Inadequado

Angélica e Virgínia conversam.
Angélica e Virgínia conversam.

Existe uma cena em As Horas que está presa em minha cabeça desde ontem quando novamente assisti ao filme. Virgínia constrói um túmulo para um passarinho morto encontrado pelos sobrinhos. Ela e sua sobrinha Angélica conversam sobre o pássaro e sobre a morte. Sua sobrinha questiona para onde iremos após nossa morte. Eu confesso que a resposta de Virgínia me parece absolutamente correta. “We return to the place we came from.” Ela responde após uma pausa. E ambas concordam não recordar sobre esse tal lugar. Se viemos do nada, para lá retornamos, se viemos de Deus, então esse será o nosso destino.

Esse filme me marca em diversos aspectos. As transições, as passagens de tempo entre as três histórias e a forma de Virgínia pensar sobre Mrs. Dalloway. Quem é essa mulhar que acorda certa manhã e decide ir ela mesma comprar as flores? Eu nunca li o livro, um pouco de vergonha ao confessar, porém às vezes quando penso em literatura essa senhora sempre retorna ao meu pensamento. Ontem acordei pensando nesse filme e o assisti novamente, fazia alguns anos que não o via e com minha memória de peixe de aquário foi quase um filme inédito, mas é sempre bom recordar.

O filme, As Horas, conta três histórias paralelas. A primeira é da própria Virgínia Woolf, que, com todos os seus problemas, decide escrever a história dessa mulher que prepara uma festa. A segunda é a história de Laura Brown, uma mulher, acredito que na década de1950 ou 1960, mãe de um menino e que está grávida. Acorda no dia do aniversário de seu marido e decide fazer um bolo para comemorar. E a última, nos dias de hoje, conta um dia na vida de Clarissa Vaughan que tem esse sentimento de obrigação em dar uma festa em homenagem ao seu amigo que ganhou um prêmio.

As três histórias são marcadas pela tensão da vida, sobre as frustrações de desejos não realizados e sobre como conviver com elas. Sabemos desde o começo do filme sobre a condição de Virgínia, as pessoas são mostradas cochichando ou se sentindo desconfortáveis com a sua presença e ela mesma parece se sentir sempre inadequada.

– Minha vida foi roubada de mim. – Diz Virgínia. – Vivo numa cidade que não desejo viver. Vivo uma vida que não desejo viver. Como isso foi acontecer? Está na hora de mudarmos de volta pra Londres. Sinto falta de Londres. Sinto falta da vida de Londres.

– Essa não é você falando. – Leonard responde. – Esse é um aspecto da sua doença.

– Sou eu.

– Não é você.

– É a minha voz.

– Não é sua voz.

– É minha e só minha.

– É a voz que você escuta.

– Não é… É a minha!

Laura está sempre com um sorriso que não se reflete em seus olhos tristes e Clarissa é uma panela de pressão a ponto de explodir. Sinto uma empatia enorme por essas personagens, é como se eu mesmo fosse refletido naquele filme. Estar sempre em situações em que não queria estar e quando se está feliz as pessoas ao redor não compartilham da mesma alegria. Sim, esse sou eu. Não existe redenção, não existe melhora, não existe cura. Sempre um momento de alegria seguida de uma vida inteira de frustração.

Comecei esse texto pensando sobre as questões de vida ou morte, no entanto, a verdade é apenas que eu gostaria de expressar outra coisa. Queria apenas escrever sobre esse sentimento, a inadequação. Onde começa? Quando termina? É como estar sempre sozinho, uma solidão repleta de pessoas, mas todas voltando as costas para você. Onde tudo que se diz é errado ou cada gesto uma gafe. Todos são adequados, com traquejo, com elegância e você é o único estranho, que não se encaixa, selvagem e civilizado ao mesmo tempo.

Sinto-me assim desde que tomei consciência de mim mesmo. Antes, quando criança, achava que todos nós éramos um, e o único sentimento ruim que existia era quando alguém não fazia algo que eu queria, como uma mão paralisada quando meu desejo é acenar. Um dia percebi que não era assim que o mundo funcionava e foi a minha primeira frustração. Desde então tento herculeamente me adaptar a essa realidade, aquele sentimento de “um” ainda me persegue, e muita vezes me sinto magoado quando alguém não me entende ou faço algo errado. Tendo ser gentil, ser eloquente, mas é por vezes um sacrifício.  Busco um pouco de paz em estar sozinho, ou no silêncio de ver um filme. As vozes da minha consciência não param, eu converso o tempo todo comigo, como se estivesse em uma academia filosófica, sempre tentando inferir o porquê de tudo, sempre buscando sentido na mais animalesca atitude humana. Justifico-me o tempo todo, como se sempre estivesse errado. Estou sempre errado? Ou são os outros que estão?

Assim, como Clarissa tenta agradar, tento ser aquela pessoa que as pessoas gostam, mas não consigo na maioria das vezes. Meu maior desejo é usar essa capacidade que as pessoas têm hoje de ativar um botão e não se importarem com nada. Esse sentimento de “foda-se” existe mesmo ou é apenas mais uma máscara? Será que na realidade sou apenas muito transparente? Como se aprende a ser blasé? Onde reside essa capacidade?

Ser inadequado é ser sozinho. Dificilmente encontro alguém assim, porque se são não assumem como eu. Por mais que estejamos acompanhados, ou namorando, ou até casados, mesmo que amemos nossos companheiros, somos sempre incompreendidos, e esse sentimento machuca, então escondemos por trás de uma máscara todo esse sentimento, e veja bem, somos muito hábeis em fazê-lo, enganamos até nós mesmos por um tempo. Esse momento de engano é um alívio. Um oásis no deserto árido das relações sociais.

Hoje, como um homem adulto, percebo ao meu redor essa noção construída de maturidade, que a meu ver parece ser irreal. As pessoas devem ter sucesso e trabalhar como autômatos. A vida se torna uma sucessão de demonstrações de que se é feliz. Não me sinto impelido a essas obrigações, não preciso ser feliz o tempo todo, e quando não estou bem não é criancice. Minhas dores são reais e as suas não são maiores, apenas diferentes.  Uma vez uma professora disse que eu sofria do mal dos poetas, tenho a mente povoada por personagens que lutam para fugir desse cárcere, que pensar demais sobre eles é como sacudir uma gaiola cheia de ratos de laboratório e, por fim, as sutilezas que eu percebo não são mais do nosso tempo. Será? Transito fora do meu tempo? A música, às vezes são apenas ruídos sem sentido e os textos sem nexo.

Concluído e deixando as lamúrias de lado, sou um pouco como os imortais de Borges. Às vezes as sutilezas me despertam. Bebi daquele rio. Um dia talvez volte a me inserir nesses diálogos desconexos, embriagados pelo cotidiano e pelos entorpecentes ou me anestesie de tal forma que encontre o método do “foda-se”. Desconheço o que o futuro me reserva, mas estarei aqui aguardando, não como essa teoria americanizada de sucesso propõe, apenas estarei como expectador desse teatro de fantoches que somos perante a vida. Um dia me adequo às convenções. Estarei vivo? Estarei morto?

Sobre o filme:IMDB

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