O Exorcista – William Peter Blatty

O Exorcista – William Peter Blatty

Contém Spoilers

De acordo com o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, a palavra {#demónio|demônio} tem origem no grego daimónios, «que provém da divindade, enviado por um deus; que tem carácter divino, maravilhoso, extraordinário», através do latim daemŏnĭu-, que era substantivo, na acepção de «pequeno génio» e «o demónio», e {#adjectivo|adjetivo}, significando «divino, maravilhoso». Do grego para o português e para a grande parte das línguas europeias ocidentais, a palavra sofreu, portanto, uma evolução semântica que acarretou a criação de um significado oposto ao original (ver Orlando Neves, Dicionário da Origem das Palavras, Lisboa, Editorial Notícias, e Alice Póvoa, Ana Costa e Ana Ferreira, As Faces Secretas das Palavras, Porto, Edições ASA).

Fonte: CiberDúvidas da Língua Portuguesa

Dos muitos sites que pesquisei essa definição acima me parece a mais concisa. Então, se buscarmos a precisão lexical, veremos que esse termo é cercado, principalmente, de conotação religiosa. Em sua utilização inicial era tomado para designar seres sobrenaturais, no entanto, a dicotomia ente o “bem” e o “mal” foi assumido muito depois com o surgimento dos cultos religiosos após a morte de Jesus Cristo.  Dessa forma qualquer entidade que, seja ela criada no imaginário popular ou surgida na história de civilizações antigas,  é tomada como demoníaca. Esse termo é atribuído a muitas entidades na história judaico-cristã. Satanás, por exemplo, é o nome atual do anjo caído Lúcifer. O termo Satanás tem significado de “opositor”, que faz dele o inimigo de todos os cristãos.

Mas não é dessa entidade que iremos falar aqui.

O Exorcista - William Peter Blatty
O Exorcista – William Peter Blatty

William Peter Blatty lançou em 1971 o famoso livro “O Exorcista” que foi imediatamente um grande sucesso. Apenas dois anos depois foi lançado o filme que é um dos maiores ícones do cinema mundial.

Chris McNeil, uma famosa atriz de Hollywood, está em Washington gravando um filme e sua filha é possuída por uma forma demoníaca. Após os médicos falharem em encontrar um diagnóstico adequado, acreditam que a possessão é fruto de autossugestão e recomendam que ela busque um sacerdote que realize um ritual de exorcismo na tentativa que a autossugestão traga a cura. Chris é levada até um padre que é também um psiquiatra, Damien Karras, que luta com sua própria fé. Ele prontamente decidir ajudar, porém informa que será muito difícil que a igreja autorize o exorcismo. Em poucas semanas ele se convence e consegue a autorização. A igreja chama um padre mais experiente para realizar o ritual, Lankester Merrin, que morre durante o ritual. Karras, frustrado com o acontecimento, ordena que o demônio o tome. Quando isso acontece e no seu último momento de lucidez antes que a possessão se estabeleça atira-se pela janela e morre após rolar um longo lance de escadas.

O Exorcista é um história que já está incrustrada no imaginário das pessoas, por essa razão não falarei aqui sobre qualidade ou assuntos a fins. Apenas sobre as minhas impressões pessoais.

Assisti ao filme quando tinha apenas doze anos de idade, acredito que todos conheçam o impactado do filme sobre uma criança no início dos anos 90. Antes de todo esse exagero da computação gráfica. Nessa época o filme já tinha quase vinte anos que para mim era um filme antigo, porém em mim teve um impacto arrebatador. Fui um menino que adorava assistir filmes de terror e esperava sonhar com eles. No sonho era como se eu fizesse parte da história. Li o livro aos dezesseis anos quando morava em São Paulo. Umas das primeiras coisas que fiz quando cheguei por lá foi fazer minha ficha na biblioteca de Diadema,  já que em Fortaleza não temos bibliotecas públicas. Peguei o livro e li rapidamente. Todos aqueles novos detalhes que o livro trazia eram maravilhosos.

