Literatura: natureza e conceituação

“Literatura é Arte, é um ato criador que por meio da palavra cria um universo autônomo, onde os seres, as coisas, os fatos, o tempo e o espaço, assemelham-se aos que podemos reconhecer no mundo real que nos cerca, mas que ali – transformados em linguagem – assumem uma dimensão diferente: pertencem ao universo da ficção”.

Nelly Novaes Coelho

Na antiguidade clássica (greco-latina), a literatura era confundida com gramatiké dos gregos por falta de um termo genérico que a designasse, era diferenciada apenas pelos seus gêneros existentes: o lírico, o épico e o dramático. A palavra literatura vem do latim “Litteratura/ae” que significava a ciência relativa às letras ou à arte de escrever, que por sua vez vinha de “Littera/ae”, letra do alfabeto. Com a escrita a linguagem deixa de ser apenas falada, passível de desaperecer com o grupo que a criou, para tornar-se concreta no mármore, argila, pergaminho, ferra, ou qualquer meio disponível.

Durante a idade média (por volta dos séculos XIII e XIV) a literatura permanece ainda no universo da gramática normativa, apenas com o renascimento ela muda um pouco de prisma significando o conjunto de obras literárias produzidas em qualquer lugar ou tempo. Ela era revestida de caráter acumulativo, um conglomerado de obras acabadas e arquivadas pela história, interpretação inteiramente refutada nos nossos dias.

Para o formalismo clássico (séculos XVII e XVIII), regido pela razão de conceituação aristotélica da arte, a literatura é a expressão da beleza e da verdade que existe na essência dos seres, das coisas e dos fatos. O artista era o portador de uma expressão racional da realidade advinda da tradição. Nesse período, a literatura era vista como uma arte que imitava o real e o artista deveria seguir princípios rígidos que não levavam em conta as suas características individuais. O caráter erudito dessa época dizia que a arte de escrever podia ser ensinada, ou seja, julgada pelo seu valor mediante normas, fórmulas ou princípios estritos e gerais que nivelam os artistas pelos mesmos conceitos.

A emoção do artista e a sua originalidade criadora surgem no Romantismo (séculos XVIII e XIX), a literatura não é mais vista pela racionalidade da forma rígida, mas pela expressão do mistério e do enigma da existência. A arte passa a ser estudada por ela mesma, por seus fins e meios. Busca-se uma arte capaz de expressar a verdade essencial da condição humana, ou seja, passa a identificar-se com a vida (conceito ético-estético). O valor de uma obra na expressão do bem e do belo, porém, não mais de forma absoluta sob a rigidez do período anterior, pois o estudo meramente teórico da retórica, poética, até mesmo da estética, formariam apenas pedantes.

A libertação da arte vem com a transição para a nossa época. A poesia passa a ser vista por si mesma, sendo considerada até uma religião, buscando uma realidade diversa da real permeada pela estética com o parnasianismo (expressão do belo em si) e o simbolismo (suprema forma do conhecimento das essências).

Funções da Literatura

Agrupadas em dois aspectos: estético ou não utilitário e ético ou utilitário, que Horácio chamava de dulce e utile. No primeiro caso a literatura se dirige à emoção ou divertimento, no segundo assume um caráter didático. Não é exatamente o gênero literário quem define esses aspectos, mas a intenção essencial que a orienta. A literatura pode assumir muitas outras funções como, por exemplo, as citadas abaixo:

  1. Função Lúdica: destinada ao entretenimento. São, por exemplo, os romances policiais, ficção científica, etc.
  2. Função Pragmática: destinada a uma finalidade prática. Sermões religiosos, conferências, literatura engajada, etc.
  3. Função Sintonizadora (sinfrônica): que tem a capacidade de estabelecer uma conexão com o leitor independente do tempo e do espaço.
  4. Função Cognitiva: quando estabelece uma transmissão de conhecimento psicológico das coisas ou de verdades ocultas entre as relações humanas.
  5. Função Catártica: vê a literatura como instrumento de libertação das pressões humanas.
  6. Função de Elemento Liberador do “Eu”: elemento de evasão, que permite a fuga da realidade, construção de um mundo novo. Pode ser tanto do artista ou do leitor.

Importante deixar claro que nenhuma dessas funções é desempenhada pela obra de maneira pura, ou seja, uma mesma obra pode possuir mais de uma função ao mesmo tempo. Utilizamos esquemas em literatura apenas como recurso didático para uma melhor compreensão do fenômeno literário.

Coelho, Nelly Novaes. Literatura: natureza e conceituação. In: Literatura e linguagem. Sao Paulo: Quiron, 1980. (p. 23-27, 30-32)

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