O Homem que Sumiu

Aquela era uma manha cinzenta. O cheiro da terra molhada pela chuva se fazia presente. Num mês de férias, não lembro se no começo, meio ou final de ano, mas com certeza era um mês de férias. Minha avó Rosinha, que morava com uma filha e seu marido e Alessandra, neta como eu, porém criada como filha. Alessandra sempre foi uma prima divertida. O riso era livre enquanto estávamos juntos, assim como naquela manhã cinzenta.

A casa  da minha tia não era distante da minha. A companhia da minha avô era muito importante para mim, assim como normalmente é para a maioria dos netos. Estávamos lá durante aquelas férias, muitos primos se reuniam ali. Ríamos na área da frente. Falávamos bobagens e coisas sérias, tão sérias quanto podem ser entre adolescentes. Minhas primas sempre foram muito divertidas e, digo novamente, o riso corria solto quando nos reuníamos.

Era comum transitar a pé naquele bairro. Todos nós, juntos, rindo ou discutindo fatos sérios. Começávamos a crescer e os interesses a mudar, porém sempre com aquela alegria infantil que teimava em não partir. Estou fugindo dos fatos que desejo narrar aqui.

Naquela manhã cinzenta, após uma noite de chuva, o asfalto ainda estava molhado. Alessandra e eu decidimos visitar Dôra, esposa de um outro primo nosso, Paulinho. É difícil precisar a hora que saímos da casa da Rosinha, mas devia ser por volta das nove da manhã. Alessandra ia “mangando” das pessoas que passavam por nós. Ela sempre vinha com uma tirada espirituosa e eu adorava isso nela. Eu ria até minhas bochechas doerem. Não era diferente naquela manhã. As lágrimas me obrigavam limpar os olhos o tempo todo. Dôra também era divertida. Sorrio aqui, sozinho, lembrando dessas duas pessoas tão queridas. E cá estou eu fugindo do assunto novamente, que belo saudosista estou me saindo.

Enfim, já estavamos na rua onde ficava a casa do meu primo. Sempre rindo passamos pelas lojas, depois pelas casas. Alessandra percebeu um homem bêbado caminhando em nossa direção, nos calamos. Fomos tomados por uma sensação estranha. Uma apreensão. Na verdade ele não vinha em nossa direção, ele apenas seguia na rua, enquanto íamos ele voltava. Apenas isso. Era impossível não sentir aquela sensação esquisita. A tagarela Alessandra calou-se. E mudos caminhamos.

O homem não tinha nada de anormal. Estava descalço, uma bermuda escura e uma camiseta esfarrapada. Ele estava cada vez mais perto, senti minha prima me olhar de canto de olho, nervosa, e eu também. A cada passo mais aumentava o aperto no peito. Eu pensava que ia ser assaltado, mas o que ele ia roubar? Eu não levava nada comigo e pelo que me lembro nem ela.  Ela pegou a minha mão buscando um pouco de segurança. Eu me ergui, tentando aparentar coragem. Ele cruzou nosso caminho.

– Bom dia!

Ele falou. Vi nos olhos da Alessandra que ela ia cair na gargalhada assim como eu. Nos olhamos por uma fração de segundo e nos viramos para ver o simples bêbado que cruzara o nosso caminho.

Onde estava? Paramos e olhamos em todas as direções possíveis. Ele havia sumido. Agora sim, estávamos apavorados. Ela com os olhos arregalados e eu com as pernas tremendo. “Corre!” ela disse. E corremos feito loucos até chegar completamente sem ar na casa da Dôra que riu muito da nossa cara assustada.

Ninguém acredita mas isso realmente aconteceu. Toda as vezes que reencontro minha prima falamos sobre isso. É uma história meio louca mas é a mais pura verdade. Não sei porque quis falar sobre isso, mas é uma história legal. Ah! A adolescência… quantas lembranças.

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