E hoje ao rever o filme, após uma releitura, cheguei a uma conclusão: além de grande escritor, Blatty é também um grande roteirista. Eu jamais conseguiria condensar a história contida no livro em um filme de apenas duas horas.

Na realidade a história é sobre vingança. O demônio concatenou todos acontecimentos para que se encontrasse novamente com o padre Merrin. Pazuzu é um demônio Sumério, é a personificação do vento sudoeste. Na mitologia era o rei dos ventos, filho de Hanbi, que trazia tempestade e a estiagem. Seu mito remonta de 1000 a.C. Tinha corpo de homem, asas, cabeça de leão ou cachorro, patas no lugar dos pés e o corpo escamoso. Era representado com a mão direita levantada e outra baixada, dicotomia entre a vida e a morte. Não era visto totalmente como mal, pois as pessoas traziam a sua imagem pendurada no pescoço ou na entrada da casa. Era também o protetor das grávidas, pois as protegia contra o demônio Lamashtu que matava os recém nascidos. Assim, volto à definição do termo demônio. Percebem como o mal não era absoluto?  Como é citado no livro, o padre Merrin teve um embate anterior com essa entidade, dez anos antes na África. Portanto, eles já se conheciam quando se encararam no sul do Iraque durante escavações arqueológicas.

Pazuzu e Pe. Merrin
Pazuzu e Pe. Merrin

Assim, o demônio fez todas as ligações necessárias. Ele deixou uma tábua ouija ao acesso da pequena Teresa Regan (Linda Blair) que, com a curiosidade que é natural em jovens de doze anos, começou a brincar com o desconhecido, a porta ficou aberta. Lentamente ele foi avançando para possuí-la. Primeiro eram apenas ruídos irritantes pela casa, depois a doença de Regan.

Chris MacNeil
Chris MacNeil

Ela é filha da famosa atriz Chris MacNeil (Ellen Burstyn), que passa por um momento de decisões em sua vida, está gravando um filme e recebe um convite para dirigir outro (seu grande sonho). Como nem tudo são flores, a doença da filha começa a afetar sua vida financeira e ao consultar seu administrador descobre um prejuízo em uma aplicação que não rendera o esperado e para arcar com as despesas deve atuar em mais um filme no mesmo ano. Para piorar o cenário, não pode contar com seu ex-marido, o relapso pai de Regan. E por fim, pesa sobre Regan a possível acusação de ter assassinado o diretor de Chris, Burke Dennings (Jack MacGowram).

Após esgotar todos os recursos médicos, eles acreditam que a doença de Regan seja de fundo psicológico, uma espécie de sonambulismo semelhante as possessões demoníacas em civilizações menos desenvolvidas. A solução seria então realizar um ritual de exorcismo.

Cris McNeil é levada até o padre Damien Karras (Jason Miller), que é jesuíta. Além de padre é psiquiatra, atribuindo os estados de possessão às doenças mentais. Cético, porém, ao ver a tristeza da atriz decide ajudar. Padre Karras tem sua paróquia profanada por satanistas que aparentemente realizaram uma missa negra naquele lugar. Lá é encontrado um papel com texto datilografado em Latim, quem escreveu o texto era fluente na língua, tinha dedos pequenos e usara a máquina de escrever da secretária de Chris. O que pensar diante disso? Os fatos se complicam e ele decide pedir ajuda à arquidiocese para a realização do exorcismo.

O presidente da ordem dos jesuítas decide chamar o missionário Lankester Merrin (Max Von Sydow) que possuía mais experiência. Não era do conhecimento da ordem que se tratava da mesma entidade. Assim, estabelece-se o embate. O filme não mostra, mas os dois tinham muita intimidade. O demônio demonstra nos diálogos esse reconhecimento.

