Sim, eu já assisti ao filme Brokeback Mountain, porém ler o texto que deu origem ao filme foi uma experiência totalmente diferente. Desde aquele dia no cinema o desejo de ler aquele conto instalou-se em mim, mas apenas alguns depois anos pude enfim concretizá-lo.

A história é totalmente narrada pelo lado de Ennis Del Mar. Um cara que luta pelo sustento sem muito afinco. Vive predominantemente de bicos e um dia aceita o trabalho de pastoreio de ovelhas. Ele é apresentado a Jack Twist, que, segundo a rotina imposta, veria muito pouco nas semanas que estavam por vir. Enfim, chegam ao vale no pé da montanha que dá título à história e lá descobrem um tipo de amor rústico e masculino, e esse sentimento sobreviveria suas vidas inteiras.

A narrativa é direta e as descrições dos diversos ambientes naturais no mostram exatamente os cenários que testemunharam a intimidade desses dois homens. Até que em um determinado dia a solidão e a carência falaram mais alto. Ennis, totalmente inexperiente nesse assunto, deixa-se levar pelo gesto de Jack. Assim, nascia uma história de amor impossível para a sua época e ambiente. Os dois seguem suas vidas, casam-se e com isso vem a distância. A realidade segue impondo os seus limites, então eles mantém seus papeis de masculinidade perante a sociedade, mas encontrando-se de tempos em tempos com a desculpa de pescar sem nunca trazer um peixe sequer.

Estou repetindo, eu sei, mas gostei tanto da história que é impossível não repetir. Então me vem a pergunta? Quem escreveu a história? Quem é Annie Proulx?

annie proulxAnnie Proulx é uma escritora norte americana, casada e divorciada duas vezes, tem dois filhos e é ganhadora de um prêmio Pullitzer. Sua escrita é crua e direta. Seus personagens são de uma realidade desconcertante. Começou escrevendo livros tipo “como fazer” e coisas assim, até dar início a sua produção de contos no começo dos anos 1980. Suas histórias narravam a vida das pessoas e como elas lutavam para superar seus próprios obstáculos.

Dentre o muito pouco que encontrei na internet sobre a escritora, ficou patente a necessidade de falar sobre questões sociais. Mesmo sobe o disfarce de histórias simples.  Até que cheguei a um texto no Time cujo título é “Por que Annie Proulx se arrepende de Brokeback Mountain.” Como assim, ela está arrependida? Mas eis que, com a minha pobre capacidade de tradutor, entendi os fatos e até concordo com ela.

Mas o problema surgiu com o filme. Tantas pessoas entenderam a história completamente errado. E acho importante deixar espaços em branco para os leitores preencherem com suas próprias experiências, mas infortunadamente a audiência que “Brokeback” atingiu mais fortemente é aquela com fantasias vívidas. E uma das razões porque deixamos os portões fechados é que muitos homens decidiram que a história deveria ter um final feliz. Eles não suportam o modo como ela termina – eles não aguentam. Então eles reescrevem a história incluindo todo tipo de namorados, novos amantes e por aí adiante após Jack ser morto. Isso me enlouquece. Eles não entendem que a história não é sobre Jack e Ennis. É sobre homofobia; é sobre uma situação social; é sobre um lugar e uma mentalidade pré-formatada e moralidade. Eles simplesmente não entendem. Eu não posso dizer quantas dessas coisas foram enviadas para mim, assim como eles esperavam que eu respondesse, “se eu tivesse a ideia de escrever assim”. E eles todos começam da mesma forma – Eu não sou gay, mas…  Isso significa que eles são homens e entendem muito melhor que eu como essas pessoas devia se comportar. Mas essa não é história que eu escrevi. E esses não são os personagens daquela história. Os personagens pertencem a mim por lei.

Para mim sempre ficou claro que o foco da história era a homofobia, até porque a história que Ennis conta a Jack sobre os dois fazendeiros que foram mortos de forma brutal deixa isso muito claro. Todos nós sempre torcemos por um happy ending, porém é algo que não cabe no conto. Não cabe mesmo!!! Eles lutaram a história inteira para ficarem juntos e apesar de alguns momentos tristes ele conseguiram seus momentos de paz.

Olhando para um texto assim, repleto de dicotomias, onde ficamos oscilando entre o bruto e o delicado, a força e a fraqueza, o sonho e a realidade, vejo a genialidade da escritora. Ela consegue nos transportar àquele mundo repleto de convenções e mesmo assim apresentar uma história de amor que dura, apesar de todos os problemas.

Amigos, que final é aquele? Não vou ser o cara dos spoilers então procurem o texto e o leiam. Pois nunca antes um cabide, um cartão postal e uma lata de feijão com duas colheres sujas tiveram tanto significado.

O filme é bom, mas o texto é excepcional! Quando eu crescer quero escrever como Annie Proulx. 

Anúncios

2 comentários sobre “Annie Proulx

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s