Tag – Stephen King

Tag – Stephen King

Já que estou de férias vamos a coisas mais amenas. Passeando pelos blogs do WordPress encontrei o Livros de Calla e achei interessante essa tag criada pela Barbara M. Então vamos lá.

1 – Carrie A Estranha – O primeiro livro que você se lembra de ter lido: O primeiro livro que eu li e ficou na minha memória não foi bem um livro, mas uma trilogia. Foi para a escola e não lembro bem a série, acho que sexta séria, Eram “O diário de Lúcia Helena”, “A hora do amor” e “A hora da luta” de Álvaro Carlos Gomes. O primeiro era o diáriao da personagem feminina, o segundo era um spin off, narrado pelo namoradinho de Lúcia e o último é a continuação da história. Muito bonitinho e bem escrito. Nunca esqueci.

2 – O Pistoleiro – O primeiro livro de uma série que você ama: “A Chegada em Darkover” de Marion Zimmer Bradley, escrito nos anos de 1960. Existia aqui em Fortaleza um locadora de livros quando eu era adolescente e lá haviam dezessete volumes dessa série (acho esses eram todos). Darkover é um planeta fictício que os humanos chegaram por acaso num futuro distante. Lá eles ficaram isolados e passaram a viver de forma medieval. No entanto, era um planeta rochoso e suas rochas transformaram as gerações seguinte dando-lhes poderes, como por exemplo o de controlar tempestades. Vale muito pena ler!!!

3 – Canção de Susannah: Um livro que tenha uma personagem feminina marcante: Continuando com Marion Zimmer Bradley, devo citar todos os livros que tratam de Avalon. As Brumas de Avalon e todos os outros. Sou muito fã!!!

4 – Doutor sono – Uma sequência publicada anos depois: Estou com a Bárbara, “Vampiro Lestat”, mas quando eu li os dois livros eu não sabia dessa diferença de tempo. Para dizer a verdade soube agora!!!

5 – Escuridão total sem estrelas – Um livro de contos maravilhoso do começo ao fim: Nem todos os contos desse livro que eu escolhi são maravilhosos mas é uma excelente escolha, de vez em quando eu os leio novamente. “Contos Fantásticos do Séc. XIX”. Escolhidos por Ítalo Calvino.

6 – Duma Key – Um livro com uma amizade memorável: Tá bom, pode ser clichê mas a minha escolha é “O Menino do Pijama Listrado” de John Boyne.

7 – A maldição do cigano – um livro ‘magro'(pequeno) e ótimo: “Aura” de Carlos Fuentes. Foi um susto!!!

8 – Mago e Vidro: Um livro com um casal lindo: “Nicolau e Alexandra” de Robert K. Massie. É uma biografia, mas acho que tá valendo!!!!

9 – Jogo perigoso – Um livro que você se sentiu angustiado ao ler: “O Exorcista” é um filme que me angustia, mas é muito bom!!!!

10 – A Torre Negra – Um livro que você leu com dó de terminar: “O Oceano no Fim do Caminho” de Neil Gaiman. É curtinho e muito bom!!!

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Resenha: Incidente em Antares

Resenha: Incidente em Antares

Incidente em Antares

     Erico Verissimo nos traz esse romance que, dividido em duas partes, nos conta a saga dos habitantes da cidade fictícia de Antares. Na primeira parte, chamada Antares, temos a história da cidade, desde quando era apenas um povoado na região de fronteira do Rio Grande do Sul chamado Povinho da Caveira, dominado sob a mão de ferro de Francisco Vacariano. Após alguns anos o povoado é elevado a Vila e assume definitivamente o nome de Antares, que Chico Vacariano teimava em explicar como “lugar das antas”. Não muito depois chega à cidade Anacleto Campolargo e foi estabelecida a sanguinolenta inimizade entre os dois clãs. “(…) foi ódio à primeira vista”. Como uma herança genética, a inimizade passou para os descendentes de ambas as famílias que se digladiavam por motivos políticos, comerciais e até no futebol, os ódios e as vinganças cresciam em requintes de crueldade.

     O século virou e Antares começa a se modernizar com o telégrafo, o jornal, o frigorífico, o automóvel e etc., vamos acompanhando a modernização de Antares e as relações políticas se tornando mais complexas e de maior alcance. Então, a pedido do ainda deputado Getúlio Vargas, Xisto Vacariano e Benjamim Campolargo, apertam as mãos sem se olharem cara a cara, selando assim uma paz dolorida, após sessenta anos sem trocarem uma palavra. Com a ascensão de Vargas à Presidência da República, Tibério Vacariano, herdeiro de Xisto, vai ao Rio de Janeiro e a partir daí acompanhamos todos os seus trambiques e negociatas, conseguidas usando o nome do atual chefe de governo, e também acompanhamos a situação política do Brasil. Do lado dos Campolargo é Quitéria, nora de Benjamim, quem assume o clã. E as duas famílias seguem com sua amizade ácida. As condições políticas em Antares vão se deteriorando até que a classe operária decide entrar em greve.

Os mortos deixam seus caixões.
Os mortos deixam seus caixões.