O Exorcista
O Exorcista

Assim, para explicar a minha teoria dos planos de Pazuzu, vemos que ele escolheu um indivíduo que era rico (ela não morreria em um hospital psiquiátrico público), que precisava de descrição (pela posição de destaque de sua mãe), que seria difícil para a igreja ignorar um pedido de uma estrela de cinema e por fim o padre mais acessível era da mesma ordem de Karras. Enfim, não é difícil ver que o filme é um plano de vingança e todo o resto é apenas efeito colateral. Esses fatos só se mostram no livro, já que o filme seria muito longo para mostrar todos o detalhes. Eis a genialidade de Blatty.

A chegada de Merrin à casa dos MacNeil.
A chegada de Merrin à casa dos MacNeil.

Para mim os dois, tanto livro quanto filme, são espetaculares. As subtramas também nos prendem e os personagem são complexos e humanos. Regan é uma menina doce, Chris é uma mãe preocupada e uma trabalhadora aplicada, Karras é um padre com dúvidas sobre sua fé, os médicos são arrogantes (desculpem-me mas considero a maioria assim), os padres bebem e fumam e o detetive é irritante. E ainda devo mencionar o padre Dyer, amigo em comum de Chris e Karras, depois da cena da festa me pergunto se ele era a cota gay da trama.

Toda a aura de mistério e suspense criada é assustadora. A primeira vez que li todos os barulhos do ambiente me deixavam de cabelos em pé. Não vou falar dos detalhes técnicos aqui, já foram exaustivamente explorados nesses 42 anos de vida desse clássico do cinema e da Literatura americana.

Poderia me estender ainda mais, porém acho que já é suficiente.

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O que escrever…

O que escrever…

Sempre tenho vontade de escrever, o tempo todo. Quase sempre sinto-me inspirado nos momentos mais inoportunos. Quando não estou em um lugar tranquilo, quando não tenho o computador a mão, quando a bateria do celular está prestes a acabar, quando não tenho papel e caneta ou quando estou trabalhando e não posso parar.

Tento anotar ao menos a ideia principal, mas nem sempre é possível. Aquela ideia revolucionaria que me fará escrever o maior livro de todos os tempos, ganhar o Nobel de literatura, que me tornará rico e prestigiado, sempre surge quando eu menos posso escrever, ou pelo menos anotar em detalhes. Parece quase uma injustiça do universo ou que os deuses estão conspirando contra mim. Me pergunto como essas ideias surgem para os grandes, pois existe, por exemplo, Stephen King, com uma obra tão extensa. Claro que ele é bem mais velho que eu e que teve muito mais tempo para trabalhar. Estou com o livro dele, “On Writting” por terminar de ler. Confesso que o retorno das aulas e a leitura de “Clarice,” me deixaram com um rastro de livros para concluir a leitura. Mas voltando ao bom Stevie, qual é o seu processo criativo? Como esses universos são criados? Como se criam personagens assim?

Enfim, sou um curioso da Arte da escrita. Se eu pudesse viajar no tempo conversaria com tantos que eu admiro, encheria o saco de cada um com milhões de perguntas. Desde Homero, Cervantes, Poe, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Dante Alighieri… nossa, uma lista enorme. Sei que existem livros que desvendam parte desse mistério, mas meus questionamentos não seriam simples assim. Eu puxaria uma cadeira e sentaria ao lado de Virgínia Woolf, e a observaria escrever, compartilharia um cigarro e traria para ela um trago de uma bebida. Faria massagem nos ombros de Poe quando ao escrever o corvo estivesse muito cansado. Como pensar nisso sem sorrir? Já pensou, debater longamente com Jane Austin sobre suas opiniões “proto-feministas” ou não? Comer madeleines bebendo chá e ouvir as narrativas de Proust…

Parece pretensão, mas é puro devaneio regado a vinho numa noite de sexta feira. Não tenho ambição de ser famoso, minha ambição é de compreender, assimilar e compartilhar esse conhecimento, essa arte. Esse é um dos motivos da existência desse blog. Como vocês sabem sou estudante de letras e costumo compartilhar os resumos que escrevo sobre os textos das aulas. As vezes posto meus escritos, como o do dia 22, mas ainda não tenho autoconfiança o suficiente para postar meus escritos, porém aviso que lentamente estou perdendo a vergonha.

