Claro que isso é muito comum. Conhecer alguém e não conseguir estabelecer um diálogo. Quando a timidez supera a vontade de conversar e tudo aquilo de interessante que existe em você fica guardado nos porões da sua mente. A sua pele é um castelo, daqueles de contos fadas, localizado num monte ermo cercado de espinhos. E tudo o que lhe resta é ficar de corpo presente como um defunto em sua missa fúnebre. Um mero acessório na paisagem, ocupando espaço valioso numa mesa cheia de pessoas engraçadas e divertidas.

Como superar esse fosso cheio de crocodilos? Como ultrapassar essa ponte? Qual caminho seguir para sair dessa rotatória? Leste, oeste, norte e sul. Tantas opções, tantos caminhos. Melhor então é permanecer ali, naquele lugar, escondido, implorando aos deus que ninguém o perceba.

Apesar de extremamente tímido ele tem alguns poucos amigos que tentam matar o dragão e libertar a princesa do castelo. Cansado da solidão ele pensa, “Vamos lá, que mal faz?” Cheio de surpreendente coragem enche o peito e garante a si mesmo que será tudo diferente dessa vez. Toma um banho demorado, até canta enquanto a água que cai do chuveiro cumpre seu papel. Veste-se, perfuma-se e diante do espelho sente orgulho de si mesmo. Entra no carro e segue o caminho para o encontro. Assovia acompanhando a melodia que toca no rádio do carro. Olha-se no retrovisor e sorri. Porém ao chegar ao lugar marcado aquela voz traiçoeira grita dentro da sua cabeça. Reunindo o pouco de dignidade que a timidez não digeriu ergue a cabeça e vai. Cumprimenta todas as pessoas daquele grupo animado e ocupa o seu lugar no ostracismo. Permanece ali, calado, mero expectador da vida.

Eis que percebe um olhar, como longos dedos gelados tocando-lhe a nuca. Pega o celular tentando parecer despercebido e olha a tela como se algo bom surgisse ali. Mas nada está ali, apenas o relógio na screen. Agora aquele olhar arranha-lhe a nuca como unhas precisando de uma boa lixa. O que ele faz? Olha? Usa aquele já desgastado sorriso amarelo?  Um leve cumprimento com a cabeça? Sim faz tudo isso. Mecanicamente, mera convenção social.

Depois que o momento passa, aproveitando que a outra pessoa desviou o olhar, observa melhor o culpado. Essa pessoa chegou depois dele e por isso não foram apresentados. Passa então a observar detidamente o algoz e sente-se profundamente atraído. Desvia o olhar para que as pessoas ao seu redor não percebam o seu interesse. A mente se perde num turbilhão descontrolado, e novamente é atormentado pelos questionamentos. Quem é? Por que olhava detidamente? Muitos outros seguem a esses, baixa a cabeça e fecha os olhos numa tentativa vã de afugenta-los.

A noite segue, ele responde de forma monossilábica as poucas perguntas que seu amigo lhe faz. Tenta mostrar interesse na conversa ao lado, dá algumas opiniões breves. E novamente a sensação. O toque gelado em sua nuca. As unhas que arranham a sua pele a distância. A intuição maltratando a alma como se estivesse despertando-o de um sonho ruim, porém, nada na figura daquela pessoa lembra um sonho ruim, mas sim todo o conjunto é realmente muito bonito. E isso faz fortalecer o sentimento de vergonha. Ao mesmo que tempo que está atraído a timidez distancia-lhe daquilo que naquele momento mais deseja.

As mãos suadas agravam a dignidade que lhe resta, então decide utilizar o pior recurso. “Uma cerveja, por favor.” dirigindo-se ao garçom. Bebe a long neck quase num gole, estava gelada, gostosa, e de súbito a cabeça rodou. Do outro lado da mesa seu objeto de desejo sorria, era óbvio que percebia o drama. E ao contrário do que pensava antes, atirava-lhe um olhar terno, como se olhasse um cachorrinho. Com o rosto em chamas virou a segunda cerveja, mas dessa vez apenas meia garrafa.

Decide então que essa situação é insustentável e levanta-se, deixa o dinheiro das cervejas sobre a mesa e se encaminha para a porta. No entanto, existem alguns obstáculos que o impedem de prosseguir. Primeiro seu amigo o segura pelo braço. “Não vai, é cedo ainda!” Com alívio percebe que seu amigo não percebera o que acontecia, aquele pequeno flerte, seria a pior coisa. Seriam apresentados, os outros se afastariam para dar-lhes privacidade e ele, como que atingido por um raio, cairia morto. Sim, como eu disse antes, aquilo era um drama impossível de escapar. Desculpou-se dizendo que não sentia-se bem, seguido por um abraço apertado e um beijo no rosto como despedida.

O desespero a cada passo aumentava em seu peito. Ele sempre foi assim, de uma timidez quase patológica, porém o tempo ensinou-lhe a criar uma máscara que é confundida com arrogância, algo típico dos tímidos. Sentia-se seguido, sabia que aqueles olhos o seguiam enquanto caminhava e apertava muitas mãos em despedida. O caminho prolonga-se de forma inesperada, sua vontade é correr, mas assim a máscara cairia e todo aquela falsa segurança cairia por terra. Então respirando fundo agradece a cada um o convite.

Quanto mais perto chega mais forte é a sensação que aqueles olhos causam. Apesar do contato que lhe causa ainda mais acanhamento prefere um abraço breve, pois suas mão suam muito. Então, o próximo é o dono daquele olhar. Vê de relance ele se levantando. Sem poder fugir, enxuga as mãos nas calças o mais disfarçadamente que pode e estende a mão.

“Me chamo Paulo.” diz disfarçando o tremor na voz, é um aperto de mãos firmes. “Sou Daniel, prazer”, responde o outro, “muito prazer mesmo”, puxando para um abraço quase forçado. Quando o abraço longo acaba, olham-se nos olhos. Paulo se despede e caminha com as pernas bambas, solta mais alguns “tchaus” e “obrigados” e caminha o mais rápido que pode para o carro.

Seguro dentro do carro pode respirar fundo. Enfim em casa tranquiliza-se, deita e seus sonhos são ternos. Possíveis futuros abrem-se para ele, porém é assunto para um outro dia. Boa noite.

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