. Merrin
Pazuzu e Pe. Merrin

Assim, o demônio fez todas as ligações necessárias. Ele deixou uma tábua ouija ao acesso da pequena Teresa Regan (Linda Blair) que, com a curiosidade que é natural em jovens de doze anos, começou a brincar com o desconhecido, a porta ficou aberta. Lentamente ele foi avançando para possuí-la. Primeiro eram apenas ruídos irritantes pela casa, depois a doença de Regan.

Chris MacNeil
Chris MacNeil

Ela é filha da famosa atriz Chris MacNeil (Ellen Burstyn), que passa por um momento de decisões em sua vida, está gravando um filme e recebe um convite para dirigir outro (seu grande sonho). Como nem tudo são flores, a doença da filha começa a afetar sua vida financeira e ao consultar seu administrador descobre um prejuízo em uma aplicação que não rendera o esperado e para arcar com as despesas deve atuar em mais um filme no mesmo ano. Para piorar o cenário, não pode contar com seu ex-marido, o relapso pai de Regan. E por fim, pesa sobre Regan a possível acusação de ter assassinado o diretor de Chris, Burke Dennings (Jack MacGowram).

Após esgotar todos os recursos médicos, eles acreditam que a doença de Regan seja de fundo psicológico, uma espécie de sonambulismo semelhante as possessões demoníacas em civilizações menos desenvolvidas. A solução seria então realizar um ritual de exorcismo.

Cris McNeil é levada até o padre Damien Karras (Jason Miller), que é jesuíta. Além de padre é psiquiatra, atribuindo os estados de possessão às doenças mentais. Cético, porém, ao ver a tristeza da atriz decide ajudar. Padre Karras tem sua paróquia profanada por satanistas que aparentemente realizaram uma missa negra naquele lugar. Lá é encontrado um papel com texto datilografado em Latim, quem escreveu o texto era fluente na língua, tinha dedos pequenos e usara a máquina de escrever da secretária de Chris. O que pensar diante disso? Os fatos se complicam e ele decide pedir ajuda à arquidiocese para a realização do exorcismo.

O presidente da ordem dos jesuítas decide chamar o missionário Lankester Merrin (Max Von Sydow) que possuía mais experiência. Não era do conhecimento da ordem que se tratava da mesma entidade. Assim, estabelece-se o embate. O filme não mostra, mas os dois tinham muita intimidade. O demônio demonstra nos diálogos esse reconhecimento.

O Exorcista
O Exorcista

Assim, para explicar a minha teoria dos planos de Pazuzu, vemos que ele escolheu um indivíduo que era rico (ela não morreria em um hospital psiquiátrico público), que precisava de descrição (pela posição de destaque de sua mãe), que seria difícil para a igreja ignorar um pedido de uma estrela de cinema e por fim o padre mais acessível era da mesma ordem de Karras. Enfim, não é difícil ver que o filme é um plano de vingança e todo o resto é apenas efeito colateral. Esses fatos só se mostram no livro, já que o filme seria muito longo para mostrar todos o detalhes. Eis a genialidade de Blatty.

A chegada de Merrin à casa dos MacNeil.
A chegada de Merrin à casa dos MacNeil.

Para mim os dois, tanto livro quanto filme, são espetaculares. As subtramas também nos prendem e os personagem são complexos e humanos. Regan é uma menina doce, Chris é uma mãe preocupada e uma trabalhadora aplicada, Karras é um padre com dúvidas sobre sua fé, os médicos são arrogantes (desculpem-me mas considero a maioria assim), os padres bebem e fumam e o detetive é irritante. E ainda devo mencionar o padre Dyer, amigo em comum de Chris e Karras, depois da cena da festa me pergunto se ele era a cota gay da trama.

Toda a aura de mistério e suspense criada é assustadora. A primeira vez que li todos os barulhos do ambiente me deixavam de cabelos em pé. Não vou falar dos detalhes técnicos aqui, já foram exaustivamente explorados nesses 42 anos de vida desse clássico do cinema e da Literatura americana.

Poderia me estender ainda mais, porém acho que já é suficiente.