Bom, isso é mais um devaneio, mas é de coração.

Bonum vinum laetificat cor hominis!

Quando não se sabe o que dizer…

Quando não se sabe o que dizer…

Claro que isso é muito comum. Conhecer alguém e não conseguir estabelecer um diálogo. Quando a timidez supera a vontade de conversar e tudo aquilo de interessante que existe em você fica guardado nos porões da sua mente. A sua pele é um castelo, daqueles de contos fadas, localizado num monte ermo cercado de espinhos. E tudo o que lhe resta é ficar de corpo presente como um defunto em sua missa fúnebre. Um mero acessório na paisagem, ocupando espaço valioso numa mesa cheia de pessoas engraçadas e divertidas.

Como superar esse fosso cheio de crocodilos? Como ultrapassar essa ponte? Qual caminho seguir para sair dessa rotatória? Leste, oeste, norte e sul. Tantas opções, tantos caminhos. Melhor então é permanecer ali, naquele lugar, escondido, implorando aos deus que ninguém o perceba.

Apesar de extremamente tímido ele tem alguns poucos amigos que tentam matar o dragão e libertar a princesa do castelo. Cansado da solidão ele pensa, “Vamos lá, que mal faz?” Cheio de surpreendente coragem enche o peito e garante a si mesmo que será tudo diferente dessa vez. Toma um banho demorado, até canta enquanto a água que cai do chuveiro cumpre seu papel. Veste-se, perfuma-se e diante do espelho sente orgulho de si mesmo. Entra no carro e segue o caminho para o encontro. Assovia acompanhando a melodia que toca no rádio do carro. Olha-se no retrovisor e sorri. Porém ao chegar ao lugar marcado aquela voz traiçoeira grita dentro da sua cabeça. Reunindo o pouco de dignidade que a timidez não digeriu ergue a cabeça e vai. Cumprimenta todas as pessoas daquele grupo animado e ocupa o seu lugar no ostracismo. Permanece ali, calado, mero expectador da vida.

Eis que percebe um olhar, como longos dedos gelados tocando-lhe a nuca. Pega o celular tentando parecer despercebido e olha a tela como se algo bom surgisse ali. Mas nada está ali, apenas o relógio na screen. Agora aquele olhar arranha-lhe a nuca como unhas precisando de uma boa lixa. O que ele faz? Olha? Usa aquele já desgastado sorriso amarelo?  Um leve cumprimento com a cabeça? Sim faz tudo isso. Mecanicamente, mera convenção social.

Depois que o momento passa, aproveitando que a outra pessoa desviou o olhar, observa melhor o culpado. Essa pessoa chegou depois dele e por isso não foram apresentados. Passa então a observar detidamente o algoz e sente-se profundamente atraído. Desvia o olhar para que as pessoas ao seu redor não percebam o seu interesse. A mente se perde num turbilhão descontrolado, e novamente é atormentado pelos questionamentos. Quem é? Por que olhava detidamente? Muitos outros seguem a esses, baixa a cabeça e fecha os olhos numa tentativa vã de afugenta-los.

A noite segue, ele responde de forma monossilábica as poucas perguntas que seu amigo lhe faz. Tenta mostrar interesse na conversa ao lado, dá algumas opiniões breves. E novamente a sensação. O toque gelado em sua nuca. As unhas que arranham a sua pele a distância. A intuição maltratando a alma como se estivesse despertando-o de um sonho ruim, porém, nada na figura daquela pessoa lembra um sonho ruim, mas sim todo o conjunto é realmente muito bonito. E isso faz fortalecer o sentimento de vergonha. Ao mesmo que tempo que está atraído a timidez distancia-lhe daquilo que naquele momento mais deseja.