     A segunda parte, O Incidente, começa no dia 11 de dezembro de 1963, com o início da greve geral, que, para o espanto das famílias conservadoras, todas as categorias de trabalhadoras aderiram à greve. Nesse dia sete pessoas morrem em Antares, quase uma calamidade para um município daquele porte. Entre os defuntos de Antares estava Da. Quitéria Campolargo, vítima de um ataque cardíaco, e ao chegar ao cemitério para o sepultamento de Da. Quita descobre-se que os coveiros também aderiram à greve geral. Assim, os sete caixões são deixados na porta do cemitério aguardando o fim da greve. No meio da noite um ladrão, ele ouvira dizer que a matriarca dos Campolargo estaria portando joias de grande valor, decide abrir o esquife a procura do tesouro e foi pego de surpresa quando a defunta de olhos abertos lhe entrega a alma tomando o gatuno por Deus. Após a surpresa inicial dos insepultos, eles descobrem que cada um representava um tipo de habitante de Antares: Uma representante de uma das duas grandes famílias, um advogado vendido, um anarquista, um louco, um comunista, um bêbado e uma prostituta. Decidem voltar à cidade e reclamar o seu direito a um sepultamento digno. Quando amanhece a cidade é tomada pelo odor pútrido dos cadáveres. Eles, após visitarem seus afetos e desafetos, se reúnem no coreto da praça. Ali os defuntos expõem todas as torpezas dos cidadãos. A podridão está em toda parte, tanto dos corpos em decomposição dos cadáveres quanto tanto das vísceras expostas da sociedade antarense. Cornos, esposas desonestas, pederastas, ladrões, fofoqueiras, políticos corruptos, peculatos e todo tipo de sordidez é desmascarada já que os mortos não estão mais a mercê das punições dos homens.

     Nuvens de urubus e milhares de ratos tomam a cidade, os habitantes se revoltam e resolvem atacar os defuntos que decidem voltar aos caixões e então os grevistas permitem os sepultamentos, então aos poucos a cidade retoma a sua rotina e tudo é esquecido e sequer vira lenda, de uma forma tal que todas as transgressões foram remidas.

     Erico Verissimo faz parte da segunda geração do modernismo, também chamado de neorrealismo, baseado no regionalismo, denúncia social, enfoque nos fatos como espécie de documentário e linguagem mais brasileira. Conhecido pela grande obra O Tempo e o Vento, de dimensões proustianas, o autor narra em sua obra tanto a vida urbana nas grandes metrópoles quanto a história e os costumes do Rio Grande do Sul. Incidente em Antares é sua última obra, Verissimo faleceu em 1975 e nos deixou seu legado dividido em romances, contos e livros infantis.

     Incidente em Antares é um romance com dupla característica, a primeira é o caráter de romance histórico tradicional da primeira parte e o segundo é o romance de realismo mágico. Na primeira parte acompanhamos o desenvolvimento social do Rio Grande demonstrado no microcosmos da cidade de Antares. Fatos verídicos servem de pano de fundo para a obra ficcional. A segunda parte, com característica de realismo fantástico e é de forma inusitada que o realismo fantástico se apresenta. Após cerca de 90 capítulos somos arrebatados pelo incidente, os olhos abertos de Da. Quinta Campolargo iniciam a saga dos defuntos deambulantes. Todo o inusitado é substituído pela sátira menipeia, onde os mortos apontam os defeitos dos vivos. Ao morrerem aqueles personagens veem a vida por uma nova perspectiva, ou seja, há o ponto de vista dos mortos e dos vivos. Para os vivos é essencial a permanência do status quo enquanto os mortos, tomados pela indiferença, usam da crítica como arma para atingir seus objetivos. Na condição de mortos todos se igualam para fazerem os vivos refletirem sobre seus desvios morais. Sem esquecer dos pontos divertidos que trazem um pouco de leveza à realidade dura retratada no texto.

     Incidente em Antares é um documento importante de um recorte da história do nosso país. Com ele acompanhamos a evolução política até o golpe militar. O dedo de Cícero Branco apontando toda sujidade da política local se estende a outras esferas políticas, ultrapassando os limites da ficção. Assim, como o dedo de Barcelona aponta os detalhes de uma fotografia de toda a humanidade, essa imagem tem como personagens todas as características aviltantes da condição humana. Acompanhando todos esses personagens que habitam Antares não nos causam espanto as consequências do incidente, para melhor dizer, as não consequências do incidente. Pois com, apenas, boa comida e um pouco de bajulação foi passada uma borracha em tudo que aconteceu e por algum tempo restou apenas um desconforto, como a lembrança borrada de um pesadelo, que mesmo assim é esquecido com o passar do dia.

     A ousadia do autor e dos editores deve ser aplaudida, pois publicar um livro de profunda crítica política sob as barbas dos militares é muita coragem. O livro foi publicado no auge da ditadura militar sob uma conjuntura de censura e perseguição aos artistas, passou às cegas pelos censores, permanecendo até hoje como um expoente tanto de crítica social quanto de qualidade literária.

Erico Verissimo
Erico Verissimo

VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.