A Criação do Personagem

A este processo chamamos também de ficcionalização, que é a transposição da personagem do mundo real para o imaginário.
Como já conversamos, baseamo-nos nas pessoas que conhecemos, ou ouvimos falar, para a construção de nossos personagens. No entanto, não podemos fotocópia-las, até porque todos nós somos complexos demais para um inventário completo de nossas características.
Neste processo o mais funcional é a captura e o reforço das características principais da pessoa da qual queremos decalcar uma personagem, e a partir daí fazer as modificações que nos interessam.
Uma velha tia excêntrica? Excelente material! No entanto, é necessário um processo de transformação e adaptação para que uma personagem palatável seja criado. Talvez a minha tia não seja tão excêntrica, e portanto é necessário carregar nas pinceladas. Posso torná-la um pouco mais magra e mais alta, e fazer com que ela tenha algumas manias que a tornem suficientemente esquisita para que os meus leitores venham a achá-la engraçada. Que tal aumentar as suas posses e fazer com que ela seja uma mão aberta que por caprichos da sorte quanto mais gasta, mais rica fica? Vejam que sem querer, ao definir o minha personagem, comecei a criar uma estória.
A personagem com estas mudanças deixa de ser um familiar e começa a ser ela mesma. Isto, inclusive, evita que eu deixe a tia querida triste ao ver-se num personagem exagerado em minha estória.
Quando se trata de figuras públicas, as mudanças de suas características no processo de ficcionalização tornam-na irreconhecível, ou quase, o que irá manter-nos longe de um processo que poderia ter conseqüências desagradáveis, como o arresto de toda uma edição impedindo, quiçá, a existência de um romance de sucesso.

  • A Personagem Composta

Uma forma que permite a criação de personagens mais ricos é a utilização do método composto, onde as características de pessoas diversas são reunidas na criação de uma única personagem.
Digamos que eu tenha um primo gordo. Posso pegar o perfil psicológico que criei para a minha tia e implanta-lo no primo. Só que o meu primo é grande, e preciso de uma personagem de baixa altura e, quem sabe, com pés e mãos pequenos. Portanto, vou diminuir a sua altura, torna-lo em alguém insignificante ao qual ninguém dá importância. Mantenho a característica de Midas e faço com que em todas as situações, por mais que se esforce, não consiga se tornar mais pobre.
A partir daqui, criamos um antagonista invejoso que quer destruí-lo e pronto! Já temos uma estória prontinha para ser escrita. É claro que, pelo menos em minha versão, o antagonista sempre vai se dar mal.

  • Personagens Planas e Personagens Esféricas

Boa parte dos antigos desenhos animados eram baseados nesta estrutura simples, onde havia um protagonista bonzinho e um antagonista malvado que sempre se dava mal. Assim eram Tom e Jerry, Popeye e outros onde as personagens tinham sempre um comportamento previsível, sendo sempre bom ou mau, engraçado, triste, etc…
Este tipo de personagem é conhecido como Personagem Plana, pois o seu comportamento se mantém dentro dos parâmetros esperados. Um mocinho era sempre um mocinho, enquanto que do bandido só se podia esperar um rol infindável de maldades que incluíam raptar a mocinha, sempre salva ao final do filme por um herói que nunca ficava descabelado.
Aos poucos os escritores e roteiristas começaram a inserir um lado escuro no caráter do mocinho que tornou-se capaz de uma maldadezinha e de um “mau-caratismo” eventual, enquanto que o bandido passa a ser apresentado como um incompreendido, que apronta só porque a sua mãezinha o abandonou, capaz de rasgos de bondade. Estas alterações tornaram, tanto o bandido como o mocinho em figuras muito mais interessantes.
A este tipo de personagem damos a denominação de “Esférica”.
O cuidado que o escritor tem que ter ao lidar com personagens esféricas é da mesma perder a sua verosimilhança quando as mudanças de comportamento são fortes demais e se tornam inconsistentes, dado as atitudes ou descrições da mesma em fase anterior do conto ou romance.

fonte: http://www.escritacriativa.net/escrita/a-questao-do-personagem-ii.html

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