As mãos suadas agravam a dignidade que lhe resta, então decide utilizar o pior recurso. “Uma cerveja, por favor.” dirigindo-se ao garçom. Bebe a long neck quase num gole, estava gelada, gostosa, e de súbito a cabeça rodou. Do outro lado da mesa seu objeto de desejo sorria, era óbvio que percebia o drama. E ao contrário do que pensava antes, atirava-lhe um olhar terno, como se olhasse um cachorrinho. Com o rosto em chamas virou a segunda cerveja, mas dessa vez apenas meia garrafa.

Decide então que essa situação é insustentável e levanta-se, deixa o dinheiro das cervejas sobre a mesa e se encaminha para a porta. No entanto, existem alguns obstáculos que o impedem de prosseguir. Primeiro seu amigo o segura pelo braço. “Não vai, é cedo ainda!” Com alívio percebe que seu amigo não percebera o que acontecia, aquele pequeno flerte, seria a pior coisa. Seriam apresentados, os outros se afastariam para dar-lhes privacidade e ele, como que atingido por um raio, cairia morto. Sim, como eu disse antes, aquilo era um drama impossível de escapar. Desculpou-se dizendo que não sentia-se bem, seguido por um abraço apertado e um beijo no rosto como despedida.

O desespero a cada passo aumentava em seu peito. Ele sempre foi assim, de uma timidez quase patológica, porém o tempo ensinou-lhe a criar uma máscara que é confundida com arrogância, algo típico dos tímidos. Sentia-se seguido, sabia que aqueles olhos o seguiam enquanto caminhava e apertava muitas mãos em despedida. O caminho prolonga-se de forma inesperada, sua vontade é correr, mas assim a máscara cairia e todo aquela falsa segurança cairia por terra. Então respirando fundo agradece a cada um o convite.

Quanto mais perto chega mais forte é a sensação que aqueles olhos causam. Apesar do contato que lhe causa ainda mais acanhamento prefere um abraço breve, pois suas mão suam muito. Então, o próximo é o dono daquele olhar. Vê de relance ele se levantando. Sem poder fugir, enxuga as mãos nas calças o mais disfarçadamente que pode e estende a mão.

“Me chamo Paulo.” diz disfarçando o tremor na voz, é um aperto de mãos firmes. “Sou Daniel, prazer”, responde o outro, “muito prazer mesmo”, puxando para um abraço quase forçado. Quando o abraço longo acaba, olham-se nos olhos. Paulo se despede e caminha com as pernas bambas, solta mais alguns “tchaus” e “obrigados” e caminha o mais rápido que pode para o carro.

Seguro dentro do carro pode respirar fundo. Enfim em casa tranquiliza-se, deita e seus sonhos são ternos. Possíveis futuros abrem-se para ele, porém é assunto para um outro dia. Boa noite.

Sociolinguística

Sociolinguística

Já que as aulas recomeçaram volto aos resumos. Este é o primeiro texto da disciplina Sociolinguística.

A autora inicia o texto afirmando que embora a Sociolinguística tenha sido criada em meados do século XX ela já havia sido abordada anteriormente por Meillet, Bakhtin e membros do Círculo de Praga. Esses cientistas não dissociavam o material da fala do produtor dessa fala, ou seja, o falante, eles consideravam importante analisar as condições da produção da fala. Duas premissas surgem dessa ideia: o relativismo cultural e a heterogeneidade linguística.

O relativismo cultural surge em Franz Boas, que estudava as línguas ameríndias. Esse pensamento levava a conclusão que uma manifestação cultural não é essencialmente superior ou inferior a outras. Linguistas americanos e europeus aumentaram o alcance dessa ideia para a comparação entre as variedades de uma língua estendendo ao repertório de um único falante.

A motivação inicial da pesquisa sociolinguística foi a constatação do baixo rendimento escolar de crianças de comunidades carentes, diferentemente do que acontecia com crianças de classe sociais mais altas. Buscando dentro do vernáculo dessas crianças as diferenças entre o padrão falado e o ensinado nas escolas. Nesse momento a Sociolinguística se voltava para a descrição das variações e dos fenômenos em processo de mudança da língua, expandindo-se depois para outros âmbitos da linguagem humana, como: as relações de poder e dominação, o papel da linguagem na formação e perpetuação de instituições sociais e a transmissão da cultura. Dessa forma é importante diferenciar os aspectos micros (multilinguismo, bilinguismo, diglossia, atitudes linguísticas, manutenção e mudança linguística) e macros (etnografia da comunicação, pragmática linguística, implicaturas conversacionais, línguas pidginis e crioulas, variação linguística e as múltiplas aplicações da disciplina). A Sociolinguística reavaliou a ideia de Chomsky, ampliando o conceito de competência linguística, avaliando o conhecimento do falante para produzir infinitas sentenças, de acordo com o sistema da língua, assim como a capacidade de adaptar a produção dessas sentenças à situação e ao destinatário.

A preocupação com a heterogeneidade linguística ainda advinha da diferença de rendimento escolar das crianças de grupos étnicos e sociais minoritários, principalmente de comunidades afro-americanas. O caráter variacionista desses sociolinguistas criou duas tendências que se relacionavam. A primeira estabelecia uma posição contraria a política compensatória surgida dessa problemática e a segunda partia do pressuposto das diferenças linguísticas entre professores e alunos, eles desconheciam o sistema linguístico uns dos outros. Os pensadores dessa corrente recomendavam que os professores aprendessem a identificar as diferenças dialetais de seus alunos (pronúncia, gramática e erros de leitura).

Do inglês literacy, surge o próximo tema do texto: “Letramento”, no sentido de alfabetização. Começando pelo foco nas mudanças sociopolíticas e demográficas que se seguiram ao uso extensivo da escrita, já que só após a invenção da imprensa é que a leitura e a escrita se espalharam pelos países europeus, antes a escrita era restrita principalmente aos mosteiros. O próximo passo foi a análise do desenvolvimento da tecnologia da escrita nos grupos das sociedades não industrializadas.

O primeiro modelo de estudos do letramento se preocupava na correlação entre a aquisição da escrita e o desenvolvimento cognitivo. De um lado a oralidade e a escrita e do outro o reconhecimento dos poderes inerentes à escrita e daqueles que a utilizavam. Pensamento esse que foi deixado de lado quando se percebeu que a forma de modelar o pensamento (pensamento lógico) se devia muito mais ao como o indivíduo era ensinado (treinamento escolar) do que apenas aprender a escrever.

Brian Street identificou duas maneiras de ver o letramento: atribuindo-lhe um caráter autônomo e uma análise a partir de uma perspectiva ideológica. O primeiro está ligado diretamente à escrita e por consequência à leitura. Pensamento esse permeado pelo preconceito de que aqueles indivíduos que sabem ler e escrever são capazes de desenvolver raciocínios complexos e os outros não. Seguindo esse pensamento, Walter Olson, questionou entre o letramento e a evolução social, histórica e cultural, e também as diferenças entre a linguagem oral e escrita. Desses questionamentos concluiu que praticamente tudo que pode ser escrito pode ser falado, distinguindo-se apenas pelas escolhas linguísticas entre os recursos utilizados das duas modalidades.

            “O que interessa é o que as pessoas fazem com o letramento e não o que o letramento faz as pessoas.” Olson

O modelo ideológico, aqui utilizado diferentemente do sentido marxista, diz que não haveria uma relação causal entre o letramento e o progresso tecnológico. O que é de difícil comprovação empírica, pois os nações mais adiantadas ou mais poderosas são as que mais desenvolveram práticas letradas extensiva e impressas, que possuem índices baixíssimos de analfabetismo funcional.

O último tema do texto é a diferença entre a oralidade e a escrita. A oralidade tem caráter predominantemente local e está sob a influência do momento da utilização, ou seja, o falante é influenciado pelo ouvinte, o que não ocorre com a escrita. Quanto maior é a influência do contexto, menor é a necessidade de precisão lexical. Na escrita o contexto é mais restrito assim a necessidade de maior formalidade e planejamento. Porém não devem ser identificadas como contrárias e sim como uma continuidade que parte da oralidade para o letramento.

Fonte: BORTONI-RICARDO, Stella Maris. A Sociolinguística: uma nova maneira de ver o mundo. In: Manual de Sociolinguística. São Paulo: Contexto, 2014.

A Colina Escarlate

A Colina Escarlate
Crimson Peak
A Colina Escarlate

Guillermo del Toro, conhecido por filmes como O Labirinto do Fauno e A Espinha do Diabo, estreia neste mês em clima de Halloween “A Colina Escarlate”. O filme conta a história de Edit Cushing (Mia Wasikowska), aspirante a escritora que se apaixona pelo enigmático Thomas Sharpe (Tom Hiddleston). Ele e sua irmã Lucille Sharpe (Jessica Chastain) vindos da Europa procuram financiamento para a construção de uma máquina que os salvará da pobreza. Existe uma química instantânea entre os dois. 

Porém, Miss Cushing guarda um segredo, “fantasmas existem!” Ela mesma afirma na primeira frase do filme. Órfã de mãe, a mocinha é visitada pelo fantasma nada amoroso da progenitora um mês após seu passamento; e nesse momento alerta: “Beware Crimsom Peak!”

Depois do assassinato do pai de Edith, ela casa com Thomas e se muda para Allerdale Hall. Lá, percebe que existe algo errado, pois as visitas dos fantasmas se tornam mais freqüentes. Tudo tem uma ar sinistro e de mistério. Lucille Sharpe é uma mulher bela e enigmática, Edith sempre parece desconfortável em sua companhia.

Allerdale Hall
Allerdale Hall

A Colina Escarlate é um filme de detalhes. Allerdale Hall é um banquete para os olhos dos amantes de filmes sombrios. Del Toro construiu a mansão, literalmente, num brilhante trabalho de cenografia visitamos esse propriedade que sangra o tempo inteiro, e em tudo que é assustador está o vermelho sangue da argila que dá nome ao filme. Gosto muito dessa homenagem a clássicos como o “A Casa da Colina” com Vincent Price (1959), “O Chicote e o Corpo” com Christopher Lee (1963), e tantos outros clássicos.

O trabalho técnico na cenografia e no figurino é maravilhoso. Como vimos em outros filmes de Del Toro. Ele é um mestre em criar atmosferas fantasmagóricas. Todo o trabalho em Allerdale Hall é impecável em seus detalhes, tanto que o diretor frequentemente enquadra a personagem em molduras.

O ponto fraco do filme é o enredo,  previsível e em muitos momentos arrastado. Como diz a própria Edith, é uma histórias com fantasmas e não de fantasmas. Então não espere muitos sustos e medo constante. É um filme de suspense (é tenso), é um filme de terror (tem fantasmas), é um filme de fantasia (imagine morar em uma casa que sangra o tempo todo), é um romance, tudo isso com uma estética gótica.

Crimson Peak

Enfim, vamos lá a minha humilde opinião. A mocinha do filme é fraca, mas acredito que a atriz não poderia render mais com um personagem tão sem graça. O par romântico, Sir Thomas Sharpe, é bem executado mas também a personagem não tem conteúdo. Acredito que o ponto alto é a personagem Lucille, que é bela e perigosa. Jessica Chastain conseguiu executar muito bem, ela é forte e aparentemente está sempre a beira de um surto. Como disse antes os detalhes da fotografia enchem os olhos, é sombrio e muito bem acabado. É divertido, nada muito profundo, não acredito que será um clássico. Confesso que esperava algo na qualidade do “Labirinto do Fauno” mas enfim foi divertido ir ao cinema.

Detalhe, assistam em uma sala de cinema IMAX para ver o que o filme tem de melhor: Allerdale Hall.

Crimson Peak
Crimson Peak